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Julia Antuerpem




Julia Antuerpem é roteirista e escritora pós graduada em Roteiro para Cinema e TV e em Produção Executiva. Bacharel em Ciências Econômicas, também tem Master Degree em Programação Neuro Linguística e já estudou Escrita Criativa na Harvard University.

É finalista e ganhadora de diversos editais e concursos privados de Roteiro e Literatura, dentre eles, destacam-se Melhor Roteiro de Ficção pelo Green Nation Fest 2012 (em parceria com a Rede Globo), VI Prêmio Martha Medeiros de Crônicas (2013) e Prêmio Estímulo de Curta Metragem (2011) com projeto suplente. Já trabalhou em mesas de roteiro para séries da GNT e HBO e atualmente está em uma mesa de roteiro para uma série infantil.




Assim diz o breve currículo. Preciso, porém vago.

Preciso pois realmente mostra a foto com o bagre de 100 kilos que uma vez foi pescado. Aquela foto que tão orgulhosamente se apresenta em qualquer parede. Realmente é digno de ser enaltecido. Porém, é vago, pois omite todas as outras fotos da vida de um pescador: todas as trutas, as pequenas sardinhas e, claro, omite as inúmeras vezes que o pescador voltou do rio de mãos abanando.

Qualquer currículo enaltece o bagre, mostra somente a vitória. Mas nunca a batalha. Afinal, não é para isso que existem currículos. É para isso que existem autobiografias.

Por algum motivo, sempre me interessei mais em conhecer as batalhas do que as vitórias. A vitória permite a inveja; a batalha, admiração. E, portanto, a minha diversão era ver como alguém chegou aonde chegou, e não a linha de chegada em si.

Por isso, meus heróis sempre foram os “super homens”, os filantropos: os que foram presos 29 vezes e tinham um sonho, os doentes que morreram na banheira clamando um ode jacobino, os físicos que esclerose nenhuma os impedem de estudar, os alquimistas da luz que criaram lindos mundos fantásticos. Estes. Os de verdade. Bem mais do que qualquer figura gloriosa, trajando uma capa, do mundo do Stan Lee. Não comigo. Eu sempre preferi essa outra coisa, essa de verdade, essa invariável e imperfeita realidade.

Há um certo instinto de reconhecimento que tem por base o pressuposto de que superexpostição é maléfico. Mostrar suas dificuldades, dores e imperfeições são sinais de fraqueza. Manifestar insegurança não tem nenhuma vantagem. De repente, se tornou deselegante não estar impecável e de bom humor todos os dias. Você tentou e perdeu? Poético. Discrição, meu caro. As dúvidas e aflições, as quedas, o sacrifício e o sofrimento, o choro às escondidas, os tapas na cara, a exploração dos chefes, os ensinamentos errados dos mestres... isso tudo são segredos. Não convém contar, não seja vulnerável. Ninguém precisa saber que você caiu, se matou para tentar dar certo, bateu e levou. Caso contrário, cuidado: vão te confundir com um ser humano.

Imagine! O mundo todo à beira do caos e você ai, com Harvard no currículo. Certamente entregue à você em uma linda bandeja dourada. Quase lírico. Colocou na cover page do facebook, aposto.

Mas, deste currículo, a verdade é que a grande vontade vaidosa de colocar Harvard em negrito era somente superada pela vontade de contar todas as minhas superações do caminho. Estas superações: discretas, tímidas e que não ouvem aplausos. No fim das contas, as acho mais importantes que qualquer fama.

Portanto não se enganem com as poucas linhas bem escritas e a foto doce: a pessoa é forte e a batalha é imensa. Muito além dessa vitória mostrada. Acredite: por mais recluso que seja, o penhasco já viu gente cair aos montes. Eu inclusive.

E não escondo as minhas batalhas: percorri todas as cores do caminho. Tenho em mim, a salvadora, a agressora e a vitima. Sim. Tenho todos. Cabe a cada pessoa cativar a parte que bem quer. E isso, meu caro, é de sua responsabilidade, já dizia um jovem loirinho. Afinal, personalidade é o que eu sou. Atitude depende de quem você é.

A minha vítima existe. E como qualquer começo de carreira sem apadrinhamento ela é chamada. E quando ela entrou na batalha, chegou forte, injustiçada, cansada, dolorida. A minha vítima não é nenhuma criança inofensiva nem um sábio xamã deteriorado. Ela é aquele guerreiro, o primeiro da primeira linha do pelotão de guerra. Não o general, nem o líder lá de trás. Não. Até duvido que seja maior que um cabo. Ela é aquela que trabalhou de graça. A que só ouviu não, sem ajuda, sem apoio. A que só teve a oportunidade de aprender com tapa na cara. A que foi traída. A que falou na hora errada. A que teve suas boas intenções confundidas com oportunismo. A que lutou noites escuras. A que aceitou dores de garganta inoportuna. A que sofreu assédios, ouviu injustiças, mentiras, falsidades. A que não era notada... Sim... Tem vários “a”s nessa parte. E a melhor explicação disso talvez resida naquela velha história: quem bate esquece, mas quem apanha não esquece jamais.

Mas depois de tantas quedas, tantas dores, tantas vezes, a agressora aprendeu a acordar. E ela emergiu já fazendo rebeliões e magias, das mais escandalosas às mais sorrateiras. Chamo as bestas do apocalipse a qualquer momento para acabar com o que quer que eu não goste. Aprendi a estudar as situações com a seriedade de quem vai derrubar um ditador. Não duvide, nessa barricada quem manda sou eu: a justiça é minha, a mira é minha. Desde os tiros cegos no escuro aos mais bem calculados mísseis. Ela é aquela que tem sangue no olho e é vingativa. A que ri deste sistema e do jogo das pessoas. A que anda pelas ruas mirando o mais alto que pode. A que enfrenta o sol com a bravura de um soldado encarando a morte. A que toma um tapa na cara e não dá a outra face, pelo contrário, se não puder pegar o agente, acredite, nesta face, pelo menos, o mesmo não bate nunca mais.

E, finalmente, também, como um respiro de paz, a salvadora desperta. Mais calma, menos urgente. E os outros? As dúvidas? Os obstáculos? A última? A próxima? Ela te acalma. Morrerá um pouco menos sob minha orientação. E enquanto estiver sobre a minha gestão, será respeitado, será educado. É exigido muito, mas pago pelo preço disto sem reclamar. A lealdade para com os aliados, aqui, desafia o bom senso. É um ombro amigo, uma mão estendida, um coração pulsante.

Sim. Eu tenho todas essas personalidades. Eu bati e eu levei. Eu errei e eu acertei. Nada foi floreado, nada foi dado. Tudo eu corri atrás. E eu não disfarço isso. Essa imperfeição toda faz parte da minha humanidade. Sou individualista sim, mas também tenho um altruísmo singelo: quero somar e evoluir. Sei lá, coisas de novata talvez. A novata sempre quer o impossível e o caminho sempre é árduo. Certo?

Eu bem sei que admitir as quedas nunca é fácil. Mas mesmo assim continuo a preferir o relato das lutas. Não tem jeito. Por mais que este “behind the scenes” tenha lá sua dose editada, batalhas dizem mais que as vitórias. Autobiografias dizem mais que currículos. E, assim sendo, prefiro. E sim, é possível que isto tudo talvez seja uma visão pessimista de reconhecimento, mas declaro: quanto mais real e verdadeiro tudo for, melhor.

Então não. Eu não nasci para ser escritora, não sou nata, não tive QI e não pulei fases porque era boa demais. Eu só escolhi fazer meu proposito de vida através disto. Mas sou imperfeita como todos. Não sou heroína, mas batalho muito para ser super humana. Esta mesmo. Esta sim. A Real. A Imperfeita. A Esforçada. A Diferente. A Superfaturada. A Polêmica. A Grandiosa. A que disseram que não subiria. A que você não viu subir. A sonhadora e a atitude em pessoa. A egocêntrica e a altruísta. A honesta e a atriz. A estrategista e a inexperiente. A corajosa e a medrosa. A boa alma e a bruxa. A salvadora, a agressora e a vítima. A que errou e a que acertou. A que bateu e a que levou. A dita. A cuja. A humana. A Terra dos Diamantes.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. É um prazer ser colunista aqui, amigos! O primeiro texto!
      E adoro! Vale ressaltar que uma das inspirações iniciais deste texto surgiu ao ler outro da também roteirista Patricia Corso! O blog dela eu aconselho! Beijos

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