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O Homem do conserto já chegou?




Quebrado. Enguiçado. Estragado e travado. Ontem ele sequer me cumprimentou e hoje nem se despediu. Tomou café da manhã e partiu ligeiro com cara de compromisso. Dói. Do dedo ao duodeno. Só. Me sinto pó. Corpo sem toque, mas repulsa. Palavras sem retorno, mas revide. O monólogo é um diálogo mutilado. Um pas de deux solado. Sombra sem figura. Prefiro ciúme ao descaso. Abandono dá sono. Relação autolimpante. Contrário do carbono. O dia passou décadas. Cinco da tarde, já. Cinco da tarde de tantas tardes, iguais, insossas. Quebradas, enguiçadas. Estragadas e travadas. Nesta sala de espera, esperamos. Um último recurso. Sem esforço não há recompensa. Para o corpo tem remédio e para o amor, tem o que? Um divã para dois corpos. Não sei se cabemos os dois, as frustrações, os ditos e os não ditos neste divã salva vidas. Fora dele, os tubarões do fracasso devorando ilusões. Atrasado. Sempre atrasado. O dono do divã das cinco da tarde. Neste sofá cor de catarse ele e eu. No meio, acusações, culpas e constrangimentos. Ele e eu. Quebrados, enguiçados. Estragados e travados. Sala de esperas inúteis. Cinco e trinta. E o dono do divã, homem do conserto, já chegou?




Paula Kahan Mandel
nasceu em São Paulo.

É advogada com especialização em Direito Penal Econômico.

Seu texto “A lente desajeitada” foi classificado em terceiro lugar no Desafio de Novembro/2013 do Jornal Literário Olaria das Letras na modalidade miniconto.



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Créditos da imagem: shutterstock.com
portrait of beautiful young woman think sad looking up, isolated , por mast3r

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