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Conversando com Clarice



Não, não! Não sou leve a vida inteira. Às vezes eu tenho o peso da complexidade da vida dentro de mim. E é justamente por isso que de vez em quando me desentendo dos sentimentos todos. E não pense que misturar sentimentos é loucura enunciada ou prelúdio de uma iminente insanidade. Não, não! Isso é vácuo, que me suga para dentro; que me faz silenciar e remexer até encontrar sentido. Eu mergulhei agora… Mergulhei no meu íntimo secreto. Estou tentando enxergar o sentido inalcançável da vida. Ah Clarice, você que enxerga os pormenores da alma humana, consegue me ver? Enxerga que eu sou só um pormenor agora? Sou um fragmento, uma pequena partícula isolada no silêncio da alma; da minha alma muda. Sou apenas uma parte dentro de todos os sentimentos misturados. Uma parte perdida, mas ainda sou e é isso o que importa. Não, não sei explicar quando e como acontece. Não me conheço tanto a ponto de esclarecer alguns impossíveis dentro de mim. Você consegue, Clarice? Lembro quando você me disse que “o que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós”. Talvez eu seja um fragmento do amor impossível. Ou talvez a ousadia de não ser amor o tempo todo. Talvez! Eu ainda não sei, Clarice. As explicações fogem e eu não as alcanço, assim como não alcanço o conceito de ser. Ser é o quê? Ser é existir? Ser é sentir? Talvez eu sinta tudo com a expectativa do que é passível de acontecimento. Talvez eu seja a coragem dos sentimentos todos que carrego aqui dentro. E ser a coragem dos sentimentos que acontecem de verdade é experimentar o amor. Você não acha?

Aliás, Clarice, por falar em amor, digo sem vergonha alguma que, quando amo de verdade, também não sei explicar. É algo que eu não consigo esclarecer. Eu sinto, apenas. Não sei dizer esse amor; sua cor, sua forma, sua existência. Não há palavra que alcance a tradução da imensa emoção que é ter alguém aqui, guardado dentro de mim, percorrendo a essência da minha alma. O que acontece é a sensação. Sabe aquela sensação de completude? Pois é... Quando amo alguém de verdade, a vontade que eu tenho é de engolir a pessoa. E isso me completa. É esta a sensação: Uma sensação traduzida pela vontade de engolir e guardar a pessoa dentro. Por quê? O porquê eu também não sei. Talvez para protegê-la, salvá-la do resto do mundo. Talvez, quem sabe, para protegê-la e salvá-la de mim. Porque quando eu amo, como qualquer outra pessoa, posso oferecer perigo. Amar é perigoso demais. O amor nos faz vulneráveis. Às vezes, sou brisa suave; outras vezes, forte tempestade. O que posso fazer? Não sei permanecer eternamente suave. Não sei paralisar meu coração e aguardar o tempo do outro. Vou logo entrando, me instalando, dizendo, absorvendo... Não, não sou leve a vida inteira!

Outra coisa interessante que descobri sobre o amor que me invade é que o amor que eu sinto não é daqueles que vêm do fundo do coração. O amor que eu sinto é daqueles que vêm do fundo do útero, entende? Pois é... Embora o coração o revele quando bate descompassado, o útero é mais profundo porque é capaz de gerar vida. O coração, não; o coração a mantém. E amor é semente de vida que floresce. Amor nunca é quase vida. Amor é vida que floresce dentro de nós. Isso eu já compreendi. E eu amo assim, do fundo do meu útero. Seria uma explicação plausível para o amor e a complexidade da vida dentro de mim?

Quer saber? Talvez nada tenha tanta explicação e ouvir o silêncio da alma, quando se mergulha nela, é um meio de fazer tudo se explicar. E nessa tentativa de explicar e traduzir o intraduzível dentro de mim, Clarice, eu escrevo. E escrever sobre aquilo que não vemos, mas sentimos de forma viva e ininterrupta, é tarefa árdua. Como materializar uma sensação inalcançável? Para muitos escrever é apenas um dom. Para mim é o bem que me salva – assim com salvou você, Clarice. E, sinceramente, não sei se há algum dom misturado a esse imenso desejo de salvação que nos impulsiona. Será que eu consigo entender tudo aquilo que existe? Você me disse que “escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada”. Portanto, Clarice, escrever é a minha única esperança. Esperança e necessidade de preencher alguns dos meus infindáveis vazios existenciais. Compreender vazios existenciais é uma das formas de se abençoar uma vida. E escrevê-la é transformá-la em arte. A arte nasce desse vazio que nos amedronta e esmaga.

Depois de tanto ouvir você, Clarice, descobri que escrevendo vou desconstruindo a minha complexidade interior até transformar a minha essência fragmentada em vida inteira, completa, irredutível. Descobri que escrever é o bom senso que me dobra e me recupera de dores emocionais, mesmo após revelar minha incapacidade de traduzir alguns dos meus sentimentos, como por exemplo, o amor. Mas, ainda assim, após tantos questionamentos que sobrecarregam a minha essência, confesso que alguns eu já consigo decifrar. Decifrar e entender. E entendo porque ao escrever o que sinto, me organizo inteira por dentro e volto a ser leve, feito “pétala que voa”.


(Texto escrito originalmente em abril de 2011 e publicado no Blogue Meu Universo Particular. As citações constantes no texto foram extraídas dos livros A Maçã no Escuro, publicado em 1978 e A Paixão segundo G.H., publicado em 1964, ambos de Clarice Lispector)

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Créditos da imagem:
A hora da Estrela (5), por Marina Aguiar

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