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Poemas de Marcelo Sousa




Marcelo Sousa



A TEMPESTADE

Minhas ânforas de paciência.
Minha ciência das coisas simples.
Meus olhos marejados.

Minhas secretas vontades.
Minhas verdades dissimuladas.
Meus dias de ressaca.

Chove.
Há centenas de anos.
Dentro de mim.

Chove.
E eu aqui, engolindo sóis inventados.
Estou pleno de vazios ensolarados.



PACIÊNCIA

A paciência dos gestos.
Mesmo os mais gastos precisam de esmero.
Os gostos do cotidiano refletem-se no rosto.
A delicadeza brava de toda espera.
A poesia contida nos erros.
A malvasia gostosa dos erros.
Tudo é porto, é perto, é corpo.
Tudo se resume ao lábio semiaberto.
A vida subterrânea dos deuses.
Os usos subcutâneos dos sentimentos.
Os malogrados edifícios de carne e cimento.
As sinfonias de martelos e serrotes.
O fogo apagado na sagrada pira.
E o semitom que dissona, assoma, retoma.
A alegria imoral dos totalmente inocentes.
A textura do sangue e seus rubros esquemas.
Certas harmonias só possíveis na ira,
No sexo e no poema.



SANCTUS

Meu melhor inimigo
este corpo exíguo
que se desfaz com calma
transformando matéria em alma.

Esta melhor parte de mim
já nascida para ter um fim
é o que se esconde sob minha pele:
o que o corpo ama, o espírito repele.



NIGREDO

E resta
sempre deste meu negrume
uma fresta, por onde o lume
dos meus olhos escapa.

E a réstia
de luz que chega a esta porta
(coágulo de vida engasgado na aorta)
em vão descobre o que o poema tapa.

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