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Um exilado que busca refugiar-se no próprio texto: Nathan Sousa




Há poesia toda vez que um escrito nos introduz num mundo diferente do nosso, e, nos dá a presença de um ser, de certa relação fundamental, fazendo com que ela se torne também nossa e, por isso, a poesia faz com que não possamos duvidar da autenticidade da experiência do escritor.

“No limiar do absurdo”, obra do poeta brasileiro, Nathan Sousa, é um exemplo de expressão e complexidade da palavra arriscada e lúdica. O livro não se limita a nenhuma escola ou a uma norma fixa, e por isso, marca um percurso de liberdade em busca de um estilo, não pelo desconhecimento dos múltiplos estilos poéticos, visto os diversos diálogos que o poeta promove e as diversas remissões que propõe, mostrando sua estreita familiaridade com os movimentos literários da poesia brasileira. “No limiar do absurdo” subdividi-se em três partes, “O sol da sombra”, “A noites de Camus” e “Amálgama”, para mostrar um poeta comprometido com a percepção e a sensibilidade.

O poeta Nathan Sousa soube tecer os significantes dando novas formas ao casual, pois as construções de suas metáforas produzem novos sentidos e, desses novos sentidos surgem metonímias que contribuem para aprimorar, complicar, dar sentido de profundidade àquilo que, no real, não passa de pura opacidade.

O teor de seus poemas não é a mera expressão de emoções e experiências pessoais. Não se trata de um jogo fácil de palavras contrastantes, nem tampouco de um falar de amor, dor, desejo ou fantasia e sim, de tecer as palavras e transformá-las em metáforas e metonímias de um real indizível. Apresenta-nos um mergulho profundo no individuado e, assim, eleva o poema à condição de um manifesto, algo de não distorcido, de não captado, de ainda não subsumido, e por isso mesmo, conduz o leitor à perplexidade, a descoberta de novas conexões.

O primeiro poema do livro intitulado, “Duas medidas”, é uma tentativa de acabar com o abismo que separa o poeta de seu leitor, pois é o poema quem fará referência ao sujeito do discurso e, ao mostrar um descentramento desse sujeito que é dividido e submetido à linguagem, em oposição à noção de um ser monolítico ou indivíduo, um exilado que busca refugiar-se no próprio texto, aquele a quem o otimismo prometera o paraíso, mas não dera senão um purgatório de contrastes e frustrações. Eis o poema:


Duas Medidas

Recolhido em meu canto
de contenção
- onde só o murmúrio
dos mortos alcança-
resisto ao envelhecer
das falas.

Passeio pela superfície
Ilusória
Dos gestos
Como que acidula
- tranquilo e sorridente-
a água de beber
dos indolentes.

Sou um homem pequeno...
Como um frasco de veneno.



O poeta trabalha intencionalmente as palavras e as sentem como coisas e não como signos, e a sua obra como fim e, não, como um meio a serviço de fins extrínsecos. A poesia exige um absorvente exercício que, em certos momentos, aparece possuir fins em si.

Ao falar de seu processo de criação Nathan Sousa afirma que: “ procurou explorar o máximo grau da expressividade, mesmo sabendo que o terreno era árido, daí a escolha do título do livro, “No Limiar do Absurdo” e, que a poesia o enlaça por sua capacidade de expressão. Ainda acrescenta que: “A poesia nasce de uma necessidade totalmente descontrolada de comunicação”. Nasce de um ímpeto que, embora seja meu, no momento em que se inicia o processo de elaboração estética, mais parece um transe, e, por paradoxal que pareça, há muito silêncio embutido na hora da descrição dos signos. É sempre uma experiência transcendente, e não apenas um exercício de palavrear sentimentos e/ou percepções.”

Em outro momento, encontraremos o poema “Garimpo”, em que o sujeito do discurso tentará, através da linguagem, romper a sua qualidade comunicativa, deixando de servir apenas ao objetivo de representar a realidade, para expandi-la, transfigurá-la e transgredi-la.



Garimpo

Encontrar
a verdadeira ordem
- o espírito dissonante
que o silêncio
impõe
à escrita –
é condição necessária
para o que na fala
resvala
como se na pedra
pepita.


Conversar é sempre bom, pois nos possibilita um melhor entendimento de seu labor. Agradeço ao poeta, por sua atenção e gentileza.

Iracy - Sempre acreditei que a estrutura da linguagem condiciona tanto o sujeito que percebe quanto aquilo que ele percebe, porém ele, longe de ser unificado e objetivado, é um sujeito dividido e determinado pela linguagem. Essa divisão repercute no percebido, que não é unívoco, na medida em que está estruturado por significantes que organizam a experiência de sua escrita. Mas o sujeito do discurso, que surge no poema, certamente, considera que não escrevemos para o outro, antes para nós mesmos. A grande questão é: o sujeito que escreve se inscreve no escrito?

NathanSim. Na medida em que o poema, desde o ímpeto (o assombro) que leva o poeta a criá-lo, até o seu acabamento estético, se posiciona como um meio de comunicação entre o criador e um leitor que inexiste, a priori, fora de sua própria ótica. Esse processo, ainda que pareça hermético, é cambiante, já que realiza, mesmo que de forma inconsciente, um afloramento de valores marcadamente pessoais. O sujeito que escreve se inscreve no escrito, não com quem pratica um ato confessional, mas como quem redescobre ou refaz seus múltiplos sentidos enquanto escreve.

Iracy – A leitura de poesias, ou de qualquer texto, tampouco depende de outra coisa a não ser, exclusivamente, da afetação do leitor. Pouco ou nada importa que o caminho escolhido para essa interlocução seja com o texto; ou seja, como um exercício em que se queira colocar em prática uma teoria exaustivamente estudada. Só a partir de uma ação é que se pode estabelecer uma relação dialética entre teoria e práxis, resultando em algumas ratificações, ou em algumas contestações, que poderão, inclusive, conduzir o leitor a rupturas. Lendo sua obra percebo que, de forma geral, há um tom que me parece crepuscular. Como você definiria sua poesia?

NathanA minha poesia nasce de uma inquietação e, sendo assim, é um veículo de comunicação que o meu consciente dispõe para fazer valer os efeitos deste ato. É crepuscular, sim, tendo em vista que eu insisto em buscar o máximo grau de expressão das palavras, como quem exuma vozes inauditas, mas não se pretende exercitar conscientemente uma ambivalência. Minha poesia é cartográfica; lapidada para sinalizar e não para embelezar. Escrevo porque sinto a necessidade de explorar os sentimentos, disfarçados no trivial, no dia a dia, e mimetizados no evidente. Esta tem sido a seara do meu discurso poético.

Iracy - O poema se desenvolve a partir de alguma decisão ou de um acaso inicial, mas o acabamento estético, o refinamento, esse passar a limpo até que o poema resplandeça. Isso é um jogo, que somente se encerra com a exaustão do poeta?

NathanSe encerra com a escolha acertada dos significantes para realizar a comunicação desejada. E esse processo ocorre, no meu caso, como uma prática de aproximação máxima entre o dizer e o falar. Portanto, a exaustão ocorre não como uma consequência da busca excessiva pelo embelezamento, pelo brilho ofuscante das palavras, mas pela luz no seu sentido de lucidez, de desnudamento de sentidos.

Iracy – Quais são os poetas que você lê e quais deles você aposta na tal imortalidade de sua obra?

NathanA minha formação ocorreu e ocorre, pela visitação constante dos clássicos da poesia ocidental, e nessa preparação, nomes como Rilke, Drummond, Pessoa, Octávio Paz, Gullar, João Cabral de Melo Neto e Mário Faustino, foram e são determinantes no meu fazer poético. Leio, também, os contemporâneos, tais como, Eucanaã Ferraz, Antonio Cícero e Salgado Maranhão. Não há como constituir um pensamento histórico-literário, em qualquer momento, sem levar em conta a obra desses poetas.

Assim, como também, o poeta Ferreira Gullar, que apresenta em seu legado poético um manifesto das incontáveis possibilidades da poesia como superação das formas e como uma quebra da ordem imposta ao comum da vida, eu ainda ressaltaria a obra de Salgado Maranhão, que rejeita a prontidão da expressão e recobra a expressividade remota das palavras em uma poesia originalíssima.

Iracy – Em relação à estrutura geral do poema - a escolha da forma, se será um poema longo ou curto; se será dividido em estrofes; se seus versos serão metrificados; se serão rimados ou brancos; se terá um formato tradicional, como um soneto, ou uma forma sui generis etc. Poeta, essas escolhas limitam a liberdade vertiginosa de que ele dispunha antes de começar a escrever?

NathanA forma do poema se dá na medida em que ele ganha expressividade. Eu descarto a estética usada apenas como instrumento visual ou um utensílio sonoro. O neoconcretismo, inaugurado por poetas como Ferreira Gullar, nos ensinou sobre essa seara. Poesia é essência comunicada, deflorada. Escolher a forma antes de escrever o poema é talhar a peça sem visualizar a imagem.



Encerramos aqui nossa conversa com o poeta Nathan Sousa, mas não meu desejo de continuar tentando entender os mistérios da Poesia.

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