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a que será que se destina? o rosa e a cajuína em fortaleza



Crônica de rogério fernandes


são três versões da mesma pergunta - e vieram a mim a partir de uma experiência concreta. em fortaleza são conhecidas as barracas onde se vendem os produtos das rendeiras, engendrados sobretudo por artesãs, as rendas são feitas de uma variedade de "tramas" que a linha ao ser rendada vai formando para criar o tecido que se fará vestido, saia, cortina, rede, objetos de vestir e cobrir que são a própria essência da cultura nordestina. são coloridas - lembro que nos anos de menino minha avó rendava apenas uma cor - e em alguns lugares, como no centro das rendeiras, no caminho para canoa quebrada, pode-se confundir o espaço com os mercados populares do magreb - a influência árabe sobre o comercio nordestino é conhecida - e imediatamente cantar o conhecido baião, um mantra do inconsciente de ser brasileiro - do cantador diante da artesã: "olê muié rendera/olê muié rendá/ tu me ensina a fazê renda/ que eu te ensino a namorá." estive por lá alguns dias atrás e caminhar pelo mercado me fez lembrar do baião de luiz gonzaga, e as palavras de josé wisnik sobre a composição: a renda se entrelaça com a poesia popular e tanto poesia como fazer renda são igualmente trabalho e desejo, a palavra e os sons são a renda do poeta que tece no vazio o tecido repleto de significados. lembro que cantarolei o baião ao que fui seguido imediatamente por uma das tecelãs. óbvio que a minha caiporice fez com que eu me calasse. mas segui com a renda na cabeça, e de imediato veio à memória a figura de torquato neto, poeta piauiense, e o belo baião-existencial que caetano teceu para ele, cajuína.

acabara de tecer a minha renda de associações, e fiquei com a canção comigo, "existirmos, a que será que se destina"? estar em fortaleza, cidade turística de grande apelo a alegria, talvez não estimulasse grandes reflexões não fosse a conversa que tive defronte ao mar com uma amiga na noite daquele dia. a ironia do tema e do ambiente não me passaram despercebidas. como os personagens do conto "o espelho", de machado de assis, conversávamos amigavelmente sobre questões de alta transcendência; a vida, a morte, o seu sentido. o desejo de abreviá-la. ela defendia que não haveria sentido para a existência além do sofrimento que causamos uns aos outros, e a brevidade seria um ganho, que pouparia o tédio da caminhada. eu argumentava que o sofrimento, mesmo ele, serviria para uma espécie de aprendizado pessoal, isso não implica em "melhora" da pessoa, o aprendizado não nos faz melhor, nos faz diferente do que fomos um dia. o tédio se preenche com a busca para a pergunta pelo sentido da existência. ao nos perguntarmos "a que será que se destina?", mesmo sabendo que a resposta não virá, justificamos o giro em torno do próprio rabo. curiosamente, eu, que sou devedor de machado de assis, busquei em guimarães rosa os argumentos para o sentido da existência, vejo que o vislumbre da linguagem, da cultura e do estar entre as gentes, justifica a caminhada. ela, que também adora o rosa, portou-se como uma machadiana, limitando-se a explicar-me o mundo como um caminhar sem muita sedução. o enfado do eterno mistério. engraçado a associação que fazemos de temperamentos, eu a via como o rosa, agora a vejo como ela mesma, embora ainda haja momentos em que a pressinto entre clarice lispector e ana cristina césar.

não a convenci. tampouco fui convencido por ela. acho que somos feitos de impasse. mas chegando a são paulo fui ao texto de wisnik, que se detêm na interpretação da canção de caetano. no texto, ele recorda três versões da mesma pergunta. uma feita por guimarães rosa, outra por heidegger e a terceira por caetano. argumentando em causa própria, passeio pelo texto de wisnik, sabendo que as iluminações são dele, embora algumas luzes venham de safra própria.

em "campo geral", ao final da estória, o menino miguilim observa o mundo pela primeira vez com o auxilio dos óculos. o reajuste das perspectivas desvela novas possibilidades, que não estão isentas de ressignificação por parte do menino.

"Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo..."

o "tudo" embutido na visão-descoberta de miguilim dá o tom de grande especulação sobre coisas que agora estão descortinadas, a vida tonteia, agride e seduz. a nova perspectiva faz com que ele interpele a mãe: "Mãe, mas por que é, então, para que é, que acontece tudo!?" a resposta é o abraço da mãe: "Miguilim, me abraça, meu filhinho, que eu te tenho tanto amor..." a resposta ao estar no mundo sozinho é a expectativa de um abraço? mas são tantos (des)abraços que a pergunta por que é, para que é, não se pode responder (talvez não se queira), pois ela parte de uma experiencia literária de desamparo humano. o velho mundo das seguranças se repõe no contato com o corpo e com o afeto. não será possível reconstruir na nova visão de mundo a segurança destes afetos, mas, no entanto, e como paradoxo, o momento existiu naquela materialidade, tornando a travessia suportável. neste sentido, talvez a vida se justifique pelas travessias e afetos, também passíveis de sofrimento, que vão se sobrepondo ao longo da experiencia de estar no mundo.

heidegger se questiona "porque existe afinal ente e não antes Nada?" penso que a pergunta perpassa as de caetano e guimarães colocando o problema no campo das relações entre o eu e o outro diante do vazio. entre o eu e o outro há o nada a ser preenchido pela estranheza de se estar no mundo. ou a "estranheza plena" do ente "como absolutamente outro - em face do nada". a vertigem de se estar em suspenso no nada e diante do outro.

mas, a que será que se destina? existirmos, implica em estarmos juntos na experiencia humana, ainda que sós. e olharmo-nos intacta retina repõe esta solidão coletiva que se cruza no desamparo daqueles que ainda são, e estão a velar o mundo que se esvai lentamente. no fim, o jogo se dá diante das incertezas compartilhadas e silenciosas. há um jogo de duplos e olhares que comungam da mesma experiencia e se entendem, e materializam o entendimento no gesto da rosa dada. uma flor dada é um compartilhar calado.

mas eis que a morte cala a pergunta, assim como calou o poeta torquato neto, subtexto da canção de caetano. em 1972, no dia de seu aniversário, ele se suicida. o ciclo se fecha com a morte na data de seu nascimento. aos poetas o direito a morte, às pulsões de vida, segue a destruição, e aos abandonos de sentido, cumpre-se outro repleto de sentido. afinal, não seria a morte o sentido da vida?

entre a rosa e a cajuína tomada em fortaleza, a pergunta que devemos nos fazer, para nós, para o outro, para o silêncio, talvez não seja a do sentido, talvez se sobressaia outra, mais incisiva, feita por guimarães rosa: você chegou a existir? a essa, soma-se a afirmação de que a vida é real, e não é, feita de cilada, ela é de viés


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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
a dead bird saddens me more than anything., por Sara Berger

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