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boda branca e azul




a cara da menina mathilde no filme de brisseau, "boda branca", me levou de imediato a cara de outra menina de um outro filme francês que trata de amores deslocados da caretice normativa e que também se sustenta sobre a égide de uma cor: "azul é a cor mais quente".

em boda branca, mathilde, vanesa paradis em seu primeiro papel, dentes sem aparelho e a naturalidade de estar nua que só as meninas de 17 anos têm, seduz e é seduzida pelo velho professor. não se trata do velho clichê do mestre que seduz a partir de sua inteligência e cultura. em brisseau nada é óbvio, a menina é brilhante, leitora de freud, e intensa. viveu à margem das facilidades burguesas e tem uma visão desencantada da vida, levando o velho professor a rever suas certezas de pequeno homem burguês e bem casado. mathilde é intensa, apaixona-se de imediato, e retorce a vida do velho homem grisalho em um período em que não se espera da vida nada além da morte. o desejo é um componente da vida que nos transforma.

a cara da menina adèle em "azul é a cor mais quente" impulsiona a narrativa. seu sorriso irônico de menina literata vai se deslocando/transformando de acordo com os dramas desvelados, o sorriso se torna cara de gozo quando liberta sua sexualidade, assume a seriedade e franzimento na idade da procura de trabalho e nos afazeres de um relacionamento, até derramar-se em lágrimas ao final de uma amor que a definiu para sempre. são os closes, sustentados pela bela interpretação de Adèle Exarchopoulos, que fuçam os mistérios da vida de adèle em seu cotidiano assombrosamente humano. a sedução da menina, assim como em mathilde de "boda branca", parte mais de suas inquietações literárias, libertárias e filosóficas. a boca e o sorriso de adèle são mais interessantes quando inserem na relação amorosa e no cotidiano o sopro da literatura. marivaux com seu clássico "La Vie de Marianne", inspiração para o título original, e a força de sartre e o existencialismo que adèle desmistifica ingenuamente a partir de uma canção de bob marley. e há francis ponge, poeta que funde prosa e poesia, não é assim com a vida?, em seus "proemes".

nos momentos de transa entre as duas meninas o que senti foi a profunda beleza do aprendizado que são as primeiras transas, aquelas feitas de amor e curiosidade. depois o que me ficou foi o percurso, do sublime ao trágico, que o amor levou as duas.

brisseau abriu caminho para filmes como "azul", ele mesmo aponta isso em uma entrevista meio rancorosa, filmar uma transa é ainda um tabu. fico um pouco entediado em ver corpos seguros, firmes e tesos como são apresentados em filmes sobre sexo e amor, parece que foge um pouco do que uma transa é na verdade, em tempos escorregadios e sem conexões afetivas. não sei se falta amor, e nem mesmo se ele é necessário. a única certeza que tenho é de que o amor é sublime quando nos permitimos amar, embora sempre descambe para o trágico do insuportável tédio.

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