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Canis rugaris





SUAVE MARI MAGNO
Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria

Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia

Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso

Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo

Ver padecer.”
(Machado de Assis)





Gozou e tirou de dentro rapidamente. Não era daqueles que ficavam enganchados depois de trepar. Lambeu vagarosamente a vulva quente de sua amante. De dentro dos carros parados no sinal de trânsito algumas pessoas apontavam, comentavam. Algumas riam. A maioria simplesmente ignorava a cena. Saciado, desceu do concreto quente da calçada da loja de materiais de construção e deitou-se encostado ao pneu de um dos carros estacionados junto ao meio-fio. Aquela sombra era conforto merecido num dia quente como aquele. Pousou a cabeça preguiçosamente sobre as patas dianteiras não sem antes lamber a ferida purulenta que trazia aberta no membro direito. Dormiu apreciando o cheiro de óleo.

Despertou com o tremor do veículo. O cano de descarga vomitou uma fumaça preta e o cheiro de gasolina deu o sinal. Pulou para fora da sombra que lhe abrigava o corpo raquítico de pêlos queimados e fedorentos. Voltou à calçada e caminhou pelo concreto como se tentasse decidir a direção que tomaria. A liberdade, em doses extremas, faz frequentes as escolhas e nos atribui exclusivamente à própria consciência seus resultados, suas culpas. Com os caninos não é diferente.

Decidiu então que tinha fome. Não era muita, mas o suficiente para caçar o que mastigar. Caminhou sem pressa. Contrariando o hábito mais comum de sua espécie, trazia a língua guardada dentro da boca fechada. Na frente do açougue que costumava rodear, passeou entre as poucas pernas que ocupavam o local. Nunca conseguia agrado dos clientes. O que não lhe impedia de rodear-lhes com o focinho atento. Talvez gostasse de ver o desconforto e as tantas caras de nojo que despertava. Quando a loja se viu vazia de consumidores, um dos açougueiros lançou um pequeno pedaço de músculo na sua direção. Freqüentador antigo do açougue, mais antigo e fiel que muitos dos clientes humanos, sua presença habitual era premiada com esporádicos pedaços de carne. Prendeu entre os dentes o naco vermelho e esponjoso que lhe foi oferecido, deitou-se na porta da loja e pôs sua aparência doentia a mastigar a comida.

***

A noite chegou tão quente como o dia que a precedera. Nos becos com cantos de parede cagados, alguns mendigos jantavam lixo e o chorume lhes escorria pelas barbas grossas e compridas. Alguns outros cães acompanhavam o cardápio. Uns pivetes cheiravam cola ou vasculhavam bolsas recém roubadas na esperança de achar algo que pudessem trocar por uma pedra que recheasse seus cachimbos de durepox.

No bar em frente, como nas bibliotecas, intelectuais impotentes e naturalistas de sedosos pelos nos sovacos gastavam seu suposto poder cognitivo para explicar coisas. Quaisquer coisas. O tesão estava no exercício, nunca no resultado. Bêbados do álcool e de seus egos, nunca viram as tripas da cidade. Nunca viram as entranhas do mundo. Nunca verão.

No canto do asfalto, a carcaça do cachorro fedia aberta no meio. A marca de pneu sobre o abdômen esmagado. Os pedaços do que lhe sobrou das vísceras, espalhados. O fluxo de carros não diminuiu por sua causa. Os transeuntes detiam-se por instantes. Ainda que interessados pelo aspecto estético da cena, não formavam opinião. Aquela criatura que viveu na mais utilitária filosofia. Que quando algo encontrava que não pudesse comer ou foder, mijava em cima. A criatura que conheceu as tripas da cidade, agora lhe exibia também as suas. Morreu sem dar sentido à vida que viveu sem objetivo. E a cidade seguia desinteressada do argumento.

*

Créditos da imagem:
cão de estrada, por André Ferreira

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