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A Casa de Cortázar



“ [...] eu construía pequenos vazios, maquetes, labirintos, atalhos, me distraia e todo aquele móbile débil girava ¿ ahora, que importale ? mucho tiempo ya. Afinal: el que para salsicha nace, del cielo le cae la lata.”
Gregório e Ariel depois de uns tragos de run na varanda



Tiene ganas! Tiene ganas! Tiene ganas!

Vidro e alumínio da janelica do banheiro não impediram os gritos de Ariel inundar a pequena e alugada suíte. “Por Zeus; o que esse cubano está fazendo agora?”. Motivos da viagem: receber prêmio por livro que escrevi de encomenda. Calle da Amargura. Número 268. Habitacion 4. Havana Vieja, por favor. Sento no taxi. Acendo um cigarro. É isto que gosto em Cuba; podemos fumar em qualquer lugar. Sempre que chego a Havana lembro de Moliere e seu Don Juan: ‘quem vive sem tabaco não merece viver’. Saio do Aeroporto Jose Marti e até a casa onde estou hospedado o caminho foi Manu. Parece que todas as coisas já haviam sido. Por que aceitei este prêmio? Falta de decência dos organizadores, escolhendo a mim, em um país que tem Andre Sant’Anna. Tremendo erro. Sinto o cheiro da comida. Cerdo, mouros y cristianos, refresco de abacaxi e com sorte uma salada de abacate. Refeição completa. Banquete restrito por aqui. Pelo menos para a maioria, acostumada em abandonar o rigor. Exageros só para turistas. Como eu. Não me abato com os gritos. Impossível pôr termo a minha masturbação ritualística. Jamais tive coito interrompido com Andy San Dimas; não abro mão. Andy não tem as tetas mais gostosas. Andy é a teta mais gostosa. Estou no meio daquelas tetas: chupando, lambendo, esfregando, açoitando, tripudiando, mordiscando aquelas tetas que são livres, autônomas, se manifestam e sentem prazer sem o resto de Andy; aquelas tetas têm seus próprios segredos, são dois melões honestos e servidos em porções generosas. Já estou indo - grito do banheiro. Culpa. Percebo.

Manu.

Resolveu que viajaríamos para Cuba. Não sei onde estava com a cabeça quando aceitei. Cuba? Porra Manu, todo mundo vai para Paris, Veneza, Rio Grande do Norte e essas coisas. Você quer ir para Cuba? Para Varadero? Não? Havana? Ah, não fode Manu. Havana? Tinha mais essa! Manu sempre que viajava não fodia. Na Argentina me senti estuprador: sexto dia sem sexo não pensei duas vezes, ela saiu do banho, peguei sua cintura por trás, encostada no beliche. Gozei. Manu dormiu. Sexo só uma semana depois. Na volta. Tudo bem. Quem nunca quis ser Che?

Tiene ganas! Ay que ganas! Mira!

Não é uma culpa qualquer e nem culpa por ser um homem de 37 anos que se masturba diariamente. É uma culpa brega, sem sofisticações. Horácio é o pássaro que Ariel mantém na gaiola de madeira e arames velhos. Ariel arquitetou aquela gaiola. Como quase tudo por aqui. Como quase todos os cubanos. A gaiola fica no corredor curto que traz da sala e quarto e entrada da casa, para os quartos dos fundos e a cozinha. La Ventilada; assim Ariel e Carmem chamam sua habitacion. Cubanos de Camagüey. Ariel trouxe Horácio de sua cidade. De ônibus. O bicho quase morreu durante a viagem. Faz 15 dias Ariel alimenta Horácio com ajuda de uma seringa. Horácio voltou a comer e os gritos de festejo de Ariel não saem de minha cabeça. Horácio parece um Uirapuru, mas não canta. Carmem passa em frente à minha porta com alguns pratos e grita com divertimento cúmplice: &l dquo;No grite demasiado Arieeeel, Gregório etá decansaaaandooooo.”.

Manu.

Era o arquétipo da mulher selvagem mitológica só que contemporânea. Ela era uma coleção de adjetivos e formas deliciosas de mulher. Com Manu eu amei sem reservas. Este foi o ponto. Depois de certa idade não é prudente fazer isto. É como comer torresmo: com o tempo vai pesando e passa a ser estripulia gastronômica. Nós nunca tivemos nenhum número especial, nenhum recorde. Diferente de Luisa. Ah, Luisa. Doze orgasmos na mesma trepada e ela só não teve mais porque eu não consegui me controlar.

Tiene ganas! No para!

Estou sentindo culpa por ter perdido a paciência. Por ter mandado tudo a merda. Reajustei o lápis para deixar de escrever com as tendências – sem violência, sem palavrões e com a merda da felicidade e coisa e tal – dai escrevi contos profundos; perdi o emprego. Escrevi um romance profundo; perdi o editor. Outro romance profundo e perdi o resto; inclusive minhas aulas para a faminta classe média. Manu não gostou. Agora sou cult. Gastei meus últimos dinheiros com esta viagem para Cuba. Intelectual. Marginal. Frustrado. O que eu mais gosto agora em Havana? O que eu mais gosto é ver as conversas nas portas das casas e poder caminhar pelas ruas sem medo de ser o protagonista de um latrocínio. Aqui se pode caminhar. Caminhar e pensar são as coisas que faço por aqui enquanto espero o Prêmio Sotomomayor de Literatura Latino Americana. Jogar dominó e assistir novela também faz parte da minha programação indecisa. Com Ariel. Dominó. Com Carmem. Novela.

Manu.

Ficamos hospedados em Havana Vieja. Manu era dançarina e artista plástica. Isto basta para fazer de qualquer pessoa um ser supremo. Ela queria o palco. Queria ser famosa. E quem não iria querer? Eu? Andamos por toda a cidade nos intervalos de suas apresentações. Manu era aclamada por onde passava. Eu era ‘o cara do lado da Manu’. Ou era coisa da minha cabeça. Manu deixava qualquer pessoa assim. Havana Vieja, parte mais antiga da cidade, parecia um tabuleiro, um labirinto quadrado com suas ruas perpendiculares, entrecortadas, suas casas e prédios baixos em ruínas, sofridos de tempo e mar e miséria e resiliência e beleza e cores e cheiros e sons.

Tiene ganas! Sigue com ganas! Venga!

Carmem. Querida. Não vou jantar. Perdi a fome. Desculpa/me. Vou tomar um trago. Calle Amargura até o fim sentido ao mar. Esquerda na Calle Oficios. Direita na Calle Obispo. 21h – a la hora del cañonazo. Havana Vieja e suas ruas ainda estão cheias de toda sorte de turistas comprando bugigangas do Che. O argentino virou uma espécie de MacDonalds;. vende qualquer coisa. “Queremos capital, não capitalismo” – disse uma velha cubana. Che para os turistas e celulares para os cubanos. A fila da CubaCel serpenteia pela Calle San Ignacio. Pequeno luxo. Devidamente controlado. Preciso de um trago. Na Plaza de Armas ainda encontro uma banca montada, o vendedor com descrença me oferece a única biografia escrita e autorizada de Camilo Cienfuegos. Preciso de um trago. Entro em El Floredita. Cinco Daiquiris. Clássico. Eu sou da opinião de que turista deve fazer coisas típicas: ser enganado, u sar pochete, tirar muitas fotos, etc., é uma ótima chance para sermos ridículos livremente; bancar o nativo é ridículo. Como prova irrefutável da teoria recebo de um russo uma máquina fotográfica, que sem constrangimento, pula no pescoço fosco-metálico de Hemingway. A escultura do Nobel estava lá o tempo todo, sorridente. “Ei, o que acha Mr. Hemingway? Fotos com turistas, hã?”. Me lembro de ‘Meia noite em Paris’, lembro/me do pronome no lugar certo e que se o roteiro fosse meu morreria em um ménage com Marguerite Duras e Clarice Lispector. O run já mostra entusiasmo. Peço a conta. Procuro dinheiro nos bolsos. Não sei se eu disse ou se pensei: “Teria Hemingway alugado uma casa em Santa Tereza no Rio de Janeiro e o Nobel seria brasileiro”. Digo não sei porque o que lembro mesmo é de ter passado pela porta girat&oacute ;ria sem usar os pés. Cai. Desconhecido. Calçada.

Manu.

Premiada no Gran Teatro. Luzes. Aplausos. Manu conquistou todos os jurados. E claro, muito filho da puta quis comer Manu. Eu fodido. Fim de apresentação. Fim de premiação. Festa de comemoração no apartamento do embaixador português. Todos convidados. Festa com muitos artistas é uma bosta. Um monte de ‘eu’ perambulando. Todos inteligentíssimos. Nietzsche. Lacan. Jung. Simone de Beauvoir. Gothe. Beckett. Guggenheim. Hemingway foi ou não foi um grande escritor? Disseram que ele escrevia todos os dias. Pro caralho o Hemingway. Eu sempre passei mais tempo fugindo de escrever do que escrevendo. Escrever era só preguiça. Sai. Fui andar pelo Malecon.

Tiene ganas. Si.

Não existe nada mais cubano – até para um turista – do que caminhar pelo Malecon. Havana é uma mulher. De lado para o mar. As pernas. As pernas das cubanas é o que mais me encanta. Essas mulheres parecem saber pedir. Sabem cruzar as pernas. Deve ser impossível dizer ‘não’ para uma mulher cubana. Passo em outra bodega. Tomo mais quatro doses de run añejo dos bons. Acendo um cigarro. Os muros do Malecon segurando o mar do caribe. O céu confundido com o mar. Estou bêbado. Um negro alto, forte, brilhando de suor, de calça jeans e camiseta regata branca se aproxima: “Ei compadre, que procuras? Que quieres?”. Pronto. Cá estou eu embriagado, culpado e promíscuo, acompanhando o cubano sem nome que prometeu. Mulheres. Música. Celebração.

Manu.

A festa havia avançado para a hora mais escura da noite. Eu estava exausto. Procurei Manu. Queria ir embora. “Ei amigo, viu Manu?” Na cozinha. Apartamento enorme do embaixador filho da puta. “Ei amiga, viu Manu, a dançarina brasileira?”. Na varanda. Porra. Todo mundo trincado de cocaína. Salsa comendo solta. Não aguentava mais ouvir ‘Hasta Siempre’. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Freud. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Tcheckov. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Porra Manu. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Fui para o banheiro. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Precisava mijar. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Banheiro lotado. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Procurei outro banhei ro. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Nos fundos. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Empurrei devagar a porta. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Escutei Manu. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Run. Salsa. Maconha. Cocaína. Tienes Gana! Venga. Sigue. Tiene ganas. Si. Ay papito! Enfia esse pau gostoso! Ay que gana, sigue!
Entrei.

We are here friend. Pronto compadre. Relax and enjoy it. Relájese y disfrute O negro tem um inglês de sotaque eslavo. Welcome to night club Home of the Cortázar. Bienvenido al Club Nocturno Casa de Cortázar. Search no more. No busque más. Here are the best girls from Havana. Aquí están las mejores mujeres de la Habana. Here is the paradise of the caribe. Aquí es el paraíso del Caribe. Y ahora bye, bye. Adiós cumpadre. O luminoso de neon lilás e azul, na parede do balcão, pisca preguiçoso o que julgo ser a frase: ‘Fora de seu tempo’. A recepção suave da mulata de quadril petulante parece ignorar o bolero “Desengano Cruel” de Benny Moré que toca no velho jukebox.

“Buenas noches señor ¿Qué es lo que más desea?”

“Las pernas mais bonitas” – em um portunhol etílico.

“Pois não señor, acompanha/me.”

“Aqui estão elas, as pernas, señor.”

Cheiro. De Tabaco. De Culpa. De Desculpa. De Dúvida. De Festa. De Vida. Que é só isto mesmo.

Deixo o tempo passar a mão em minha bunda. Acendo o meu puro. Tomo o run de um só trago.

“Estoy embarcado... ¿ Cuanto... ¿ Cuanto cobra?”

“Me hace precio.”

“Que picapa mamita!”

“Ah, me vuelves loco...”

“Yo te pago todo.”

“Te levo a São Paulo. Yo tengo una casa en São Paulo.”

“Vas a ser mi reina.”

“Soy un grand escritor.”

“Ay que linda! Da-me una vuelta! Outra vuelta!”

“Desesperado por meter manos a la obra?!, huuum, despachado!, tienes gana!, Ay papito! Vamos al punto caramelo!”

“¿Como te llamas?”

“¿ Manu?”

*

Teodoro Balaven
nasceu em São Paulo/Brasil, em 1976, mas passou a maior parte da vida entre caixas de papelão e caminhões de mudanças, vivendo em 50 e tantas cidades por tudo isso aí de mundo. Quando criança foi só criança. Agora anda por São Paulo outra vez: vendendo troco, consertando disco voador e preparando-se para virar agricultor. Autor do livro de contos Bananas Podres e outras histórias (2012. Com vídeo-animação de Dimitri Kozma e trilha sonora de Estrela Leminski e Natalia Mallo).

Participou com contos na Revista Sexus #3 (Brasil-Argentina) e na Revista Literária Sítio (Portugal). Mantém a página do facebook Bula de Tabaréu (resenhas de literatura contemporânea); participou da antologia de contos ‘Como enganar o Google’ da Editora Terracota e participou como cronista-curto da Balada Literária 2013 (Im.pres.sões - São Paulo).

Fez oficina: com o querido escritor Marcelino Freire e com a Artista Plástica Ana Rabelo.

Mantém o site www.asfodelos.com onde deixa alguns de seus escritos e projetos.

Teodoro Balaven agradeceu e mandou um abraço para você.

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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
havana, por Joel Correia

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