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Um dia




Crônica de Deanna Ribeiro!


Um dia a gente acorda e nota que uns amigos da época da escola murcharam, estão com a pele marcada; outros, desabrocharam. Podem estar satisfeitos com a profissão ou carregando nos ombros o peso de um trabalho infeliz. Há ainda os cheios de filhos, os solitários, os casados, os separados, os solteiros e até os viúvos. E também outros mais.

Quando temos essa percepção, corremos para o espelho. Não aquele do banheiro ou do quarto, mas o espelho que carregamos dentro de nós, cujo reflexo nos é apresentado sem piedade nem eufemismos: tudo que fomos, somos, fazemos e fizemos. Analisamos uma vida inteira de escolhas, decisões e caminhos percorridos, chegando a conclusões nem sempre serenas. O que poderia ter sido feito de outra forma, mas não foi. Aquilo que nos deixaria mais feliz e que podamos por ene motivos. As pessoas que permitimos à vida levar para longe. Constatações inquietantes, pois, na maior parte das vezes – como diz o ditado – não adianta chorar pelo leite derramado: não se pode mais voltar atrás. Ou “o que não tem remédio, remediado está”.

É responsabilidade individual o resultado de cada escolha x renúncia feita através do tempo, este impiedoso, que não nos dá a oportunidade de consertar os erros e fazer as coisas acontecerem novamente do mesmo jeito. Não! Como bem aprendi com Heráclito, o filósofo, não podemos descer duas vezes o mesmo rio, porque, quando isso acontece, já não se é o mesmo, e novas águas correm ali. Abraçados às experiências vividas, para onde quer que vamos elas serão determinantes nas nossas novas decisões e vivências.

O amor que tivemos medo de sentir e, por isso, afastamos aquela pessoa que nos fazia tão bem poderia nos proporcionar momentos inesquecíveis. E daí se seriam dias, horas, minutos ou um olhar profundo? O emprego que nos cobraria muito poderia ter feito da nossa trilha um caminho trabalhoso, mas agradável no fim das contas. Descobriríamos que podemos muito mais do que imaginávamos? Talvez, mas nunca saberemos, porque nada disso volta igual. O tempo já passou, novas pessoas entraram em nossas vidas e trouxeram, também agarradas a elas, suas próprias bagagens; abriram as malas e despejaram um pouco em nosso colo. Outras oportunidades de emprego surgiram, menos atraentes e mais possíveis, a nosso ver, e as seguramos como a última tábua de salvação no meio do oceano; aceitamos mediocremente o pouco que nos foi ofertado (ou o pouco por que buscamos).

Por medo, acomodação, preguiça, falta de ímpeto, contingências da vida? Ao tempo, não interessam os motivos, por mais justos e justificáveis que sejam. Ele não vai poupar ninguém. Passa, atropelando o que está adiante. É menino teimoso que não ouve. Inútil é pedir, clamar ou tentar agir contra ele. Não há força capaz de superá-lo. Ouso dizer que é ele o grande algoz do homem, a despeito de achar a dúvida uma concorrente à altura.

Cuidar e cuidar-se. O ponteiro anda sempre pra frente.


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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
A Alma de um Monumento..., por SÉRGIO DE MEDEIROS

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