Novidades

A arte permanente de existir



Pra quem acha que idade é coisa 'old fashioned', minhas sinceras desculpas. Não sei o que lhe disseram lá, quando inaugurava as suas calças curtas, mas o caso é que tempo e idade podem não ser assim tão inimigos para quem pode gozar de saúde e bom humor para se divertir com eles.

Bom, vamos começar dizendo que saúde é bom com 8, 18 ou 98 anos, então nem entrarei no âmbito do "velhice sem saúde é uma droga". Óbvio. Ninguém em sã consciência acha que sofrer por alguma enfermidade seja bom, embora nem sempre seja o fim do mundo. Mas isso é outra história.

O que importa e o que quero compartilhar é minha perplexidade ante essa estranha mania universal de achar que cada dia é um dia a menos na existência de qualquer ser, e que corpo bom e são é um corpo jovem, e que tudo se resume à pele repuxada (natural ou artificialmente), e que basta uma estampa jovial para ser e ter tudo de bom.

Num mundo onde a regra é a impermanência e onde estamos cercados de pessoas não no fim, nem no início, mas no meio de uma existência incerta, cheira à pretensão esse desprezo por tudo que é velho, antigo. O mesmo com relação à quem envelhece.

Ou muito me engano, ou todos, absolutamente todos os que estão respirando sobre a terra têm prazo certo para estar aqui, e todos, absolutamente todos, estão passando e envelhecendo. E apegar-se à ideia de que a juventude guarda todas as possibilidades de felicidade é dar um tiro no próprio pé, principalmente quando essa crença idiota pode minar a própria auto-estima quando se estiver lá, de cara com o tempo e seu relógio inexorável a dizer que até mesmo você passou e agora é hora de reinventar a brincadeira e a própria forma de pensar.

Meu pai sempre diz, parafraseando Paulo Mendes Campos, que a ‘juventude é a velhice do mundo indefinidamente passada a limpo’. Ao olhar para minha sobrinha de 13 anos me vejo também com 13 a dizer e pensar as mesmas coisas, sob uma roupagem um pouco diferente na forma, mas todo o mais é exatamente igual.

Quando pensava, por exemplo, que com 28 anos estaria no ano 2000, ficava horrorizada ao me imaginar “velha e decrépita” prestes a inaugurar o novo milênio. Pra mim, definitivamente, seria o fim do mundo. Eu tinha 17. Mas vamos mais longe: com 13, olhava para as amiguinhas de 17 e as achava velhas e idiotas tentando misturar-se a nós, ninfetinhas pré-adolescentes. Com 4, achava que os 10 seriam a minha liberdade. Você se enxerga nisso? Pois é. Tudo igual.

Mas graças ao bom tempo, hoje me vejo com 41 e nem o mundo acabou para mim, nem me vejo decrépita, muito menos idiota ou pouco liberta, e sinceramente?, nem velha.

Ao contrário, hoje me vejo mais segura, mais auto-pensada, sem aquela estranha sensação de ‘ridículo’ de quem apenas estréia a vida com o olhar curto e os passos incertos.

Hoje meu olhar vagueia e meu horizonte é mais largo do que uma vez foi, e bem mais amplo. Hoje posso olhar para mim e gostar de cada fio branco, porque todos eles têm uma história, assim como cada ruga que venho acumulando, pouco a pouco, e que cada manhã me dá ‘bom-dia’ antes mesmo do café. Hoje percebo como até mesmo nossas crenças podem ser nossas inimigas, e tudo, no fim, depõe e batalha contra nós.

Estou menos diplomática, mais franca, mais talhada pelas circunstâncias, e nem tudo me apavora. Hoje sou mais tentada a achar que o melhor livro é aquele de capa dura e que cheira a mofo, exatamente porque tem algo que o faz perene: uma memória longa.

E gostaria de deixar a vocês, que eventualmente visitam este espaço, a seguinte mensagem (e que vocês a possam levar longe, na vida e na distäncia dos ecos internéticos que nossa web permite): sejam felizes, queridos, agora! E não temam o tempo. E jamais deixem que alguém, por vocês, diga-lhes, com qualquer audácia, de que matéria vocês são feitos e de quantas memórias se faz cada choro ou sorriso que brota em seu rosto porque ninguém, a não ser vocês mesmos, sabe por onde e como vocês chegaram até aqui.

* * *



Fonte da imagem: stylelikeu.com

Um comentário:

  1. mario tadeu saroka6 de agosto de 2014 20:13

    que bela crônica,Mariana Collares,muito bem,gostei demais,não só da escrita,que está impecável,quanto das ideias,muito ponderadas e maduras.Beijo para ti.

    ResponderExcluir