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obviamente, amo ana c. - e a vida é intolerável -



não sei explicar a alma que rege a nossa sensibilidade. só sei que, em algum momento dos anos 80, lapidei os meus mundos com filmes, muitos, milhares, e com alguns livros. lia muito, quilômetros de literatura, praticamente lia tudo o que me caía nas mãos. mas foram os filmes que serviram de prumo para o que eu me tornaria depois, para o bem e para o mal. a rosa púrpura do cairo talvez pudesse ser um livro em uma biblioteca de livros imaginados, porque eu o via como um romance projetado na tela. mas foi filme. e talvez o meu pessimismo de juventude casasse mais com  as imagens doloridas de rosselini em roma, cidade aberta do que com o esvaziamento de camus em o estrangeiro. hoje entendo que a experiencia literária e cinematográfica são vivências que se aprensentam em diversas camadas de nosso tempo e vida, a literatura veio depois, avassaladora, mas antes, a luz absoluta criou-se a partir das projeções na parede do velho cine marabá, belas artes e adjacências.

houve exceções de literatura, e foram fulminantes e modeladoras: ana cristina césar me abalou completamente e me fez entender a poesia como um gesto de tomada de posição diante do mundo. sexo, amor, politica, pessoas, cidade. tudo estava contido naquelas frases de falar de perto, aquela poesia me comovia e comove. tive outros dois amores nesse período, whitman e rimbaud, mas ana c. foi recitada em voz alta, nos intervalos da cinemateca.o velho volume de a teus pés, com sua capa rosa desbotada de tanto uso, era uma arma poderosa de contestação e irreverencia. daquelas que não sei se deixaram marcas na humanidade, pouco importa, em mim não cicatrizaram...carrego no corpo e nas expectativas frustradas que os anos me deram. foram flores amargas e que serviram de farol e lastro de mim mesmo. foram o que tinham que ser.



noto que não consegui o meu objetivo, que era comentar objetivamente o lançamento do livro com a obra completa de ana, poética, pela badalada companhia das letras, seguindo a trilha de sucesso dos poemas de leminski. não consigo me desvencilhar do confessional das letras e escrevo somente sobre o que me comove. talvez devesse tentar escrever sobre o que me enfurece. mas o enfado é grande para as polêmicas. celebro a poesia de ana cristina, que chega ao mainstream, ainda com fôlego para abalar as sensibilidades de hoje.

em 2010 assisti ao espetáculo "Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar", onde paulo josé narra a vida de ana c., interpretada pela atriz ana kutner. o suicídio da poeta é uma das imagens que levarei para sempre. em dado momento do dia 29 de outubro de 1983, ela salta pela janela de seu apartamento. a vida é intolerável.

poema óbvio

ana cristina césar.
Não sou idêntica a mim mesmo
sou e não sou ao mesmo tempo,
no mesmo lugar e sob o mesmo
                                      ponto de vista
Não sou divina, não tenho causa
Não tenho razão de ser nem
                       finalidade própria:
Sou a própria lógica circundante

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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
Ana Cristina Cesar, por klegein

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