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O sonho




Conto enviado por Sheyla Smanioto


Acho que os dentes vão ressuscitar muito menos do que as outras partes do corpo. É que eles parecem sobrar da nossa morte, escancarados em um sorriso que não tem fim nas carnes gengivais, já que continua por toda ossatura e por todo cabelo que, por ter a mesma persistência dos dentes, sobrevivem aos vermes: sorriso de corpo inteiro, sem carnes para emoldurá-lo. Que privilégio, sobreviver aos vermes. Talvez por esse privilégio os dentes me espantem tanto, ou talvez por algo que eu não possa explicar – mas o fato é que hoje acordei novamente de tê-los sonhado e tive a sensação, quando acordada, de que sobravam do sonho em mim, sendo uma dessas coisas que, sem escrúpulos, confundem matéria e espírito.



Sim, sobravam do sonho em mim: como se não fossem somente dentes, mas os restos de meus sonhos fincados na forma óssea de rechear maxilares. Sempre me pareceu, afinal, que se as obsessões tivessem forma, elas teriam a forma persistente do cálcio arremedado. Como as minhas obsessões são verbais, nada mais justo do que elas brotarem na minha boca de carne e sangue e, confundindo-se a todos os céus e sistemas salivares que a compõem, ficarem prostrando-se com os dentes na fazedura das minhas queridas e fadadas consoantes (desespero-me ao imaginar o que eles podem colocar no meio delas!).

No que sobrara do sonho em meus cabelos, trazido à memória pelo meu pequeno ritual de sempre mantê-los no lugar quando acordo, eu me via arrancar os dentes delicadamente, embora sob a dor metafórica dos dentes arrancados. Não sei que desdobramentos esse gesto encontrado no fundo de meus anseios teria para a trama secreta de meus sonhos, nem quais ambições o fizeram se meter nas tramas de meu cabelo, mas logo soube de uns desdobramentos desse gesto naquilo que eles inevitavelmente significavam: sonhar com dentes é ter dormido sob a baforada quente da morte.

Eu arrancava o dente, delicadamente mas sob a dor sanguínea dos dentes arrancados, e descobria que dentro dele havia outro dente, que eu também arrancava, e mais outro, tirado não por mim mas pelo hábito, até que eu percebesse que a dureza dos dentes guarda em seus sonhos uma dolorosa flor óssea. Até que eu percebesse que o sangue também leva um pouco do dente: eu podia senti-lo arrastando deles uma nesga, tão pequena diante de buracos negros e proposições universais, que parecia arrancada pela pressa de um urubu faminto por depositá-lo pela graça dos sucos digestivos no buraco negro comum do estômago.

Não gosto desse apego incomum do sangue, porque ele deixa algo do dente morto em mim, e exatamente da forma como os mortos sobram nos vivos: revirando-lhes os estômagos pelas coisas que insistem em ficar dentro, que não se vomitam nas lágrimas. Não deveria admitir esse meu capricho, porque talvez diga mais sobre mim do que estou disposta a mostrar, mas por algum motivo que ainda desconheço eu gosto de sentir meus dentes arrancando. Em certo ponto, percebo que eles não pertencem a mim; nossa conexão, antes tão profícua, amolece. Não sei do que são feitos, e eu sou feita também deles – o que me parece uma injustiça; por que não arrancá-los?

Agora que escrevo percebo o quanto meus motivos para gostar de sentir meus dentes arrancando são como dentes plantados nas gengivas de minhas angústias. Vai ver que guardam meu lado desconhecido e, por isso, eu me apraza tanto em arrancá-los: o gosto de sangue na boca, a carne dengosa das gengivas outrora rasgada para que ele irrompesse, rasgada agora para que eu o arrancasse. Pensando bem, não ligo para os dentes: mas que delícia é rasgar a carne. Pensando bem, entendo a gana dos dentes: se me dão a chance de insurgir assim, nascendo novamente desse big bangque é a carne explodindo uma gente ou um dente, eu nasceria, nem que precisasse então morrer duas vezes por ser duas vezes nascida.

O dente arrancado em meu sonho deixa um buraco maior do que ele; fico angustiada: de alguma forma, não arranquei somente o dente, mas tudo que com ele se confunde (na maneira obtusa que os sonhos têm de confundir). Arranquei o dente, e com isso talvez ele tenha arrancado de mim tudo que enquanto estávamos juntos ele julgava ser dele; um pouco de gengiva, e sangue, mas muito mais do que isso. Quando acordei, constatei aliviada que haviam me devolvido o dente, mas as coisas com ele confundidas na pá dos sonhos ainda faziam falta (não sangravam, como ele, mas deixavam como ele deixaria um rastro de sangue).

Não saberia dizer se me arrancaram as coisas incisivas, as coisas caninas ou as coisas molares. Apenas sabia que eram uma dessas coisas desconhecidas que a minha carne agarra e, na dor, lamenta o desgarramento. Coisas que eu acordei com o sincero intuito de separá-las, como quem arranja pares entre as meias, em incisivas, caninas e molares, para quem sabe assim plantá-las com algum sucesso em minha memória.

Quando acordei, notei que agentes da prefeitura arrancavam do chão da calçada de minha casa uma árvore molar, por ter trincado a calçada em seu espreguiçar natural. Assustei-me com a perspectiva, surgida na pressa de inventar entre nós um último laço (depois de eu por tanto tempo ter me nutrido de quaisquer vitaminas e bichos que suas goiabas produzem), de que cobrissem minhas gengivas como cobriram as da goiabeira de minha infância, de que arrancassem com ela a minha infância devorada como se por um dos bichos de suas goiabas ou, no mínimo, a minha suspeita devoradora de que meus sonhos chegavam pelas folhas daquela árvore de os sonhos treparem.

Sem pestanejar, arranquei-me de uns lençóis vermelhos e me debrucei na janela, que em meu quarto abraçava a cabeceira da cama, para ver se a árvore resistiria a ser arrancada como os meus dentes no sonho (revelando-se uma flor dolorosa). Pensando bem, tem dias que eu preciso que me venham arrancar da cama como a árvore de sua gengiva, como o dente de sua terra. Mas vê-la sendo arrancada sob o barulho de serra elétrica ou de uma daquelas máquinas de dentista, não consegui ver ao certo do que se tratava, doeu nas carnes de minha relação com o dia: lá dentro de meu dente do fundo, uma saudade doía.

A dor me suspendeu diante do mundo, mas ele continuou afoito. Passei minha língua pelos dentes e senti o gosto de sangue, que provavelmente já estivera ali há algum tempo me alertando o perigo de meus olhares; lá fora, a árvore, molar, mantinha-se em pé diante dos muitos homens que tentavam tombá-la em cima de seus deveres e obsessões. A essa altura, tentavam envolvê-la com uma corda para, talvez, controlar a queda daquele dente que cairia mordendo o mundo. Passei a língua e ela encontrou o botão de minha dor: com os dedos verifiquei que, como a árvore atravessada pela serra e envolvida por uns dedos de corda, meu dente amolecia.

Tive medo do que ele poderia guardar dentro, porque sua dor tinha um ineditismo desenfreado, cujo sabor eu sequer conhecia. Fiquei pensando que tipo de artimanhas guardava esse seu capricho, com medo de que fossem as artimanhas de fazer crescer caprichos e, numa euforia geral de sonho, tombar os dentes, como um desequilibrado alinhamento de pedras de dominós de dobra branca (sem pio, cárie ou duque, posso lhes garantir).

Segurei o dente com os dedos e, como uma pestana que ardorosamente quer servir aos pactos de desejos das crianças, ele saltou de seu chão, rasgando o equilíbrio de minhas carnes que, dramáticas, sangraram. Fui tentar conter o sangue tapando o buraco que sobrara de meu dente, mas minha mão, desajeitada para o delicado espaço da boca, esbarrou nos dentes que o rodeavam e eu percebi, com um desespero canino, que todos os meus dentes estavam moles.

Lá fora a árvore resistia, e eu queria uns dentes plantados como ela. Meus dentes, porém, começaram a chover nas minhas mãos, misturando-se a uma leva de sangue; caíam sob uma dor fina, menor que a dos dentes de leite, talvez porque estes quisessem permanecer um pouco mais na constelação da boca, enquanto os meus dentes adultos explodiam com tanta palavra guardada entre eles (e não precisavam de linhas nem portas nem alicates). Com os dentes caídos nas mãos, chorei como se ninasse uma cria morta: tudo bem que os sentira como alheios a mim, mas eu não era alheia a eles e, com eles saltados assim de minhas gengivas, eu chegava a temer por minha vida.

Assim posso dizer que, naquele momento, meus medos se dividiam entre: incisivos, caninos e molares. Meus medos incisivos temiam por minha sobrevivência dali em diante, caso escapasse a leva de episódios incomuns em que de repente se transformou minha vida. Meus medos caninos temiam pelo possível enfrentamento com a morte, que eu certamente não poderia encarar com a frágil estrutura de minhas unhas, que dirá de meus cabelos. Por fim, meus medos molares temiam que, depois de ter sido derrotada pela persistência da morte, não houvesse dentes para sobrar de mim na morte, isto é, não houvesse de mim o que permanecer para sobreviver aos vermes.

Não pude não pensar, diante dessa arcada temerária, que minha ossada não sorriria por ter desbravado e vencido as manhas dos vermes, e sim se manteria intacta para rodear o primeiro buraco negro de que se tivera notícia (a boca do homem, depois de ter engolido um céu inteiro todo para si), quando meus restos fossem um sorriso que, sem dentes, deixaria ver as demências e as palavras que por trás deles se esconderiam, sugando para si todo o resto. Além disso, sem o sorriso dos mortos talvez julgassem que minha morte foi outra e, pior ainda, talvez sequer reconhecessem a vida que venho guardando nas sombras dos ossos através de um dedicado cuidado de meus ossos expostos e de minhas dentições íntimas.

Quando acordei da vida, não sei se para a morte ou para outro sonho, fui logo escovar os dentes que retornaram à minha boca ainda mais uma vez. Escovei com capricho, como quem prepara o seu sorriso para sempre, como quem o veste para a morte; escovei com afinco, sorrindo antecipadamente para os vermes que viessem; escovei, imaginando se era esse desespero de ter o que deixar para a morte, para o reconhecimento de meu corpo quando a árvore tombada por um descuido o esmagasse sem dó, o que os dentes guardavam em sua dor em botão. Aqui dentro a árvore tombou, finalmente, e levou tudo com ela. Sorte que o meu sorriso sobrou.



Sheyla Smanioto
Sheyla Smanioto Macedo, 23, graduada em Estudos Literários pela Unicamp, atualmente cursa mestrado em Teoria Literária na mesma instituição e faz parte da 5ª turma do Núcleo de Dramaturgia SESI - British Council. Publicou em 2012 o livro de poemas "Dentro e folha" pelo Coletivo Dulcineia Catadora. Mantém o blog sem eira nem sheyla 


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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
CAVEIRA, por Eliete Gonçalves

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