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Quase, mas não



Conto enviado por Rodrigo Lopes


Paula chegaria atrasada ao trabalho, de novo. Dessa vez não daria desculpa alguma, diria apenas que se atrasou porque perdeu a noção do tempo, o que de fato aconteceu. Ontem mesmo ela e seu avô plantaram o ipê branco em seu quintal, caiu do balanço que pendurou no galho mais alto, rasgou seu vestido preferido ao abraçá-lo quando chorava seu coração partido. Amanhã mesmo já poderia ter quarenta e três anos, uma sobrinha chamada talvez Anamaria e uma saudade que lhe cortaria os pulsos. Pediu demissão e nunca mais almoçou hambúrguer com batata frita ou salada primavera. Voltaria a estudar teatro, tentar fazer cinema e seu mestrado em literatura russa. Agora, antes que o tempo lhe causasse mais uma tormenta em seus olhos e memória, iria para casa.

Despediu-se de alguns mais queridos, apoiou a bolsa no ombro, passou vagarosamente a palma da mão na capa do livro que voltaria para comprar e virou-se para a saída da loja quando quase trombou com aquele rapazinho. Quase, mas não, ou ela derrubaria o livro que estava flertando, ele pediria perdão e a ajudaria a devolver no lugar de onde caiu e suas mãos se tocariam para então ele olhar nos olhos dela e ficar terrivelmente mudo com sua cor; enquanto ela o olhasse com certo susto, confundiria os movimentos das mãos ao perder-se nos grandes olhos solidários dele e sorriria de pavor para partir logo sem olhar para trás; ele observaria com que graça ela caminha naquele vestido branco, tentando gravar na memória a cor daqueles olhos e o formato da boca ou o toque da pele, saberia seu nome e telefone, convidaria para um café, um cinema, mas nada disso aconteceu. Eles nunca se tocaram, se olharam, s e sentiram, existiram. Quase, mas não.

Ela alcançou a calçada, sorriu para si e para a rua, acenou para o ônibus que passava e, alegre, partiu. Suspirando um retorno sem volta, reparava naquele grafite roxo e dourado do muro do cemitério; uma menina de capuz, soturna, segurava um candelabro com pessoas nuas no lugar de velas onde as chamas eram gritos; reparava também na forma de “o” de um galho de um flamboyant, na porta vermelha de um brechó de chapéus, no piso quebrado da calçada que formava um jogo de amarelinha. O mesmo para ela era agora novo, ou tudo ao seu redor havia mesmo se metamorfoseado para um mundo mais bonito. Gostou de acreditar nisso e sorriu novamente para si e para o reflexo do sol no vidro do ônibus onde apoiava sua testa.

Entrou saltitante em seu velho apartamento, sentiu que a luz do sol iluminava partes do piso que antes só conheciam sombra e imaginou um novo movimento de translação da terra, outra rota orbital da via láctea, que o sol resolveu dançar na escuridão do oco frio e vazio do universo, como ela agora, alegre e em silêncio. Despiu o vestido branco, jogando-o sobre o despertador do criado-mudo para que o tempo não se deleitasse de seu corpo enquanto dançava a liberdade de um dia de memórias novas. Abriu o armário de onde retirou 2 copos e a garrafa de vodca; da estante puxou seus melhores amigos, Fiódor, Dmitri, Ivan e Aliêksei, para que brindassem: “à tirana sem coração, mujique desalmada ou mercenária desprovida de sorte”, que ela logo sofreria por conseguir se tornar.

Foi até o banheiro para analisar se haveria também alguma mudança notável em seu rosto, olhos ou lábios, uma vez que em todo pequeno pedaço do mundo existia mais beleza, agora. Fixou-se em frente ao espelho, brincando de não piscar e não sorrir e não moveu suas pupilas nenhum segundo, e não reparou que seus olhos mudavam de cor: azul, verde, cinza. Só piscou quando percebeu seu reflexo desviar lentamente o olhar para baixo numa melancolia angustiante de um passado que ela preferia deixar morrer. Olhou para os riscos simétricos entre os azulejos e sentiu frio, até que cansou de olhar-se no espelho e não sentir perspectiva alguma: quebrou a parede de trás. Agora, sempre que se penteasse, permitiria que alguma nuvem se emaranhasse em seus cabelos.

Deixou-se ventar no rosto enquanto sorria de olhos fechados para o mundo abaixo dela, o mundo das ruas, das árvores, das pessoas que caminhavam olhando para baixo, dos carros que freavam para um cachorro amedrontado e atropelavam crianças, das tampas de bueiros grudadas no asfalto e dos hidrantes. O que ela mais gostava nas ruas eram os hidrantes, o poste vermelho que usava chapéu e que, quando fazia chover para cima, paria arco-íris. Também gostava de olhar pelas janelas dos ônibus, de dentro ou de fora. Observando com os olhos e braços abertos lá de cima, da sua janela nova, um ônibus que dobrava a esquina, quase viu aquele rapaz que não esbarrou com ela na saída da livraria.

Se ao menos ele estivesse lendo qualquer outro trecho daquele livro para, entediado, desviar o olhar para cima e ver aquele buraco na parede e ela, quase nua, cabelos nas nuvens, olhos para baixo e um sorriso escondido no canto da boca. Desceria imediatamente do ônibus para parar na calçada, lá embaixo, onde pequenino contemplaria a obra que ela construiu para expô-la e que somente ele veria, assim como somente ela repara no rapaz parado no outro lado da rua lá embaixo, sendo esbarrado pela pressa dos outros e ocultado pela sombra de uma árvore sem folhas. Ele acenaria para ela enquanto com a outra mão esconde o rosto da réstia do sol. Ela sorriria e, infantil, escreveria um bilhete que jogaria amarrado em um lenço colorido que serviria de paraquedas. Ele leria o bilhete com tal entusiasmo que subiria correndo os 17 andares de seu prédio para bater a sua porta e solicitar-lhe uma dança. Eles dan&ccedil ;ariam até a lua padecer e, em seu jazigo, se beijariam como quem abraça uma chama sem se ferir. Quase, mas não.

Ela estava pronta para partir nessa nova personagem. Desenhou sobre seu corpo um vestido preto e cinto vermelho, a fita rendada no cabelo, colocou na bolsa o caderno de anotações com memórias que nunca tinha sentido antes e páginas em branco que se preencheriam sozinhas com desenhos a pastel seco. Enquanto assobiava uma música francesa tocada no acordeon, desceu até a rua descobrir-se refeita no mundo. Escreveria milhares de cartas e as mandaria para todos os remetentes onde desejou um dia morar. Encenaria várias mortes por amor, choraria debaixo de chuva a tristeza de um casamento trágico, cavalgaria sozinha em um imenso cavalo branco entre plantações infinitas de trigo e gérberas amarelas. Tinha um vasto continente de sentimentos para descobrir, inventar, escrever, interpretar, e seu vestido branco continuava escondendo o tempo do seu mundo. Então partiu.

Na rodoviária, comprou uma passagem para uma cidadezinha no interior visitar o ipê de seu avô. Enquanto caminhava ao lado do trilho do trem, aguardando o horário da partida, quase viu aquele mesmo rapaz da loja e do ônibus. Quase, se ele não estivesse entretido olhando para baixo um saco de plástico vazio planando numa brisa à altura de seus pés. Levantou voo, levantando o olhar dele na direção dela quando ela já havia passado por ele. Ele sentou-se para fumar aguardando a partida do ônibus quando ela estava de costas lendo alguns rabiscos nas paredes. Quase, mas não.

Ela sentou-se, encostou a testa na janela do ônibus, apoiou as mãos uma sobre a outra em seu colo. A cortina vermelha tocou seu cabelo, incomodou seus sonhos e escondia mais o mundo lá fora. Moveu-se para afastá-la, quando sentiu o toque de outra mão tocando a sua por acidente. “Desculpe”, ouviu alguém que afastara a cortina para ela. “Obrigada”, ela diria antes de levantar os olhos para o banco de trás, quando se sentiria assustadoramente indefesa nesse novo mundo. Ele, emudecendo, pronunciou um “de nada” até que seus grandes olhos solitários perderam a voz enquanto refletiam a cor que os olhos dela inventavam. Ela não conseguiu fechar os lábios, e sentou-se olhando novamente para frente, olhando fixamente para frente, sem piscar ou sorrir, como no jogo em frente ao espelho do seu banheiro. Resolveu quebrar mais uma parede de trás, a que agora quase impedia sua vida de flanar. Quase, mas não.



Rodrigo Lopes
Rodrigo Lopes Pereira de Melo, frequentou o curso de Letras – Literatura e Língua Portuguesa de 2004 a 2007 na UFSC – Florianópolis. Por motivos pessoais, teve que interromper a faculdade. Atualmente estudo Pedagogia no IFC – Instituto Federal Catarinense – Campus Camboriú – SC.

Em 2007, como resultado de uma oficina de cinema ministrado pelo cineasta Marcelo Domingues, contribui como corroteirista e assistente de produção do curta “O ciclo da Luz”.

Em 2008 escrevi e dirigi o curta “Purificando”.

Em 2011 fui selecionado 2º concurso literário do Jornal Cruzeiro do Sul, com o conto “Quase, mas não”, publicado na antologia “Eu conto... Nós contamos.”, lançada em 2012.

Em 2013 fui selecionado no concurso 3º Concurso Poesia Urbana, realizado pela Unifebe, de Brusque – SC.


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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
viagem de ônibus, por Natasha Weissenborn

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