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A Guerra à Minha Porta




É madrugada. Vejo-me calmamente acordada, nesta hora em que o céu está na sua cor mais negra e a cidade toda, supostamente, deveria repousar. O parapeito da janela me convida a debruçar sobre ele. Irrecusável, como um bom ombro amigo.

Lembro-me quantas vezes já não me debrucei neste ombro amigo antes. Numa época muito mais simples... na época quando a minha insônia era sonhar com o nosso futuro. Eu fitava o céu e divagava com as inúmeras possibilidades do nosso amor. Era delicioso e me ninava melhor que qualquer boa noite de sono. Contudo, as noites mais belas era as que, em meio à isto, o celular tocava. Era a sua insônia, instintivamente, querendo acompanhar a minha. Sim, estas eram as mais belas noites. Esperar aquele som tão gostoso, desafiando a nossa distância e me deixando ouvir a sua voz até o amanhecer...

Porém, hoje, faz quatro meses do acidente. E eu, por fim, senhora dos meus sentimentos e escrava da minha saudade, resolvi escrever-lhe essa carta. Não sei bem por quê. Talvez, para, quando você acordar, você possa ler e sentir orgulho de toda a força que eu tive.

As pessoas me perguntam como estou. Digo que estou bem com tanta veemência que pareço uma grande atriz perdida no anonimato. Mas é mentira. Talvez a maior que já contei. Aprendi, sem orgulho nenhum, a parecer que estou superando isso, visto que todos me estimulam tanto a assim fazer. Todavia é uma grande tolice. Não se supera isso, apenas aprende-se a viver com isso. E talvez nem isso eu esteja aprendendo bem... afinal, se escrevo esta carta para quando você acordar do coma, eu deveria estar te mostrando que estou forte... deveria trazer meu amor a cada linha e agraciá-lo com o tom delas... nada deveria lembrá-lo que estou triste e sozinha.

Agora, portanto, tudo que penso é que queria que você fosse essa brisa, vindo levar meus medos embora. Eu deveria estar acostumada com a sua ausência depois de tantos meses de namoro à distância. Mas não. Agora é uma distância diferente. Você no hospital da minha cidade, mais perto do que nunca e mais longe do que jamais esteve... é a ironia mais triste.

Eu vejo o hospital daqui, e talvez isto faça de mim uma grande mártir por ainda gostar de me debruçar neste parapeito... mas a verdade é que este é o único lugar em que ainda sinto algum acalento, que ainda consegue me ninar e me dar colo. Fico lembrando das noites em que o celular tocando era o ápice da minha alegria. Vista nenhuma do hospital tira o acalento que este som me trazia. A única coisa tira este acalento é que agora tenho medo deste som... agora ele é envolto de escuridão. Tenho medo de ouvi-lo e ser alguém, uma voz estranha qualquer, que nunca ouvi antes nem nunca vou esquecer, dizendo-me que você foi embora. Saiu do coma, mas não veio para mim.

A bem da verdade é que é isto que me mata... quando o som que outrora me fazia tão bem, agora pode ser a guerra à minha porta. Nem sei o que é pior... o que eu sei que vai acontecer, ou o que não sei. Este pensamento virá a me matar um dia. Ou ele ou a sua ausência. Não sei. Tem muita coisa querendo me matar ultimamente. A saudade inclusive.



Melhor Crônica VI Prêmio Martha Medeiros 2013 - Categoria São Paulo

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Créditos
USA, Illinois, Chicago skyline with full moon, por Henryk Sadura

2 comentários:

  1. Que linda crônica, Julia!
    Me emocionei!

    Beijos,
    http://patriciapinheirotextos.blogspot.com.br/

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