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Poemas de Nathan Sousa




aula de voo


deixe-me.
preciso cair.




Maria das águas


Subiu a rua centenária sentindo o passado na sola dos sapatos.
Engoliu perguntas temendo as respostas que o tempo transformara
em portas, janelas, azulejos, placas de metal.

Pensou em nomes de rua e constatou que o seu soaria
bem, no cruzamento com o Parnaíba.
Fechou os olhos como quem vai ao fundo, e
(com a ponta dos pés)
reservou-se ao mesmo leito em outras
esquinas.





Patrimônio da humanidade


Bernadete vive numa rua tombada.

Acostumada ao patrimônio,
abre com cuidado as portas
(gigantescas)
do casarão.

Não agüenta mais tanto gemido
(o das paredes basta).

Já não assovia
(nem canta) enquanto
lava e passa.

Custa dormir com tanto ruído.
Quisera entender por que tanta dor.

Anda pela rua
(a mais badalada)
com medo da chuva, do lar alagado.

Admira o calçamento, as pedras: tão velhas
e tão bem acomodadas.
Bernadete não sabe o que é tombamento.
Bernadete cala.




Abrigo


Porque o dia poderia terminar como
uma cortina depauperada, em desmanche.

E da textura esfacelada a mesma cidade
– mais nova e pronta para outra –
logo recobraria seu ofício
(o domínio, a plástica).

Mas que reduto renovado
saberia da matéria
(antiqüíssima)
de suas vias?

Descambariam no inacessível,
estas linhas?

Que hálito este novo barro
adestraria rente à selvageria
secular de minhas narinas?

A cidade envelhece em meu coração
como quem ignora os lençóis
em noites de neve.



Atentado


Conheceu o amor num beco de breu e silêncio:
lugar apropriado para exumar do corpo
o que ignora e aplaca:

o fogo
o frio
o frívolo

o trêmulo
o frêmito
o tácito.

O corpo incógnito, a estranheza,
a rigidez do avesso
– como se entranha fosse.

O sumo extraído
– como se fruta fosse.

A fauna primitiva
(metálica)
que desconhece o que divide e
– num átimo –
é escambo de sal e couro;
osmose, permuta franciscana.

Sem alarde, num beco de breu.



Nathan Sousa

Poeta e letrista piauiense (Teresina, 1973). Autor dos livros O Percurso das Horas (Edição do autor, 2012), No Limiar do Absurdo (LiteraCidade, 2013) e Sobre a Transcendência do Silêncio (LiteraCidade, 2014). Ganhador de vários prêmios literários, dentre eles o Prêmio LiteraCidade – 2013 na categoria Livro de Poemas e o II Prêmio de Literatura da UFES na categoria Coletânea de Poemas. Foi também um dos vencedores do 8º Prêmio Poesiarte. É membro da Academia de Letras do Médio Parnaíba.



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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
O CASARÃO, por Ismael Ramos

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