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Primeiros Socorros



Sudorese, dor aguda, taquicardia. Levou a mão ao peito, franziu o cenho, lacrimejou, apertou os lábios e desabou. Sua esposa sentiu apenas seu braço ser puxado para baixo. Olhou assustada e viu o corpo do seu marido estendido na calçada de pedrinhas portuguesas. Imediatamente gritou por socorro e se abaixou, em desespero absoluto, derramando muitas lágrimas sobre Jairo.

Tentando reanimá-lo, aplicou tapas em seu rosto, apertou seu peito e se esforçou numa improvisada respiração boca à boca. Há anos não mais se tocaram intimamente, apesar de caminhadas com as mãos dadas - gesto automático e público. O roçar dos velhos lábios despertara a centelha de uma paixão devidamente sepultada pela rotina da vida. Muitos curiosos se aproximaram para a contemplação deleitosa da desgraça alheia.

Quase meia hora após a queda desfalecida, a ambulância estacionou. Dois socorristas saltaram. Tomaram o pulso de Jairo e constaram que, mesmo com a demora do pronto-atendimento, a vítima do ataque súbito ainda vivia - não necessariamente nessa ordem. Retiraram a maca. Sob a supervisão atenta de Mirtes, sua mulher, realizaram os procedimentos de praxe para garantir a sobrevivência de Jairo.

Colocaram-no cuidadosamente no leito. Mesmo com o excesso de zelo, rasparam o cotovelo direito da vítima no asfalto, embora não houvesse uma testemunha ocular comprovada dentre à multidão - que também se acotovelava para observar o espetacular resgate mais de perto. O enfermeiro estendeu a mão para que Mirtes subisse pela traseira do veículo. Acomodaram Jairo, fecharam as portas, dispersaram os curiosos e deram a partida na ambulância. Ligaram a sirene e, desembestados, abriram caminho no mar vermelho de automóveis. Todos mergulharam num silêncio tumular até que o motorista interrompeu a ausência de palavras:

- Senhora! A senhora pode me explicar como faço pra chegar ao hospital mais próximo?

Incrédula, Mirtes apenas se virou para o motorista com os olhos praticamente esbugalhados, olhou para o médico ao seu lado, virou-se para o marido, readquiriu a posição original e nada disse. Notando que precisava insistir, o motorista repetiu a indagação:

- Senhora, por favor... Esta ambulância não é desta cidade. Na falta de carro equipado para primeiros-socorros, chamaram-nos da cidade vizinha. Por isso a demora. Não conheço nada aqui.

- Mas, meu senhor, como isso é possível? Estou quase desmaiando, apavorada, temendo pela vida do meu marido e o senhor me vem com um papo doido que está perdido? Desse jeito quem terá um infarto serei eu.

- Não, senhora! Não se assuste. Longe de mim, querer que a senhora passe mal. Só quero a informação necessária pra chegar ao hospital mais próximo.

- Meu deus do céu! Como o senhor pode dirigir uma ambulância se está perdido?

- Já disse, não conheço esta cidade.

- Ok. E GPS? O senhor já ouviu falar em GPS? Eu estou velha, não estou mais a par dessas tecnologias todas, mas não é possível que uma ambulância, guiada por um motorista perdido, não tem um GPS para orientar a rota para os hospitais.

- Pois é, minha senhora. A senhora tem razão, mas o orçamento está pequeno e já que confiam em mim, não precisavam comprar um aparelhinho desses. Eu já tenho um GPS na minha cabeça!

- Estou vendo! Só se for um GPS pancado das ideias, não é, meu senhor?

- Tá certo, tá certo... Mas e então? Estamos voando, a toda velocidade por hora, e a senhora ainda não desembuchou o itinerário. Faça a gentileza de trocar de lugar com o médico. Ele vai pra trás e a senhora passa aqui pra frente.

- O senhor é bem mal educado, heim!?

- Claro que não, minha senhora! Só precisamos acelerar esta joça e sabermos logo o caminho certo. Não queremos que seu marido morra, não é mesmo?!

- Cruzes! Vire essa boca pra lá! Credo!

- Fala, minha senhora! Fala logo!

- O senhor acabou de passar!

- Não acredito! Por que a senhora não me disse antes?

- Não será porque eu sou a esposa do paciente e não sua guia turística particular?! E agora? Assim meu marido vai morrer. Eu já estou quase morrendo de desespero.

- Minha senhora, isto aqui é uma ambulância. E para uma ambulância, não existe lei de trânsito. Não existe sinal vermelho muito menos mão certa ou errada. Vamos embora!

Quase dando um cavalo de pau, a ambulância virou, em plena avenida, ficando na contramão e queimando os pneus. Arrancou, encarando os demais veículos de frente. Os outros motoristas, em agonia profunda com tal direção enlouquecida, engataram marcha ré e se esquivaram, abrindo passagem e jogando seus carros para trás e para as laterais e acostamentos da pista. Mesmo assim, a ambulância quase se envolveu em diversas colisões frontais, embora não tenha sofrido nenhum arranhão sequer na lataria. Mirtes, beirando o estado de choque, emudeceu. O motorista, em êxtase pelas manobras radicais, conteve uma gargalhada macabra. Quando Mirtes recobrou os sentidos, já haviam novamente passado do hospital.

- Desculpe, mas o senhor passou novamente.

- Por que a senhora não me avisou? A senhora não quer salvar seu marido?

- O senhor é louco! Só pode... Louco!

- Me explique direito então! O que tenho que fazer?

- Volte! Agora na mão certa. É ali, olha lá! Na esquina. Logo depois desta quadra.

- Ok!

- E o trânsito?! Está tudo engarrafado!

- Minha senhora... Já não falei que para uma ambulância não existe lei?

- Não. O senhor disse que não há lei, mas lei de trânsito.

- Se eu não matar ninguém, é tudo válido!

O motorista avançou a ambulância com tudo por cima da calçada. Os pedestres gritaram de medo, pularam, jogaram-se ao chão para que se livrassem daquele carro imenso que cada vez subia mais na calçada. Em meio à correria, um cidadão, cujos nervos não eram tão de aço assim, paralisou-se na frente do veículo. O motorista, com o pé no freio, tremia a ambulância, forçando o motor para frente e para trás. A sirene a todo vapor, berrando. O cidadão paralisado na frente, estatelado, com os olhos arregalados e suando frio. Nesse instante, Jairo suspirou fundo, abriu os olhos, levantou-se. Ninguém vira tal fenômeno ocorrer.

Quando todos tomaram consciência, Jairo já estava de pé na calçada, abraçado ao homem, acalmando-o e o tirando da frente da ambulância. Mirtes colocou a mão na boca, balbuciou algo inaudível para o motorista e, esboçando um sorriso de contentamento, desceu da ambulância e correu para abraçar Jairo. Sem nada entender, ele retribuiu o carinho da mulher. Quando Mirtes resolveu beijá-lo, aí que Jairo entendeu menos ainda. Há anos que o casal não trocava maiores intimidades. Eles se deram as mãos e, calmamente, seguiram pela calçada.

O motorista enxugou uma lágrima que repousava em sua maçã do rosto. Para que não voltassem de mãos abanando e aproveitando a proximidade do hospital, pegaram o sujeito que continuava paralisado. Colocaram-no sentado, recebendo soro, e o deixaram na emergência do hospital. Finalmente, tudo voltou à mais absoluta normalidade naquela pacata cidade.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Créditos da imagem: olhares.com
Ambulância, por Bruno Maia

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