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Harlem Blues




Andar na rua 125 me entristece hoje em dia. Entristece e irrita. Caralho. Loja de departamento, especulação imobiliária, dinheiro branco entrando. Eu paro de frente pro velho Teatro Apollo. Não chego a chorar. Mas também não venço o nó na garganta. Meu pai trabalhava no Apollo. Era faxineiro. Hoje, esse letreiro amarelo e vermelho é a única coisa que me lembra o velho Harlem. James Brown e B.B. King já tocaram aí. Mais uma porrada de gente firmeza.

Quando eu era garoto, os brancos endinheirados não vinham aqui. Tinham medo de não saírem vivos. Filhos da puta. Eu queria que o pesadelo deles fosse verdade. Descobriram que não era. Agora tão trazendo o progresso pra cá. O progresso. Entra o dinheiro, entram as lojas de desconto, os brancos, os ternos. Entram todos pela porta da frente. E arrastam pra fora os pretos, os pobres, as putas. Os drogados. Todos defenestrados pela porta dos fundos. A porra do progresso. O fedor do Harlem está mudando de suor pra lavanda. O Harlem está começando a feder a consultório de dentista. Sinto falta do cheiro de gasolina. De pólvora.

Entro na Malcolm X Boulevard. Tento não imaginar o que esses grandes pretos do passado pensariam se vissem no que o Harlem está se transformando. Meu pai me contava que o Harlem já foi um bairro da elite, há muitos anos. Antes das migrações negras, ele dizia. Tem gente que diz que o bairro está voltando às suas origens. Eu não acredito nisso. Não posso. A fidelidade aos meus anos de garoto me impede. Muita gente brigou pela dignidade desse lugar. Ali, Malcolm X, Luther King. Não, o Harlem é dos pobres. Dos pretos. Dos cucarachas. Foi assim que eu conheci o Harlem. Foi assim que aprendi a amá-lo. E é assim que deve permanecer.

“Ta na hora, negão.” Era o Harry, que me esperava na varanda da casa, já perto da 135th. Fiz que sim com a cabeça. Um Ford antigo parou perto da gente. Jim no volante. Entramos no carro. Eu na frente, Harry atrás. Tirei a Desert Eagle do cinto e deixei no meu colo. Passei a maior parte do caminho alisando o gatilho da pistola. O Jim olhava pra mim e ria.

“Que cara de babaca você faz quando começa a masturbar essa arma.”

“Vai se foder.”

Passamos pelo Schomburg Center. Passamos pelo Harlem YMCA, “Malcolm X já se hospedou ali, cara.” Entramos na Frederick Douglas Blvd e o Jim procurou um canto pra estacionar o carro.

A boate tava meio vazia. Lucille fazia o número dela no poste de ferro. Eu trazia a arma na mão. Kate nos guiava até um quartinho nos fundos da boate. Falava rápido, explicava várias coisas sobre como o cara fora parar ali, e como ela descobriu quem ele era. Quando chegamos na porta, ela enfiou a chave na fechadura, bateu de leve na madeira e entrou. Pediu pra menina que atendia o cara sair. Nós entramos.

Minha pistola o tempo todo na reta da sua testa. Ele ficou amarelo de medo. As pernas tremiam escandalosamente. Jim acertou-lhe uma coronhada que botou o coroa desacordado. Amarramos os braços e as pernas. Amordaçamos sua boca. Kate chamou um dos seguranças pra nos ajudar a carregar o cara até o carro. Trancamos o figura no porta-malas e caímos fora.

***

Quando cheguei em casa, minha mãe estava chorando, sentada no sofá com as mãos cobrindo o rosto negro e enrugado. Soluçava. Dizia que tinham pego meu irmão. “Quem, mãe?”

“A polícia. O Mark apareceu aqui, desesperado, dizendo que pegaram seu irmão.”

“Onde?”

Ela explodiu em lágrimas de novo. Os soluços pioraram. Pareciam espasmos.

“Ele estava lá de novo, meu filho. Naquele lugar horrível.”

“Puta merda...”

“Não fala assim. Ele estava lá. A polícia chegou batendo em todo mundo e saiu carregando o Antony. Ninguém mais sabe dele. Não apareceu mais.”

Eu fechei os olhos com força. Engoli o choro e a vontade de quebrar a mesa à minha frente. “A senhora fica em casa, mãe. Eu vou resolver isso.”

Saí de casa pisando firme. O sangue ardia nas veias de tanto ódio. Rangia os dentes, respirava fundo. Minutos andando. Pareceram horas. Semanas. Engolindo em seco por todo o caminho. Calei a sequência de palavrões que tive vontade de gritar.

***

Quanto mais fundo eu descia a escada, mais úmido ficava o ar. Vários fedores condensados. Suor, sexo, vômito. Mijo. Fumaça. Cada vez mais escuro. Ralei o braço me apoiando na parede de reboco aparente.

A escada acabava num salão abandonado. Alguns sofás velhos, rasgados, cheios de traças, estavam espalhados por todo lado. Os tapetes não estavam em melhor estado. Pretos e latinos magros e doentes, ocupavam o lugar. Um porto-riquenho especialmente franzino trepava com uma negra de pele cinza em um dos tapetes. Mark estava deitado em um sofá de olhos fechados. A seringa ainda estava pendurada em seu braço.

“Acorda, filho da puta.” Dizia dando-lhe tapas no rosto. Ele abriu os olhos com dificuldade. “Cadê meu irmão?” Ele piscou lentamente e fechou os olhos de novo. Outro tapa. “Cadê meu irmão, porra?!”

Ele murmurou um “Não sei” sem nem abrir os olhos. Puxei a pistola, encostei-lhe no joelho. “Fala comigo, cretino.” Ele não esboçou reação. Puxei o gatilho. O estrondo do tiro e o grito de dor do desgraçado assustaram os outros fodidos do salão. Encostei o cano da pistola na sua testa.

“Só vou perguntar mais uma vez. Cadê o meu irmão?”

“Não sei, caralho! Os canas bateram aqui e pegaram ele com umas pedras. Encheram o coitado de porrada na frente de todo mundo. Ele desmaiou e os caras desesperaram, jogaram ele dentro do camburão e se mandaram. Não sei dele desde ontem!”

“Quem eram os canas?”

“Não conheço. Caras novas. Aqueles que tão chegando na área por causa dos brancos que tão se mudando pra cá. Dizem que tem uns comerciantes que pagam por fora pra eles darem essas batidas e limparem a sujeira do bairro.”

***

Na metade do caminho para a delegacia, os sacos de lixo espalhados pelo chão de um dos becos se mexeram. Tinha alguém deitado encostado à parede. Parecia um mendigo dormindo, mas a posição não me parecia nada confortável. O corpo estava torto, parecia abandonado. Entrei no beco. O rosto do sujeito estava virado para a parede. Cheguei perto e cutuquei. Não tive certeza se ele estava respirando. Às vezes parecia que sim, às vezes que não. Virei o corpo pra mim e meu estômago gelou. Era o Antony. Todo fodido. O rosto moído de porrada. E respirava.

***

Toquei a campainha. A Senhora Johnson atendeu a porta. “Posso falar com o Harry?”

“Entre, meu filho. Ele está lá embaixo, no porão, com o Jim e o moço que vocês pegaram.”

Já desci com a arma apontada pro cara. Ele estava amarrado numa cadeira, pelado, com um corte no supercílio.

"Vou perguntar uma vez só. É verdade que vocês pagam por fora os policiais novos no bairro pra dar batida em antro de drogado?” Ele fez que sim com a cabeça. “Jim, com o nosso cara de dentro, dá pra descobrir o nome dos canas da batida de ontem?”

“Dá sim, fácil.”

O telefone tocou. Harry foi atender. Olhei nos olhos do comerciante. Acho que ele sabia o que ia acontecer. Começou a chorar. O Harry voltou com o semblante sério.

“Era sua mãe. O Antony morreu, cara.”

Baixei a cabeça por uns instantes. Jim se virou pro branquelo.

“Você acabou de se foder, cara.”

Puxei o gatilho. Senhora Johnson, lá em cima, na cozinha, deixou a panela cair com o susto.


*

Créditos da imagem:
Hustlers Problems, por Serge Gay Jr

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