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De Amor e Asfalto





O disco vermelho acendeu-se e os carros foram parando um a um, enfileirados diante do semáforo. Ele levantou calmamente o corpo da pequena ilha de concreto onde esperava e caminhou pelas paralelas faixas brancas pintadas no asfalto. Parou diante dos carros e, sem cerimônias, num gesto brusco e decidido, levantou a camisa encardida e rasgada. Nada disse. Não deu piruetas no ar, não ofereceu doces nem canetas para vender. Levantou a camisa em silêncio, sabedor de que era o suficiente. Os ossos das costelas estavam apertados contra a pele escura da barriga, afundada em sua faminta timidez. Os ossos das ancas sobressaltadas ameaçavam rasgar uma pele seca, dura. O peito magro parecia fazer força para inflar-se.

Fedia um fedor azedo. Mas fedia menos do que aparentava. Se a fome tivesse rosto, certamente teria a mesma barba crespa, vasta e suja, o mesmo maxilar quadrado e sobressalente. Teria os mesmos olhos injetados, a mesma boca carcomida pelas intempéries. A eloquência do seu silencio gritava nos ouvidos dos motoristas. "Eu tenho fome.", dizia o silêncio. Mas seu rosto sem expressão não emendava nenhum complemento. Nem “Tenham pena.”, nem “Ajudem.”, nem “E odeio todos vocês.” Não sorriu seu sorriso sem metade dos dentes. Também não chorou. Nem xingou. A morte já gastara um tempo considerável naquele corpo. Deixara as marcas de suas mordidas e da sua peçonha lenta. Mas não parecia ainda preparada para terminar o serviço. A oculta máquina do mundo tritura carne e os espíritos que eventualmente a recheiam. Aos poucos, como se saboreasse o processo.

De dentro de um sedan negro, de vidros fechados, um pai atencioso apontava para a cena e explicava para os filhos a importância de se ter estudo. De se ter um emprego. Certamente aquele homem ali não estudara, não se esforçara, não trabalhava. E era por isso que estava naquela situação. Os meninos, assustados, esperavam pelo dia em que terão idade mental suficiente para entender o tamanho da canalhice que lhes dizia o pai. Desinformados de que para alguns espécimes da raça humana esse dia nunca rompe.

Não recolhera mais que algumas moedas pequenas quando o sinal de trânsito tornou a mudar de cor. Retirou o corpo degradado do asfalto onde os carros agora se moviam e foi em direção à rodoviária que beirava a pista. Atravessou a multidão e seus movimentos caóticos que superlotavam a estação com os passos mais firmes e decididos que conseguiu dar. Saiu do outro lado da construção e, de olho em outro semáforo, esperou alguns segundos para atravessar a rua.

Ela estava em meio aos carros, com sua bandeja de doces pendurada no pescoço por uma correia de lona. Linda. O sorriso franco, como sempre, estampado no rosto. Mostrava todos os dentes. Todos brancos. Um fenômeno. Devia ter pouco mais de vinte anos, embora aparentasse mais. A pele morena enegrecida pelo sol, um boné branco enfiado na cabeça e um rabo de cavalo escapulindo pela abertura na parte de trás. O corpo franzino, as pernas cobertas até os joelhos por uma saia rota, que um dia talvez tenha sido azul. Os olhos verdes pareciam sorrir mais que a própria boca. Era a coisa mais linda em que ele já havia deitado os olhos vermelhos.

Quando conseguiu atravessar a rua, o sinal onde ela trabalhava se abriu. A moça postou-se ao lado do poste negro que segurava as luzes do sinaleiro, esperando que a luz vermelha se impusesse novamente. Ele aproximou-se, hesitante. Estendeu timidamente a mão com algumas moedas, pedindo "Uma jujuba, por favor?". A moça sorriu e pegou um pacote de jujubas na bandeja. “Você já almoçou?”. Ele sacudiu timidamente a cabeça em negação. “Então, vai almoçar. Comer doce assim faz mal pra você.”, disse ela, guardando a jujuba de volta junto das outras. “Vai almoçar? Depois eu te dou uma jujuba.”, completou sorrindo. “Não quero nada dado. Eu posso pagar.” “Então vai almoçar que, quando você voltar, eu te vendo uma jujuba. Prometo que deixo uma guardada pra você.” Ele pensou em aquiescer, mas a cabeça não se moveu. Sentiu o pescoço endurecer. “E você? Já almoçou?”. Um ar frio invadiu-lhe o estômago vazio. “Também não.”. “Quer almoçar comigo?”. A firmeza nas pernas faltou-lhe à espera da resposta. Ela sorriu, tímida. “Só posso ir daqui uma meia hora.” Ele sentou-se encostado a uma mureta de concreto. “Eu espero.”

***

“Dois pê-efes e duas doses de pinga, faz favor.” Os dois sentaram-se junto ao balcão. “Os copos precisam ser limpos?” perguntou o atendente. “Não, ninguém aqui é fresco.” respondeu ela. Ele sorriu. O atendente pôs dois copos americanos na mesa e encheu de aguardente. Ele envolveu com os lábios a borda do copo, sentindo a ardência do resíduo espesso de cebola e de linguiça que sobrevivera no vidro. O líquido desceu áspero, queimando o fundo da garganta. Sempre que bebia cachaça, tinha a sensação de estar bebendo combustível de avião. Não sabia explicar o motivo da analogia, nunca tinha nem mesmo visto um avião a menos de cinco quilômetros de distância. Mas os adorava, assim como a sensação da cachaça rasgando seu caminho em direção ao estômago esburacado, onde repousava quente, confortável.

Os dois levaram menos tempo para raspar o fundo dos pratos do que na espera pela comida. Comiam em silêncio, sem conversar. Mas não se importavam. Na ausência da cobrança, da obrigação de pensar em algo interessante a dizer, encontravam sossego de espírito. Gostavam ainda mais um do outro por não sentirem necessidade de se impressionar mutuamente. “Você vai vir naquele show amanhã?”, perguntou ele de repente. “Na esplanada? Não sei.”. Ele encheu o peito de coragem. Talvez tenha sido a dose de álcool que circulava em seu sangue. “Você podia vir. A gente podia se encontrar.”. “Nove e meia na estação do metrô, então.”, respondeu ela, rindo-se da timidez do homem e da sua própria. Sorriu sem abrir a boca. Ele gostaria de ter visto seus dentes mais uma vez, mas satisfez-se. “Vô tá te esperando.”

Ela se produziu naquela noite. Depilou as pernas, os sovacos. Lavou com especial atenção e perfumou a boceta. Os cabelos lisos estavam soltos sobre seus ombros. Sobre o corpo, o vestido que lhe custara mais de cinquenta reais e só havia usado no casamento da irmã. Passou um dedo de perfume atrás das orelhas, outro na base do pescoço e no vão dos seios. Calcinha nova. Pegou a bolsa que deixara separada em cima da cama e saiu de casa. Atravessou um sem número de terrenos baldios e ruas sem asfalto ou iluminação até chegar à estação do metrô.

Passou todo o caminho remoendo a ansiedade, antecipando diálogos, imaginando respostas, sentenças que diria ou ouviria. Esfregava as mãos uma na outra e perguntava as horas a cada cinco minutos. Quando o trem finalmente parou, correu para a porta, tentando ser a primeira a sair do vagão. E lá estava ele. Barba aparada. Camisa azul de botão que parecia nova, assim como o par de calças jeans. Ele esperava de pé, em frente à plataforma e aos trens que chegavam. Ela quis correr em sua direção. Conteve-se. Caminhou aparentemente segura e sem pressa. Ele sentiu gelar a espinha com aquela caminhada sem fim. Cumprimentou-a com um leve toque de mãos. Ela estalou um beijo em sua bochecha e riu do rubor que causara. “Olha o que eu tenho pra gente.” disse ele, sorrindo, e exibiu uma garrafa plástica cheia de vinho. Ela sorriu. “Vamos?”

A música ainda não dava mostras de estar no fim, mas os dois já estavam cansados e um tanto impacientes. “Por favor, irmão, que horas são?”. O desconhecido virou-se e disse que eram duas e meia da manhã. Ela arregalou os olhos verdes. “Nossa. O metrô hoje só funciona até às três. Preciso voltar pra casa.” Ele aquiesceu num movimento de cabeça resignado. Ela não se despediu. Ele resolveu aproveitar a deixa. Um sentimento de urgência inflou seu peito. “Espera, que tem uma coisa que eu quero fazer.” e forçou os lábios contra os dela. Ela sorriu em meio ao beijo, as bocas se abriram, as línguas se abraçaram. Sugaram o vinho do hálito um do outro. Imagina-se que anjos devam ter aparecido, o chão sumido e a música parado. Porém, tais detalhes só os dois conhecem. O que se sabe é que ela pendurou-se em seu pescoço e com a boca colada em sua orelha sussurrou, até onde se pode sussurrar algo audível em um concerto de música sertaneja, que ele poderia ir apara casa com ela.

Quando ele, um tanto entorpecido de álcool e ansiedade, soltou-lhe as alças do vestido e o tecido correu corpo abaixo, expondo a nudez da moça, deu um passo para trás a fim de contemplar a vista. Queria chorar. Queria cair de joelhos e idolatrá-la. Queria protegê-la. E, sobretudo, queria foder com ela.

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Créditos da imagem: shutterstock.com/pt/
Homeless man., por wrangler

Um comentário:

  1. Sensacional! Poesia insólita, uma flor no meio do asfalto. Parabéns!

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