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O mundo de Vinícius




Crônica enviada por Luísa Fresta


No ano em que se multiplicam homenagens a Vinicius de Moraes, por ocasião do centenário do seu nascimento, também em Lisboa a data foi assinalada com a leitura ininterrupta de poemas seus durante quase quatro horas na biblioteca da Casa Fernando Pessoa. Inevitavelmente, deixo-me assim enredar pela magia desta recordação viva e essencial: a música e a poesia de quem elevou a condição de boémio ao estatuto de profissão, quase um sacerdócio. No Samba da Bênção, com o qual terminava habitualmente as suas actuações de carácter mais privado e as suas noitadas, o versátil artista referia-se a si mesmo como «o capitão do mato Vinicius de Moraes/ Poeta e diplomata/ O branco mais preto do Brasil».

Para além de poeta, compositor, intérprete, diplomata, crítico de cinema, dramaturgo, cronista…sempre achei divertido que quase todas as menções a Vinicius o referissem como boémio, como se de uma actividade subsidiária se tratasse. Decidi então partir à descoberta desse e de outros pormenores relevantes para quem, como eu, recebeu fortes influências musicais da bossa nova. O “síndrome” Vinicius marcou a geração anterior à minha - a minha família de sangue e a cultural - e orgulho-me de ter contribuído à minha escala para passar essa tranquila admiração, sobretudo pelo poeta e pelo músico, à geração seguinte, à família construída. O criador de pérolas como Garota de Ipanema e A Felicidade (em parceria com o compositor e intérprete Tom Jobim) foi também o auto r da peça Orfeu da Conceição, que se converteu em Orfeu Negro no cinema, conquistando a palma de ouro em Cannes e o óscar de melhor filme estrangeiro.

Nessa tumultuada viagem, descobri, face ao testemunho, ora emocionado, ora divertido, de familiares, amigos e colegas de profissão com quem estabeleceu profícuas parcerias, que era, também, um homem de finíssimo humor: diz-se que, numa altura em que a sua precária saúde lhe impunha já rigorosíssimas restrições em relação à bebida e ao tabaco (que ele teria optado por ignorar radicalmente), lhe perguntaram um dia se tinha medo da morte. Consta que o poeta respondeu apenas: “Não. Eu tenho é saudades da vida”. Também na época em que o Ministério das Relações Exteriores brasileiro (Itamaraty) decidiu reformá-lo compulsivamente, ao que consta, face ao excesso de informalidade – e de bebida - que assumia na sua faceta de artista e de boémio, considerada incompatível com as exigências da carreira dipl omática, terá dado provas desse mesmo gélido humor, susceptível de congelar qualquer meio-sorriso de Itamaraty na época da ditadura; nesse período, no qual muitos diplomatas teriam sido demitidos das suas funções por acusações de natureza diversa, Vinicius afirmaria, no seu regresso ao Brasil: “Eu sou bêbado”, como justificação para o seu afastamento.

Sempre entendi o humor como um prolongamento de uma personalidade sensível e de uma inteligência quase invariavelmente brilhante. Creio que existe consenso quanto a essas facetas do seu carácter: era dono de uma sensibilidade rara, de um temperamento apaixonado; percorreu a vida buscando um ideal de amor e a eternidade mágica de um instante de paixão, que cristalizou com a singeleza que lhe era característica nos versos líricos que se tornaram já quase património do Brasil e da língua portuguesa «que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure», extraídos do magnífico Soneto de Fidelidade. Vinicius casou-se nove vezes, dizem, sempre por amor, em busca dessa paixão eterna que perseguiu a vida inteira. Dizia que, se pudesse escolher, gostava de ter sido Pixinguinha (um dos pais da MPB), sinónimo de simplicidade, elegância , generosidade, nobreza. Não pôde ser Pixinguinha mas julgo que se aproximou bastante dos valores com que o caracterizou. Adivinha-se que o seu estilo desprendido tenha causado constrangimentos frequentes no seio da família, das famílias, que gerou, até em termos financeiros, como revela a filha mais velha, mas ainda assim ouvi sem espanto um desabafo terno da sua caçula Maria, que o recorda como um sedutor, que conquistava qualquer um em minutos, mercê da sua doçura e do seu carisma.

A intersecção dos depoimentos sobre Vinicius, lembrado pelos que com ele privaram, conduz-nos a um ser humano tocado pelo génio, completa e irremediavelmente desapegado dos valores materiais, que colocou sempre o amor e a amizade em primeiro lugar.
O homem que deslizou pelo século XX brasileiro abraçando em simultâneo o erudito e o popular, mergulhou de cabeça e coração nas diversas formas artísticas a que deu vida, algo distante das convenções sociais, embora paradoxalmente tenha desenvolvido uma carreira na diplomacia durante 26 anos. Pese embora o seu estilo pouco ortodoxo no exercício do cargo, o que culminou com a sua reforma compulsiva e prematura (apesar de ter sido promovido a embaixador postumamente), Vinicius fez mais pelo seu país, através da música e da poesia (na opinião de Chico Buarque, que partilho sem pestanejar), do que se tivesse simplesmente seguido os formalismos que lhe exigia a sua condição de diplomata. Sobre a sua visão da diplomacia, Toquinho relata, aliás, um episódio revelador: Vinicius observava, num quintal da Bahia, a maneira como um peru, um pavão, um gato e um cão conviviam em perfeita harmonia, quando exclamou: “Aprendi muito mais com esses bichos do que todos esses anos em Itamaraty”.

Neste contexto específico do binómio diplomacia/ artes - nas suas mais diversas manifestações – é lícito lembrar também outros grandes expoentes da literatura ou da música e ilustres diplomatas, paradigmas desta deliciosa mistura de estrita formalidade com liberdade artística, como o romancista português Eça de Queiroz, o poeta luso-angolano José da Silva Maia Ferreira, o romancista brasileiro Guimarães Rosa, o novelista e ensaísta mexicano Carlos Fuentes, o ensaísta e musicólogo cubano Alejo Carpentier ou o incontornável compositor e intérprete angolano Rui Mingas.

Musicalmente, Vinicius estabeleceu inúmeras parcerias com outros artistas multifacetados - como Chico Buarque, também ele escritor - que fazem parte das nossas mais sólidas referências musicais: Tom Jobim, Toquinho, Carlos Lyra, Francis Hime, Baden Powell, Edu Lobo…entre outros. Todas estas fusões deixaram a sua marca na música brasileira e especificamente na bossa nova, género que ajudou a criar, e posteriormente nos afro-sambas, fruto da sua colaboração com Baden-Powell, uma corrente que reflecte outras maneiras de trabalhar a linguagem musical, de tocar, com letras dedicadas a orixás e celebrando uma fusão fortíssima com a ancestralidade africana, edificando essa ponte musical e poética que o aproxima ainda mais, se possível, do continente africano e da angolanidade. Baden-Powell revelou que, nas suas conversas com o poeta, eram muitas vezes trazidos a lume os temas dos cantos de candomblé, almas do outro mundo, enfim, assuntos ligados à cultura baiana, com a qual Baden tinha uma maior proximidade, pois ele era um cara do subúrbio, parafraseando o próprio, enquanto Vinicius era um diplomata.

O projecto afro-sambas convertido em álbum surgiu assim de um deslumbramento pelo samba e pela religiosidade presente na Bahia.
Quanto à bossa nova e à responsabilidade de Vinicius no nascimento dessa corrente, as opiniões são unânimes em destacar o tema Chega de Saudade como um divisor de águas. A bossa nova era uma inovação em toda a linha: musicalmente era revolucionária, a maneira de tocar era diferente - magistralmente ilustrada por João Gilberto - e também a de cantar: a canção era entoada suavemente e fundia-se com a melodia, a voz já não era a estrela da canção, não sobressaía, antes se diluía. A bossa nova, por outro lado, não teria gerado consenso no início, nem consta que tenha sido um sucesso popular imediato. Do mesmo modo a poesia de Vinicius teria sido objecto de algumas críticas, sobretudo de sectores mais conservadores, que se referiam ao artista como “poetinha” (numa acepção depreciativa, considerando -o um poeta menor) sublinhando o lirismo do seu poemário, a proximidade aos temas sociais, ao quotidiano, aquilo que “poderia ter sido e não foi”. Tais censuras podem soar deslocadas, tendo em conta que se tratava de um poeta apegado à métrica, à rima, às formas poéticas tradicionais como o soneto e a ode, conhecedor de grandes recursos formais que utilizava, aliás, com mestria.

Na verdade, esses reparos dirigiam-se a Vinicius, o poeta popular, profundamente brasileiro, em que se tinha tornado, descobrindo em si mesmo uma sensibilidade capaz de entender as pessoas comuns no desespero e na irracionalidade das suas paixões, enfim, a própria vida, numa linguagem límpida e acessível, redonda, bem longe dos tempos em que a sua poesia, mais erudita, mais formal, se aproximava das linhas que nortearam a sua educação na juventude.

Sublinhava um dos seus pares que “escrever é fugir da emoção” e que é o leitor que “carrega no colo” a obra literária, quando desaparecem os críticos e os amigos. Parece-me natural que continuemos assim a garantir a sua imortalidade, na simplicidade de um gesto como a leitura de um poema ou o entoar de uma das suas canções. A Presidente Dilma Rousseff descreveu-o como “fundamental”: será difícil encontrar um termo que condense tanta verdade sobre Vinicius.

Para ele, hoje e sempre, a minha saudação: Saravá!




Luísa Fresta
Nascida em Portugal, viveu a maior parte da sua infância e adolescência em Angola, país com o qual mantém laços de cidadania e envolvimento cultural e familiar, estando radicada em Portugal desde 1993. Estudou engenharia civil em França na década de 80 do séc. XX, exerceu a profissão durante alguns anos até que passou a dedicar-se a outras áreas, nomeadamente traduções e mais recentemente à escrita (área à qual sempre se dedicou formal ou informalmente) sob a forma de contos, crónicas e poemas.

Em 1998 participou, em Portugal, no concurso de contos curtos “Expo 98 palavras” no qual viu o seu conto publicado juntamente com cerca de outros 100, entre 2364 candidatos. Em 2013 ficou classificada em segundo lugar no 9º concurso online – II Prêmio Licinho Campos de Poesias de Amor (Brasil).

Publicou recentemente uma série de crónicas enquadradas num ciclo dedicado às décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura (Jornal Angolano de Artes e Letras) no qual escreve regularmente e publicou também pontualmente na revista moçambicana Literatas.

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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
IPANEMA, POSTO 9, por Evaldo Almeida

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