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Eu e minha dor





Minha dor é só minha quando me tranco no banheiro. Fecho porta e janelas e sento num cantinho pra chorar, à prova de curiosos que porventura se alertem com o ruído do meu pranto.

Minha dor é só minha quando chego em casa no meio da tarde e, neste instante, eu e apenas eu, posso me contorcer de sofrer, em todos os cômodos, no quintal, nas varandas, no chão ou no sofá, na escada, no escritório, no quarto de dormir. Sem testemunhas.

Minha dor é só minha quando me olho chorando no espelho e sinto pena de mim, com a cara úmida de suor e lágrimas, olhos vermelhos, rímel escorrido e a expressão nítida de dor que não finda. Choro ainda mais, com horror da imagem que se mostra a mim.

Minha dor é só minha quando opto por mergulhar pra dentro, me fechar bem lá no fundo, eu e minha dor, nós duas apenas, por pertencermos uma à outra e não aos outros, quaisquer que sejam tantos outros.

Minha dor é só minha quando volto ao passado, perco-me na memória e fico por lá, na fantasia de felicidade, de que seria a mesma para sempre.

Minha dor é só minha na certeza de que tudo era ilusão; certeza que a maturidade oferece agora. E me dou conta do desejo incontido de que o tempo parasse no aconchego, na segurança daquele regaço.

Eu e minha dor que é só minha, tão e tão somente minha, de mais ninguém nesta ou em mais vidas. A que vai me seguir todo o sempre, colada na pele e na alma. A que não me permite esquecer da parte de mim que não está mais em mim.

Por isso choramos, juntas, eu e minha dor.



Imagem: www.corbis.com

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