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Um olhar sobre a educação e a cultura em Cuba




O ano de 2014 começou esplendoroso em vários sentidos. Sinto-me afortunada, por exemplo, por ter realizado um sonho antigo: conhecer Cuba. Nesta viagem, vi de perto a divulgação da vida e obra do renomado educador Paulo Freire, eixo central da participação do Brasil na 23a Feira Internacional do Livro de Cuba, que aconteceu na capital do país, Havana, de 13 a 23 de fevereiro.

Entre as principais ações da delegação brasileira constavam a apresentação de um trabalho de multimídia “¿Quién es Paulo Freire?”, da educadora popular Nydia González (Editorial Félix Varela), o debate “Educación popular a lo Freire en Cuba”, conduzido pelas pesquisadoras Idania Trujillo e María Isabel Romero (Centro Martin Luther King) e a conferência “Paulo Freire entre nosotros”, a cargo do Dr. Mariano Isla.

Com alguns brasileiros, assisti a uma mesa-redonda na sede da Casa de las Américas sobre a vida e o pensamento do autor de “Pedagogia da autonomia”, “um dos mais influentes pedagogos do século XX”, segundo Michel Hernández em texto publicado no jornal “Granma” de 8 de fevereiro de 2014. Compuseram a mesa o teólogo Frei Betto, a viúva do educador, Nita Freire, e Esther Pérez, do Centro Martin Luther King. Hernández entrevistou o agregado cultural da Embaixada do Brasil em Havana, Sergio Couto, que destacou a importância de promover em maior grau a obra de Freire (Recife, 1921-São Paulo, 1997), pela transcendência de seu pensamento nos movimentos libertários da América Latina e por sua intensa ação intelectual.

Muito me impressionou a valorização do professor e da educação em Cuba, o que fica evidente na forma como os cubanos se dedicam exaustivamente aos estudos e na maneira de tratar os professores, com respeito e carinho, o que se traduz em gestos. Além do silêncio durante as aulas, toda a classe se levanta no momento que o professor entra em sala, independente da idade dos alunos. Os grupos de estudantes escolhem entre eles um ou vários líderes, para facilitar a organização dos processos de ensino-aprendizagem. O carinho dos cubanos dedicado aos professores se reflete num sorriso, na mão amiga, num café compartilhado, em sua presença atenta e ativa nas aulas, no zelo ao fazer as tarefas, em elogios, homenagens surpresas - muitas vezes com leitura de poemas -, em presentes no fim do curso, de acordo com o perfil e gosto do professor. Surpreenderam-me tanto os presentes materiais quanto os imateriais que fui colecionando nos 19 dias que estive em Cuba: postais com poemas, em alguns casos bilíngues, pergaminhos com textos de alunos em português, livros de Che Guevara e José Martí, entre tantos outros poetas, intelectuais e líderes admirados, material valioso que preencheu as minhas malas e o meu coração no regresso ao Brasil. Uma vivência emocionante. Única!

A dedicação aos estudos e a valorização da educação se refletem diretamente na criação artística, na vida cultural. Várias amigas brasileiras e eu ficamos impressionadas com a qualidade do trabalho de atores e músicos cubanos jovens, muitos, inclusive, com 18 ou 20 anos. Pudemos apreciar o trabalho do destacado diretor de teatro Raúl Martín, assim como colagens de peças teatrais, dança e música na sede do “Ciervo Encantado”, coordenado por Nelda Castillo, as peças teatrais “Las lágrimas no hacen ruido al caer”, de Alberto Pedro Torriente, dirigida por Miguel Abreu, e “Antigonón”, de Rogelio Orizondo, dirigida por Carlos Díaz, além de cenas de obras cubanas do “Kafé verde pero dulce”, que apresentou dramaturgos, diretores e atores jovens com direção geral de Agnieska Hernández, apresentação de Yordanka Ariosa e música ao vivo - percussão, violão, baixo, violino e piano tocados por jovens, coordenados pela percussionista Diana R. Suárez.

Com um conceito inusitado de espaço cultural, frequentamos várias noites a recém-inaugurada “Fábrica de Arte Cubano” (FAC), no bairro Vedado, composta por uma imensa galeria de arte instalada em dois andares de uma fábrica antiga, que se complementa com um bar, um espaço para livraria com cafeteria, projeção de cinema, apresentação de peças teatrais, lançamento de livros e uma discoteca. Um lugar mágico, repleto de artistas e amigos, que me fez viajar em pensamentos, de mãos dadas ao “Raulito” Martín, pelas incansáveis noites de arte na Casa de Teatro, dirigida pelo ator, dramaturgo, escritor e incomparável gestor cultural Freddy Ginebra, “nossa” casa localizada na zona colonial de São Domingos, capital da República Dominicana, país onde vivi de 2007 a 2012. Em Cuba, revi amigos das duas maiores ilhas do Caribe, celebrei o 70o aniversário do Freddy Ginebra. Linda notícia saber da presença da poeta, dramaturga e ensaísta dominicana Chiqui Vicioso, convidada da Feira Internacional do Livro de Cuba para realizar uma conferência em homenagem ao centenário da poeta porto-riquenha Julia de Burgos. Chiqui é dona de uma poesia refinada que ao tradutor gera o desejo de levá-la para a sua língua... Mulher de presença forte e ao mesmo tempo tranquila, de uma voz e sorriso doces que contam histórias cativantes, encantando os seus ouvintes. Com Chiqui e Freddy, comecei a conhecer a cultura cubana na República Dominicana. Esses dois grandes amigos são mágicos, como o local onde se realizou a Feira do Livro; que pude visitar à noite, quando assisti “à cerimônia do 'Cañonazo', sempre às 21 horas, todo dia, momento em que se celebra em La Cabaña esse cerimonial que mantém uma tradição que data de séculos atrás, quando o disparo do canhão avisava que as portas amuralhadas da cidade seriam fechadas” até a manhã seguinte: “O parque Morro-Cabaña é a sede principal da Feira do Livro e abriga em suas veredas museus, restaurantes e bares”... “A fortaleza de San Carlos de la Cabaña (1774), em seu tempo, era o mais formidável conjunto fortificado da América, cuja missão, obviamente, era a proteção de Havana, ponto de reunião das frotas espanholas.” . Chiqui Vicioso confirma o que notei no cotidiano da sala de aula: o povo cubano valoriza o livro. A poeta comenta que a feira do livro cubana é única na América e só comparável, em sua vivência, enquanto quantidade de público interessado em livros e atento à leitura, ao Festival de Poesia de Medellín.

Uma viagem inesquecível só poderia ser recordada com poesia. Vários estudantes me presentearam com obras de grandes poetas cubanos, como Carilda Oliver Labra: “Me desordeno, amor, me desordeno,/ cuando voy en tu boca, demorada”... Um dos estudantes, o artista plástico Itzam López Alarcón, chegou a criar uma narrativa curta e vários poemas como exercício que realizou depois de apenas duas semanas de aulas de um curso intensivo de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira, o que me surpreendeu por serem textos com poucos erros, fruto da sua dedicação aos estudos da nossa língua. Para concluir, apresento seus poemas, revisados:



Viver é morrer
14/2/14 Havana - Cuba
“É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.”
Alcoólicas – Hilda Hilst

É crua a verdade que não se quer ouvir,
é crua a hora quando a dúvida pega,
é duro amar quando o amor não chega
é difícil também deixar fluir.

O amor é a vida, a vida é morrer
crua e dura é a vida
a vida é assim
mas ficando contigo mal posso senti-la.

Por isso eu quero - florzinha minha –
contigo ficar, viver
e morrer.




Meu amor cansado
14/2/14 Havana - Cuba
"silêncio, silêncio, o silêncio
e algumas palavras"
Caminantes – Cristiane Grando


O silêncio fala com as palavras
da língua com que a pressa joga…
- O silêncio dorme em minha garganta.

O silêncio fala no coração que bate
pela ilusão que a sua batida mata…
- O silêncio dorme em minha testa branca.

O silêncio dorme sobre a porta na qual baterá a mão,
a mesma mão que a flor pegará
a mesma flor que por seu verdugo fala…
- O silêncio fala sobre a minha fé errada.

O silêncio fala pelos olhos que olham,
que descobrem mas não alcançam.
O silêncio canta,
canta o silêncio apaixonado e cantando se declara…
- O silêncio dorme,
sobre o meu amor cansado.




Mulher
14/2/14 Havana - Cuba

Minha flor bonita, dona do jardim
Uma onda de estrelas brinca em seus cabelos
           brilha em seus olhos, mora em sua boca
Lá onde jantam muitas mariposas para poder cantar.
Homem triste aquele que a deixou
           aqueles que a deixaram o serão também
           morrer eu poderia se amanhã voasse
           de só achá-lo, já eu não me sentiria bem.
Escrevo estes versos consciente e perdido
           com medo de um dia já não a ver mais
           irmã da lua, rainha das minhas noites
           eu só consigo contigo sonhar.
Relembro o seu nome todas as manhãs
           mulher da minha vida,
           meu anjo fatal
           eu quero para sempre abrir o seu sorriso
           cárcere de onde já não quero voltar.




Lembrança de Havana
(Dedicado a Cristiane Grando)
12/2/14 Havana - Cuba

O asfalto, os carros, a gente….
Devagar!!!!
A pressa, o barulho, os meninos brincando
cachorros e gatos correndo e brigando,
os filhos estudam, os pais trabalham
vivendo uma história que não estão contando
o táxi, a fila, a guagua, o tumulto*
o cansaço, os bultos nas costas carregando*
a pressa, o barulho…
devagar, devagar!!!!!
As casas, as lojas, as feiras
cinemas e teatros, os parques e os velhos
mirando e deixando fluir.*
Saudações, anúncios, todo mundo pensando,
mulheres e homens subindo e descendo,
falando espanhol? Não!
Falando cubano, como uma metralhadora,
bebendo, cantando, jantando e morrendo.
O brilho no escuro da luz do farol
as ruas se inundam quando está chovendo...
cuidado, um desabamento
cuidado, cuidado!!
Os sonhos, os risos se misturam com o pranto
assim é Havana
assim é o meu bairro.

* la guagua = o ônibus
los bultos = as sacolas, as bolsas, as mochilas
mirando y dejando, expressão que traduzi por mirando e deixando fluir = olhando a vida passar, sem interferências



E o mundo não se acabou
22/2/14 Havana - Cuba

“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”
- Assis Valente

Chorou o dedão agredido pelo espinho
caiu o espinho protegendo a sua flor
morreu a flor sem culpa e abatida,
desprezada, sem seu amor, sem sangue por sua ferida…
e o mundo não se acabou.

Não foi ao encontro marcado
nem ao jantar da lagarta,
sua conversa com a lua inconclusa ficou pendente de um novo amanhecer,
morreu a flor sem culpa e abatida,
despojada, sem inveja, sem sangue por sua ferida…
e a vida continuou.


*

Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
Cuban Flag puzzle on Havana Sea Wall - CU, por Red pop creative

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