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Caro senhor G.,




Crônica de Giovana Damaceno


Há quanto tempo não lhe escrevo!

Desde a última carta, na qual falava do calor infernal que faz pelas bandas de cá, nunca mais postei uma mensagem, embora tenha escrito várias, mentalmente, sem trégua. Portanto, sinto como se tivesse falado diretamente.

Desta vez, não. É preciso me disciplinar, mesmo de vez em quando, a sentar e tirar as palavras do HD, de forma organizada, alinhada, e falar-lhe serenamente (seria possível?) sobre o que anda me acontecendo por hora.

Muito agito, senhor G.. Aquela correria que pode imaginar ou até mesmo ver daí onde está. Por mais que jure que nunca mais vou me prestar a ser como todos os outros, que correm para lugar algum, de repente me vejo fazendo o mesmo. É um comportamento mimético. Um faz, o outro faz também, e por causa deles outros tantos reproduzem. E quando olhamos pela janela do carro, estão todos alucinados.

Isso, senhor G.. Toquei num ponto interessante. Penso que concorda comigo: o trânsito é o território onde se podem constatar sintomas e consequências desta alucinação de que lhe falo. Por trás de seus volantes, pessoas que se portam educadamente em seus lares, empregos, entretenimento, tornam-se monstruosas, tamanha a falta de educação provocada pelo egoísmo, pois precisam correr! Por quê? E para onde? Precisam chegar na frente, sempre na frente. Por quê? E esse troço é contagioso, senhor G.! Dá medo de ficar mal educada assim também, mas, felizmente, no trânsito ainda me comporto muito bem: paciente e generosa, embora solte uns palavrões como desabafo, pra não explodir de raiva.

Esta pressa por nada... Como entender? Por que as pessoas precisam correr tanto e pra tudo?

Nessas horas sinto uma saudade enorme dos meus dias de infância e adolescência, quando, ingênua e mesmo imbecil, queria crescer logo para ser dona do meu próprio nariz. Nasci independente e autônoma, o senhor sabe, mas como crescer é difícil! Crescer é responsabilidade e comprometimento. É assumir riscos e bancá-los. Êita, que tem muita gente por aí que só vive, empurrando e correndo, e não se dá conta!

Na verdade, não sei o que é pior, senhor G.. Ser uma alienada, que vive bem desse jeitinho, ou consciente que sofre. Como disse minha professora recentemente, “a consciência liberta, mas também aprisiona”. Há momentos em que não gostaria sequer de ter conhecimento desta frase. Há momentos em que pensar faz mal. E o senhor, que me conhece tão bem, sabe disso.

Estava sentindo falta de escrever-lhe, senhor G.. É uma das poucas oportunidades que tenho de falar sem preocupação em raciocinar, alinhar ideias, provar algo para alguém; posso, enfim  tirar os meus pés do chão quando lhe falo.

Obrigada por estar sempre aí, a minha disposição. Tenho recebido suas respostas, apesar da minha distância e deste grande hiato desde a última mensagem. O senhor sabe, né, senhor G.? Conhece minhas limitações.

Seguimos assim, então. Não vou prometer regularidade, mas, também estou sempre aqui.

Com saudades e o respeito de sempre.


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Créditos da imagem: Corbis Imagens (http://www.corbisimages.com)

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