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À sombra dos poetas em flor - salinger e as divas da literatura




"a literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate, fornecendo a oportunidade de vivermos dialeticamente os problemas. Por isso é indispensável tanto a literatura sancionada quanto a literatura proscrita; a que os poderes sugerem e a que nasce dos movimentos de negação do estado e das coisas predominantes."
antonio candido, o direito a literatura



tenho o privilégio de conviver com pessoas inteligentes, cultas, vividas e interessantes. entre esta turba de enlouquecidos, há os escritores e poetas diletantes. mentira. não convivo com eles, a maior parte do tempo estou na companhia de alcoólatras, cinéfilos e leitores de livro. sim, aqueles objetos que amamos dizer que estamos lendo. acompanho à meio mastro o mundo dos escritores e gente de letras, faz parte da minha profissão, me formei em letras, dei aulas de literatura, escrevo uma tese de doutoramento. convivo, como disse, com escritores, mortos e vivos. aprecio muito os mortos e aprendo com eles e com a generosidade de suas obras. romances, poemas, ensaios, cartas, depoimentos, peças de teatro. há muito a saborear da engrenagem de vida e forma contida num parágrafo de marcel proust ou num samba de chico buarque. a limpidez de drama e experiencia dos poemas de withman, a verve irônica e declamatória de sua lírica e o desprendimento com que ele levava a sua vida e seus versos, como algo orgânico e indissociável, são lições que carrego comigo.

um belo dia, rimbaud largou a literatura, colocou suas roupas na mala e seguiu a viver sua poesia de vida, pessoal e sofrida, mas não menos honesta, em um país distante. fosse nos dias de hoje, de divas, egos e busca de reconhecimento, não seria de se espantar o versejador, como uma subcelebridade, postar no facebook, "estou deixando a poesia, vou para abissínia", e logo abaixo 200 comentários e 350 "curtidas" rogando ao jovem que não os prive de sua bela obra, que muito acrescenta ao seu timeline. a abissínia perderia um comerciante e a literatura ganharia mais um poeta, que semanas depois faria tudo de novo, como justin bieber ao anunciar a aposentadoria nas redes socias, em frente ao seu público de iguais.

verlaine teria com quem se aquecer no inverno. são tempos difíceis. você imaginaria um poeta escrevendo emails para jornalistas oferecendo-se para ser entrevistado? lembra um pouco as subcelebridades que ligam para o paparazzo dando a dica de sua aparição surpresa na praia de ipanema. há um pouco de poesia nisso, pelo menos eu vejo, no patético, melancólico e solitário dessas pessoas que existem através da notoriedade sagrada que a palavra "poeta" ou "escritor" lhes dá. no facebook, palco das esquizofrenias mais deliciosas, não é raro ler como profissão no perfil desses cidadãos "poeta" ou "escritor". o que é ser poeta? não tenho certeza, aliás, a única certeza que tenho é a de que nada é sólido, tudo é feito de desfaçatez, vivo de incertezas. entre elas, a definição de poeta num mundo mercantil e assustadoramente banal. a banalização do termo, em uma época de profundas reviravoltas conceituais e coisificação da vida, me assusta. tudo se torna um produto pronto para ajudar na divulgação do trabalho. na verdade, tergiverso, pois acredito que não há nada especial em ser poeta. é um imperativo da vida. todos somos. minha mãe, mulher analfabeta e que nunca leu um livro na vida, é capaz das construções mais sofisticadas da língua portuguesa. quando vou a feira, caminho entre cantadores e poetas. na esquina de casa, há amores frustrados que nunca serão saciados. a poesia é feia, horrenda e gulosa, é bela também, a poesia é a luz clara e o pão quente. mas também é fome.

rolezinho? vamos criar uma antologia. façamos uma camiseta, a piada, o trocadilho, esvaziemos o problema até ele servir ao meu trabalho, aliás, não se usa mais o termo "obra", e sim "trabalho". sinal de que a lógica do capital, com sua capacidade de modelar-se, adaptar-se às coisas para delas extrair sua ferocidade cruel de alienação e esvaziamento, está sendo usada. não há questionamento ou posição contrária, o discurso é uníssono e se junta aos que consomem da mesma forma, confortável, da rebeldia ou do eu ensimesmado, clichês e lugares comuns do ser poético. quando se faz o papel de rebelde, porque é um papel interpretado, atiçam-se os questionamentos já estabelecidos, nunca os que se buscam estabelecer. não é raro um poeta rebelde lançar sua rebeldia contra "os sarneys", "a monogamia", "o machismo nosso de cada dia", "a família". quando quer levar ao extremo sua "apimentada" contribuição ao debate cultural, chama os medalhões de ultrapassados, ou pouco criativos em relação ao que fizeram. as principais vitimas são caetano veloso e chico buarque. nada diferente do que fizeram os modernos, ou românticos, em seu tempo. o que importa, me parece, é o estabelecimento da popularidade através do lugar comum, sem ofender o horizonte de expectativas de seu público de internautas e conectados. ao atentar contra o estabelecido, e muito consumido, cria-se um "frisson" de rebeldia, mas nada que magoe as sensibilidades, afinal o poeta está apenas sendo polêmico. já faz parte do repertório comportamental e não cria estranhamento. polêmica inócua.

confesso que divago. o que me motivou a escrever foi uma série de frases atribuídas ao escritor j. d. salinger. notório por não conceder entrevistas ou se deixar fotografar (antimoderno, antifacebook, antimercado, antipoeta). as frases servem, penso, para ilustrar um tipo de escritor que está em extinção. não sei se devido a velocidade com que se busca hoje a celebridade em seu campo de ação, ou à banalização da experiencia, compartilhada a exaustão e motivo de hedonismo vago, fútil e masturbatório. e não no bom sentido. ficam aqui as frases de salinger e de outros autores. servem de modelo de ser humano, e não de poeta, ou escritor, embora não faça mal algum nos pautarmos no anonimato. a obra se constrói no silêncio.


Frases de Salinger

"Como minha mente é complicada, sempre preciso fazer um esforço para viver como eu próprio me aconselharia a viver caso fosse meu mentor."

"Amo, realmente amo, escrever algo que um dia será impresso (...) O que eu amo, o que me intriga, é o teatrinho dentro da cabeça do leitor."

"No minuto em que você publica um livro, saiba que não está mais em suas mãos. Lá vêm os resenhistas, tentando fazer um nome para si com a destruição do seu."

"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar é uma terrível invasão da minha privacidade. Amo escrever. Mas escrevo só para mim e para meu prazer pessoal. Pago por esse tipo de atitude."

"Prefiro passar duas horas na cadeira do dentista que um minuto na sala de um editor. Todos aqueles tipinhos literários insuportáveis, completamente cheios de si, que não leram uma linha de Tolstoi desde a faculdade."



Frases sobre Salinger

"Você tem um ouvido maravilhoso e escreve com ternura e amor, mas sem sentimentalismo (...) Fiquei feliz por ler aqueles contos e acho você um escritor danado de bom."
Ernest Hemingway, em carta trocada com Salinger durante a 2ª Guerra.


"Fiquei impressionado com O Apanhador. Tive a impressão de que o livro mostrou um mal contra o qual o escritor precisa se proteger: a pressão da nossa cultura, que força todo mundo a pertencer a alguma coisa, a um grupo. É difícil ser um indivíduo em nossa cultura. Acho que o que vi nesse livro foi uma tragédia que, de certo modo, representou a própria tragédia de Salinger"
William Faulkner, em 1958


"Havia algo cortante no que escrevíamos durante a guerra, porque sabíamos que poderíamos acabar em breve. Os rapazes sem dúvida pensam na morte. Antes, Salinger não estava penetrando abaixo da superfície, ele era um conjunto de superfícies reluzentes. Por isso, quando enfim descobriu o lampejo da voz daquele rapaz (Holden Caulfield), brilhou intensamente"
Gore Vidal


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Créditos da imagem:
cena do filme Howl

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