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“O mapa da tribo” de Salgado Maranhão




(...) mas foi melhor do que não ter sonhado.
Salgado Maranhão

Com um livro intitulado Punhos da Serpente, o poeta Salgado Maranhão marca o início de sua trajetória poética em 1978. Em 2013, a obra, O mapa da tribo, vem ratificar que a poética salgadiana movimenta o dizer como uma saga poética e sinalizam o estilo e a singularidade, para além do saber fazer, da habilidade.

Foi preciso ler a obra do poeta Salgado Maranhão, em toda a sua extensão, para descobrir que ela se estrutura em um misto de espiritual e telúrico não limitando a representação e, ainda renova os conceitos e violenta o conformismo, há um cerzimento na poética salgadiana, não de vida e obra, mas sim, de fingimento e testemunho.

As metáforas e metonímias formam um tecido resplandecente construindo enigmas e apontando os caminhos percorridos pela poesia contemporânea. Essas Metáforas surgem para evidenciar que a significação arranca o significante de suas conexões lexicais, promovendo estranhamentos, os significantes produzem o efeito da ebriedade e o sentido aponta para uma existência plural.

“O Mapa da tribo” se divide em cinco momentos, sinaliza um ponto de vista determinado e constitui um todo:"Nenarias e/ou fotogramas verbais” é a primeira delas, seguido de “Os outros eus”, em que compartilha “coração no lábio”. “O Mapa” se complementa com um momento intitulado: “Por aqui agora /e ou Litanias de laranjeiras” subdividido em “da origem” e “Dos Renas (seres)”.

Se a epigrafe do livro, seu “Haicai 2”, antecipa seu compromisso com os haveres humanos, o último poema, “Ofício”, traduz sua experiência como a expressão da autenticidade da vida, e marca que suas metáforas e suas metonímias são regidas pela obscuridade do contemporâneo: os laços desfeitos, as contradições, o esmagamento da verdade, e, principalmente, pelas fragmentações e pela dispersão.

"Nenarias e/ou fotogramas verbais" é construída como uma colocação em narrativa das operações simbólicas, o que o torna uma cena. A subjetividade não poderá ser superada, pois o sujeito do discurso é o regente dessa “ópera de nãos e nuncas”. Uma poética unificadora, em que a construção alegórica e a reflexão poética se desenvolvem para dar conta da precariedade do ser, diante do não ter.

No momento em que “Os outros eus” surgem; cuja função é a representação do que chamaremos de “fora do significado”, o vazio. A poesia salgadiana ganha supremacia porque o poeta por meio de um experimentalismo, pois não há pitoresco ornamental, nem realismo imitativo, nem consciência social e, sobretudo, a dimensão temática é menos importante do que a dimensão linguística, que parece criar outra realidade, porque a palavra ganha uma espécie de transcendência, como se valesse por si mesma. Isso significa dizer que sua poesia não apenas sugere o real de um modo nada realista, mas elabora expressões verbais autônomas. Em sua poesia, a palavra é criadora por si mesma e transcende a matéria e, por isso, transforma o particular num universo sem limites, que exprime o humano.

Seguir a trilha indicada em “O mapa da tribo”, do poeta Salgado Maranhão, é ter a certeza de que chegaremos a “um oceano insondável”, pois a obra movimenta nossos próprios afetos e incentiva nosso labor. Cabe agora desejar mil anos-luz à poesia salgadiana e a seu poeta.

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Lançamento no dia 28/07, no Hotel Goldem Tupil (Av Atlântica, 3716 - Rio de Janeiro) com sarau Litera-Musical com participações de Ivan Lins, Paulinho da Viola, Fátima Guedes entre outros! detalhes no link

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