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A idade da libertação




Duas mulheres de quase noventa anos papeando, e eu ali, atenta, entre uma levada e outra da xícara aos lábios. Com metade da idade, ouço, ávida, cada palavra, cada frase, e me divido entre risadas e a consternação com os dramas experimentados. Afirmar que toda pessoa quando envelhece se torna sábia é ignorância. Seres humanos envelhecem com o que têm; no máximo, pode-se dizer que acumulam o suficiente para contar muita história. Mas a sabedoria fica por conta de quem viveu e aprendeu com o que viveu. Não é o caso de todos. Afinal, canalhas, hipócritas, gente mau caráter também envelhece, não se modifica um milímetro nem com as piores quedas e, infelizmente, transmite suas ‘maucaratices’ aos mais novos.

Minhas amigas (sim! tenho amigas de mais de oitenta!) falavam livremente sobre suas vidas e do que conquistaram depois do que chamamos maturidade. Como são desprendidas essas mulheres que se deixam depurar com o que a existência oferece! Chegam à fase em que se espera a decrepitude e, no entanto, mostram-se ao mundo como se debutassem. Têm o olhar firme, curioso, perscrutador, esperançoso. Na expressão, a altivez de quem sugou tudo o que podia em anos de tentativas, acertos, quedas, desistências, recomeços, risos e choros; descartou o que não servia e ficou com a delícia.

- Comecei mesmo a viver depois dos quarenta, principalmente depois que fiquei viúva. Foi pura felicidade! Mergulhei na vida!

- E eu nunca imaginei que aos oitenta e tantos anos fosse ficar mal criada. Com meu marido.

Elas ainda esperam, almejam, buscam. Riem-se. Divertem-se com as conquistas e com as limitações da idade.

- Você dirige até hoje?

- Claro! Vou pra todo lado.

- Ah, sei... Isso até o Detran descobrir. Eu fiz um bem para a humanidade quando decidi parar de dirigir.

Quando tive câncer aprendi com meus médicos a planejar e viver um dia de cada vez. Projetos de longo prazo poderiam não me fazer bem. Era acordar de manhã, respirar fundo, perguntar “O que tenho pra hoje?” e cumprir, organizada e diligentemente. Numa crônica do início deste ano contei de minha visita a uma casa de idosos em que eles são estimulados a ter planos diários. Mesmo após os noventa anos são capazes de esperar algo de um futuro que, sabemos, pode não acontecer no dia seguinte. Essa rotina garante equilíbrio, alma lúcida e certa serenidade.

Minhas amigas seguem essa rota. Fico feliz por vê-las driblando com valentia os ventos fortes que empurram em alta velocidade para a depressão que apressa o fim. Feliz também por conseguir fazer delas referência, aprender com a coragem que ostentam, saltar o desalento e chegar lá, com a mesma saúde emocional. Estou no caminho.


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Imagens: http://www.corbisimages.com

Um comentário:

  1. Acredito mesmo ,que temos que viver um dia de cada vez, já faço isso há algum tempo, depois de passar por perdas de pessoas queridas(família).
    Não me interessa muito o amanhã, mas hj faço o meu melhor sempre,aquilo que posso alcançar...envelhecer com lucidez deve ser a grande vitória do ser humano!Saber discernir e nunca se sentir "velho"!
    http://www.elianedelacerda.com

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