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os cárceres do homem




Poema de rogério fernandes


1
aquele gesto do homem na magnum
com sua suavidade de cobra, na areia de copacabana
e os velhos, outrora imagéticos e cinicos dentro do cinema
muito longe de qualquer desatenção, com o sangue à mostra
refletindo nítidos sonetos de gazetilha no outdoor
da esquina
aquele gesto de abandono
um macaco e um homem em ruínas na sérvia
são paulo em são mateus em valo velho em cidade de deus
margens solidárias em seus cárceres de amianto
caminhamos por muitas ruas, bêbados e de mãos dadas
até encontrarmos um caminho, o tempo de viver é
o desespero negro do asfalto e chuva aos pés de sua casa
onde um bote nos espera, sem adeus, aos encontros do bairro velho
uma mulher de vermelho espera paralítica, sem mais novelos
para tecer a túnica de morte de seus antigos amantes
e, no escuro, em um bairro de havana, fazemos a música
imaginada que tomará o sono, o passeio, a meia noite


2

são dias festivos
calças sujas jogadas no canto da sala
a mulher alta e pálida
o cobertor estampado aquecido pelo sol
que vem de dentro de nós
o cheiro de jasmim e aerosol
o canteiro de flores, o quarto sem retalhos
um pé de sapato / um pé seuemeu/
abstrato lugar da gente no breu
nivelas as costelas entre as minhas
costas e
bebemos apavorados os silêncios
interrompido
num castigo de atrito, fizemos mito
de cores convexas em seu cabelo azul


3
não sou um homem sofisticado, abraço o descartável
num verso longo e mole como camiseta bordada
de longa extensão e som, música sem refrão
pensamento suicida no pacifico acinzentado
desastroso matelassê de jornal, querosene e papelão
gases na cabeça, um prato de comida e a jazz
irresoluta da meditação atravessando o peito
não sei se há quartos aqui, cansados de meditação
aquele pai que não fui nunca será melhor do que o pai
que me trouxe até aqui
o amor que tive, suspeitoso e teso, arquivado e roto
aquele amor está em prontidão nas águas da soleira amanhecida
serena e morta ressentida
vestido de branco descalço bêbado, desço as escadas
do meu bairro
tomado por um santo que não creio
instruido por um livro que não sei de cor
ouço atento a multidão na mesa de jantar
não passo de um homem, cresci pouco,
que sei das coisas? ainda tenho dúvidas, de tantas
coisas e raças que admiro as certezas de quem dorme sozinho
o vento altera as páginas do roteiro
e segue o sopro de novas orquestras
há tantos e tantos corpos na vala da história e tantos e tantos
esquecidos nos documentos do arquivo e tantos e tantos ruídos
em diversas línguas que não sei, em esotéricas paixões que não vivi
em falésias construídas por mineiros e joias esculpidas por portugueses
e tecidos costurados por bolivianos, ah, há tantas músicas que não sei
e tantos beijos e cabelos brancos que não neguei e outros então que
se fizeram de mortos no massacre e missas e reuniões e fotografias
há tanto silêncio e passado no mundo
almoçamos de graça, estilo e permanência
na fluência sem língua e retoque / ônibus vazio e sem motorista
em um sonho, os relógios mudos não abstraem o tempo
e pousa suas horas em mim, recluso e sem memória
outrora pássaro, outrora homem, outrora servo de mim.


4

basta de cantos, de navegações e enganos, o rio em que pensei
afogar os outros outros agora me afogam outrora fruto ainda
canto e sambo
basta, acresce que marcela me amou pelo tempo de algumas
moedas e o intervalo de uma roda de samba
mesmo que eu não cante, basta
mesmo que eu não morra, basta
mesmo que eu não vingue, basta
mesmo que eu não seja, basta
enquanto escrevo, olhos seus entremeados e castanhos
feito de gente e cheiro de azeite, me segues sem pontaria
e arremeto o arco, façanha concreta
um corpo de tejos, desenho e miragem de mar azul
não basta, ainda vivo.

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