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Dentro dos Olhos



Conto de Alex Azevedo Dias


Desajeitadamente, ergueu os braços. Apoiando-se na parede com uma das mãos, com a outra, mexendo os dedos e movimentando o braço em semicírculo, tateou, com cuidado, os objetos à sua volta. Fechou os olhos para fingir certo controle. Achava que a escuridão intencional fosse preferível à imposta. Com os olhos fechados simulou o breu do mesmo jeito que simulava quando criança.

Por volta dos treze anos, mais ou menos, Rico, como era carinhosamente chamado por sua mãe, ao entardecer, andava na varanda da casa dos seus pais com as pálpebras cerradas e os braços esticados para frente, tateando tudo que encontrasse pelo caminho. Nessa idade, Américo era assombrado pela angústia da cegueira. Por ter um glaucoma avançado, os médicos desenganaram-no, antecipando a fatalidade visual pela degeneração ocular.

Tentando assimilar o fantasma da cegueira, ele fechava os olhos diariamente naquele determinado horário e andava, imerso na escuridão provocada e consentida, para se acostumar com a falta de visão que chegaria galopante num futuro próximo. Por ser filho único, sua mãe o cercara de mimos, apesar dos protestos silenciosos do seu pai. Embora detestasse o apelido que sua esposa pusera em seu filho, tolerava sem reclamar, pois de certa forma se sentia culpado pela doença de Américo. Sendo médico, inexplicavelmente deixara escapar os sintomas - mesmo que não fossem tão evidentes assim - da tragédia que se abatera sobre seu filho.

Américo não se sentia amado por seu pai. Mesmo antes que mergulhasse no mundo de sombras, acreditava que fosse completamente invisível para seu pai. Enquanto sua mãe o cobria de atenção, pecando pelo excesso de zelo, seu pai não se dirigia a ele nem para lhe educar ao se perder pelos desvãos da infância. Gusmão vivia soterrado por suas obrigações no hospital. Quase nunca aparecia em casa. E quando estava de folga e não tinha que cumprir plantões e exaustivas jornadas de trabalho, trancava-se em seu escritório particular e, de lá, quase não saía.

O que Américo mais queria era ser tocado pelo pai. Tateava os objetos na escuridão imaginando-se tomado pela clareza do olhar clínico de Gusmão. Mas nem o incômodo do apelido com que Sara batizara seu filho lhe tirava do sério. Gusmão afundava em sua confortável poltrona azul, aveludada, e se enterrava no escritório. Ele gostaria que seu pai fosse um pai normal como da maioria de seus colegas. As crianças apavoravam-se com a autoridade dos seus pais, temendo-os e obedecendo-os. Gusmão, nem mesmo alterava a voz para cobrar explicações quando Américo desarrumava seu quarto ou fazia outras peraltices. Seu pai nem mesmo ia ao seu quarto. Se é que soubesse que seu filho tinha um.

Uma vez, não suportando a inexistência paterna, Américo, já com dezessete anos, segurado pela mãe que lhe trançara os braços sobre seu abdômen, tentando impedi-lo de entrar, ele deu uma violenta bordoada com o ombro esquerdo na porta do escritório do pai, abrindo-a. Ao vê-lo bufando de raiva em sua direção, Gusmão manteve-se impávido perante o pavio curto do filho. Foi à mesa do pai com as mãos espalmadas, estapeando uma na outra incessantemente, revirou alguns documentos e bateu com a palma da mão direita no tampo do móvel, reverberando um som de madeira oca. Sara, ainda com os braços enroscados em seu tronco, olhar de agonia, ora fitando Gusmão, ora o filho, permaneceu estatelada. Américo se virou para o pai em sua inércia corriqueira, e despejou o verbo:

- Seu palerma! Medíocre. O senhor não toma atitude. Não tem reação. Não existe! Você não me vê, não me enxerga, não sabe o que fui, o que sou, o que serei. Eu e nada são a mesma coisa. Indiferença, indiferença, indiferença. Eu quero existir, quero ver e ser visto. Não quero ser igual ao senhor, um apático.

Após terminar seu discurso exaltado, perdeu momentaneamente a visão. Gusmão abaixou os olhos e se pôs a escrever alguma coisa, mudo como antes. Sara se ajoelhou e, abraçando o filho, deixou que algumas lágrimas rolassem sem destino, borrando alguns papéis sujos caídos na tábua velha do chão. Diante do desespero da mãe, Américo, ainda cego, teve que consolá-la, mesmo temendo o pior. Mas alguns minutos após ter abandonado o escritório do pai, sua visão, gradativamente, retornou, como um susto envelhecido ficando esquecido no passado.

Américo entrou para a faculdade, formou-se, tornou-se um adulto responsável e constituiu sua própria família. A profecia médica jamais se cumpriu. A única vez que teve sua visão prejudicada novamente foi durante o enterro de Gusmão, quando estava com quarenta e um anos de idade. Essa perda da visão temporária se deu de forma repentina como a anterior, aos dezessete anos, quando entrou enlouquecido no escritório do seu pai. Só que, ao contrário da outra, demorou quase uma semana para se recuperar.

Já estava com mais de sessenta anos, e nunca mais deixara de enxergar. Mas naquela noite, sozinho em casa, acordara cego. Teve um sonho ruim. Estremecera na cama. Levantou com dificuldade, apoiando-se no espaldar de uma antiga cadeira, herança de sua mãe. Fechou e abriu os olhos sucessivamente, esfregou-os com insistência, buscando reorganizar a realidade ao seu redor, mas seus esforços fracassaram. Deslocou-se lentamente, erguendo os braços para logo depois espichá-los paralelamente para frente, como uma alma penada.

Lembrou-se que era daquele jeito que fazia em criança para se acostumar com o breu total. Estava com os olhos bem abertos sem que nada enxergasse. Ao se lembrar dos seus treze anos, apertou bem as pálpebras e manteve seus olhos bem fechados, simulando a cegueira. Foi tateando pela casa inteira, reconhecendo seus pertences mais estimados. Ao roçar a perna esquerda no braço do sofá da sala, uma força magnética o fez abrir os olhos. Tudo ao seu redor continuou escuro, naufragado na cegueira. Mas um feixe forte de luz iluminou um senhor idoso sentado no mesmo sofá.

Américo se aproximou mais e, para seu espanto, viu a figura já velha de seu pai fitando-o com agravo e severidade. Prestes a soltar um grito, abafou-o, apenas deixando escapar um grunhido ao notar que as luzes da casa se acenderam. Sua esposa apareceu na soleira da porta e o olhou com ternura, sorrindo. Américo a viu mais bela do que nunca. Lara, mesmo um pouco reticente pelo olhar de admiração do marido, tomou-lhe a mão e o chamou para que se deitassem outra vez. Ela disse que acordou com sede e foi à cozinha beber um pouco de água.

Ele se acalmou e, também sorridente, seguiu com a esposa, de mãos dadas, até o quarto. Dessa noite em diante, a realidade ganhou um colorido ainda mais bonito. E só durante os sonhos, quando ouvia o silêncio da voz do seu pai, escurecia em seu interior para, ao acordar, abrir os olhos, continuar vivendo e envelhecendo ao lado da mulher amada, sempre com o colorido e a nitidez que pulsava em suas veias.

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