Novidades

Atrás do Último Corredor



Davi sempre se sentiu animado em supermercados. Provável que fosse a única das crianças realmente empolgada para fazer compras. Eu pensava: e como culpá-lo? Imagine uma criança que entra em um lugar onde as prateleiras são cheinhas de coisas, todas as coisas, as mais variadas coisas, e vê os adultos pegando-as e jogando-as no carrinho. E, de repente, aquela coisa passava a ser seu. Seu. Assim. Simplesmente. Tão fácil. Qualquer coisa que se queria, no alcance da mão.

Quem fazia as compras era eu, para ajudar a minha filha, mãe solteira. E que melhor ocupação para um velho senhor como eu do que levar meu neto ao supermercado? Eu adorava.

Confesso que logo nas primeiras idas, reparei que o Davi ainda não havia se dado conta que eu pagava tudo no caixa. Depois de algumas vezes, por fim, dono de mim mesmo, coloquei na cabeça que iria contar para o Davi como funcionava realmente um supermercado. Já estava na hora. Já havia passado da hora. Ele precisava saber como o mundo funciona, quais os critérios de um supermercado e da vida. Ah... mas era tão delicioso esta perspectiva dele. O supermercado como uma fábrica dos sonhos, que te dava o que você queria. Sem critérios. Pegue e é teu. Talvez tenha retardado tanto pois me sentia matando um Papai Noel do meu neto em detrimento do mundo capitalista.

Mas aquele seria a vez que contaria. Estava decidido. Quando fui pegá-lo na casa da minha filha, ela me contou que havia tido uma conversa muito feia na noite anterior com o pai dele. Penso que ele ouviu a conversa escondido, pois me cumprimentou abatido. Sempre quando finalmente tomamos as decisões é que tudo resolve desandar. Sempre difícil é a vida dos adultos.

Ao descobrir que íamos ao supermercado, o Davi se animou. Aliás, até demais. Pulava no carro mal controlado a ansiedade. Não entendi e me senti ainda pior com a conversa que planejava ter lá.

Ele entrou no supermercado e logo começou a zanzar pelos corredores afobado, procurando sabe-se lá o que. Não consegui correr bem atrás dele e vi vários olhares de reprovação dos outros clientes.

Quando finalmente o seguro, mais por um emaranhamento de carrinhos que bloqueava o caminho do que pela minha agilidade, lhe pergunto o que tanto procura. Ele, entusiasmado, disse: “Quero que chegue logo o corredor da felicidade!”. Olhei para o Davi confuso. O quê? “O corredor da felicidade, vô! Aonde é? Eu quero pegar felicidade pra mamãe! Eu ouvi ela falar pra tia Sandra que ela não tá feliz desde que o papai foi embora... e aqui a gente pode pegar tudo o que quisermos, não é? Tudo mesmo? Cadê o corredor da felicidade?” Davi tinha um lindo sorriso e brilho nos olhos. Senti muito, muito orgulho do meu neto em procurar um corredor com várias felicidades nas prateleiras para levar para sua mãe que estava triste.

“Não é isso tudo que ele quis dizer!” disse um intrometido menino mais velho que estava ao lado no supermercado. “Você é bebê? Não pode comprar essas coisas aqui! Não tem um corredor que você pega felicidade e joga no carrinho!”

“Não tem?” se virou Davi para mim, com olhos incrivelmente desiludidos. Se a mãe deste fedelho intrujão soubesse o que eu pensei naquela hora seria processado por justa causa. Como se atreve? E eu, achando linda toda a inocência e imaginação do meu neto. E não, eu não tive culpa alguma de não o ter contado mais cedo, apesar de sua idade já não ser mais tão tenra. Nunca parei para pensar que ele já poderia sofrer bullying. Mas antes que o leitor me julgue como um mau avô, peço um pouco de paciência para continuar a história, ela tem significado.

Sorri e disse: “Claro que tem!” Me aproximei e fala bem baixo, como que conta um grande segredo. “Mas essas coisas estão muito bem guardadas aqui, Davi... sabe aonde? Atrás do último corredor.” Continuei. Seguro de não quebrar o mundo mágico dele.

Davi olha rapidamente para o final do corredor, entusiasmado. Coloquei ele dentro do carrinho, até para isto ele já estava um pouco grande, e fui me aproximando da parede logo após o último corredor. Fiz um sinal de silêncio para ele, que visivelmente mal continha o seu entusiasmo. Avancei o carrinho em direção a parede. Davi fica repentinamente assustado achando que vão bater na parede!

Mas não! De repente, a parede se torna um portal brilhante e os leva para um supermercado mágico. Um mundo mágico que têm atrás do último corredor. Continuei empurrando o carrinho normalmente, como se sempre soubesse desse mundo mágico. Davi olha de volta para o suposto portal que entrou e não vê nada além de uma parede. O portal já tinha fechado.

Davi olha em volta confuso e assustado. O supermercado mágico era encantador. Havia ilustrações dos cosmos e das estrelas no teto, bem como da natureza e antigas civilizações nas paredes. Nas prateleiras via-se várias palavras brilhantes como “Alegria” e “Amor”, brilhando em neon nas várias prateleiras, que eram suspensas por um feixe de luz.

“Espera, o que é isso vô? Que lugar é esse? Como nós viemos parar aqui?” Sorri confiante, “Isso, meu caro Davi, é a prova de que você sempre deve acreditar no seu avô! Esse é o supermercado mágico atrás do último corredor!”

Sim, eu criei um mundo mágico. Meu neto queria uma prateleira com Alegria, Amor e Felicidade? Sim, é isto que eu darei. Ou melhor, é isso que eu o ensinarei. Porque é muito fácil criar um universo paralelo atrás de uma parede. Difícil é ensiná-lo que, mesmo neste novo mundo, as coisas são mais complicadas do que pegar uma Felicidade e jogar no carrinho.

Ele sai do carrinho e, levemente contrariado, começa a andar, observando este novo mundo.

Tentei criar o mais colorido e divertido possível. Mas tive pouco tempo desde a fala do menino intrujão, para pensar nos detalhes. O chão é de grama e quem arruma as coisas nas prateleiras não são os ajudantes, como no supermercado normal. São animaizinhos! Sim, bem Disney né? Repito, não me condene leitor, tive poucos corredores para criar um mundo. Esquilos e passarinhos e gatos! Pronto. É isto. Parecia bom quando vi a parede, agora achava levemente cafona quando vi um grupo de esquilos, cada um carregando a palavra Saúde nas costas. A palavra saúde era verde e brilhava, e não parecia nada pesada. Os passarinhos voavam carregando a palavra Amor, vermelha brilhante até colocar numa prateleira do corredor mais adiante, cheia de outras palavras Amor.

Davi entra em um corredor com várias fórmulas matemáticas pairando no ar, instrumentos de profissões, livros e símbolos de religiões. Sim, aquele era o corredor do conhecimento! Todos os livros, religiões e fórmulas. Lindo! Até eu estava entusiasmado. Imagine? Pegar a palavra matemática, jogá-la no carrinho e, de repente, você sabe tudo sobre ela? Mas meu neto não deu muito valor, ele tinha uma missão: o corredor da Felicidade. Davi passou a correr por entre os corredores com mais palavras mágicas brilhantes em suas estantes, como “Sucesso” e “Saúde”, até finamente se deparar com várias palavras “Felicidade” em uma prateleira ao fundo. “Achei vô! Achei a Felicidade!” disse ele, correndo de encontro ao corredor.

Davi corre e tenta tirar a palavra “Felicidade” da prateleira. A palavra não sai, como se estivesse grudada. Davi fica nervoso e continua tentando tirar a palavra mágica, em vão. Me aproximei e coloquei a mão em seu ombro. Não é justo eu criar um mundo fantástico tão diferente do mundo real. Não é justo com ele.

E foi assim que começou. Assim, incerto e titubeante, que comecei a entender o que era aquele mundo mágico que eu criei. Porque, na verdade, esse mundo era bem mais do que mágico! Ele era também real. Ele tinha que ser também real. Ele veio ajudar o Davi não ser exílio dele.

E por isto, para me ajudar a entender este mundo, naquele instante, várias pessoas apareceram no supermercado. Do nada! Pessoas! Sim, várias pessoas andavam pelo supermercado normalmente, como clientes habitués. Isto eu não tinha pensado. Não conscientemente, pelo menos. Este é o grande problema ao se criar um universo paralelo: às vezes, o seu inconsciente se infiltra sorrateiramente.

Mas este intrujão eu deixo. Ainda mais porque ele me mostrou algo muito bonito: cada adulto do meu supermercado mágico era acompanhado de uma criança idêntica à ele, vestida até com as mesmas roupas. Ou seja, cada adulto se encontrava com ele mesmo quando era criança!

Por exemplo, tinha um Homem mais adiante no corredor. Ele também estava acompanhado de sua respectiva criança e pegava a palavra “Sucesso” e mostrava para a sua criança orgulhoso.

“Mas vô, por que ele consegue pegar e eu não?”. “Continue olhando, meu caro”, respondi. E confiei que a criação do meu inconsciente me respondesse. O Homem coloca a palavra no carrinho e se dirige ao caixa. Davi, curioso, o acompanha. O Homem entrega a palavra “Sucesso” para a Atendente.

“3 esforço, 4 trabalho, uma dose de gratidão e paixão pelo seu trabalho, por favor...” diz a Atendente, normalmente.Davi olha para a cena curioso. Homem e sua criança tiram de uma caixa todas as palavras que lhe foram pedidas, todas são brilhantes e pequenas. Eles sorriem um para o outro, orgulhosos de si.

“Gostaria de levar a “Prosperidade” pra aumentar o prazo de validade do seu sucesso, senhor? Somente mais uma dose de perseverança.” Homem e sua criança, mais uma vez, tiram orgulhosamente de uma caixa a palavra perseverança. A Atendente entrega a palavra “Sucesso”. Homem e sua criança se cumprimentam com um aperto de mão. Davi olha tudo atônito. Grande insconsciente! Você realmente tem as melhores criações!

E assim se deu. A cada nova pessoa que surgia nos ensinava algo. A próxima foi uma Mulher que, fumando, pega a palavra “Saúde”, verde e brilhante, na prateleira mágica e joga para dentro do carrinho. A Mulher, porém, não prestava atenção nenhuma na sua respectiva criança, que vinha atrás dela, esquecida e com aspecto doente. A Mulher se dirige para o caixa e entrega a palavra “Saúde” fumando, enquanto sua criança se apoia no caixa tristonha.

“Duas doses de alimentação saudável, exercícios físicos e um comprovante atestando fim do hábito de fumar” A Mulher, irritada, responde rudemente: “Eu não tenho tudo ainda, mas eu vou levar e pago depois...”. “Desculpe senhora, não vendemos fiado” responde a Atendente. “Já diminui para uma caixa por dia, parcele o resto” diz em tom rude. “Desculpe senhora, não parcelamos. Mas por uma caixa a menos você pode levar essa “Saúde”.A Atendente mostra uma palavra “Saúde” idêntica a que a Mulher queria levar, também verde e brilhante, porém menor. Mulher passa as mãos no cabelo irritada. “ Acho isso um absurdo! Eu tenho dinheiro! Muito dinheiro!” A Atendente a olha confusa. “Mas senhora, dinheiro não compra essas coisas. Dinheiro não compra nada aqui.”

Sim. Neste supermercado encontraremos tudo que é mais importante na vida. Só as coisas importantes mesmo. E nada aqui é pago com dinheiro, tudo aqui se paga com o que nós somos. Com o que nós criamos.

“É por isso que o Homem conseguiu comprar sucesso, vô?” “Isso mesmo Davi, aqui o preço das coisas são diferentes. Você viu qual era o pagamento do sucesso? Perseverança, esforço e paixão pelo que faz. É assim que compramos as coisas aqui. É assim que compramos as coisas mais importantes.

Que delicioso mundo este que criei. No supermercado mágico conseguimos comprar coisas melhores e mais importantes, mas a moeda lá é com o que nós somos... quem diria. Um lugar pra se pagar com o que nós somos... e sair do costume de somente dar o dinheiro, abrir, consumir, jogar fora... As coisas mais importantes da vida não podem ser assim. As coisas mais importantes da vida saem do costume de que o dinheiro é o cliente, o comprador e até mesmo o produto.

E foi assim. A cada nova ida ao supermercado, Davi anotava atentamente o valor das coisas. Aprende o valor das coisas. Até que, finalmente, chega um Rapaz com sua criança e a palavra Felicidade, brilhante em amarelo, no carrinho. Davi, entusiasmado, correm para anotar o valor da Felicidade. Era muito importante saber o valor da Felicidade. Seria a primeira coisa que compraria lá. Estava louco para dar para a mãe deles. Davi começa a anotar tudo que a Atendente fala como preço da Felicidade, entusiasmado.

“Qual o último vô?” Gratidão, respondi. E Davi voltou neste mesmo dia para casa para juntar o pagamento da Felicidade. Estava sua mãe na cozinha. “Mãe, você está melhor, não é? Eu ainda estou aqui! Eu estou aqui todos os dias!”, disse sorrindo. Mãe sorri como se à muito não tivesse uma boa surpresa. Ela lhe abraça carinhosamente. “Sim, meu amor, você é o melhor presente da minha vida! Agradeço todo o dia por ter você”.

Me emocionei. Davi já tinha conseguido acumular o valor para ter Felicidade. Grande garoto ele é. Grande homem será um dia.

Agora sejamos sinceros: eu sei que você está se perguntando o motivo pelo qual eu criei todo este mundo para ele. Acho que cansei de esperar. Esperar que a professora ensine, esperar que ele perceba, esperar que ele associe dinheiro com poder, esperar dias melhores, esperar que o amanhã não nos lembre do hoje. Tem muita esperança hoje em dia. Acho até engraçado quando ouço no rádio que as pessoas estão sem esperança. Tudo que elas fazem é esperar! O que mais tem no mundo hoje é esperança! ESPERAnça.

E pode até ser que deu mais trabalho criar um mundo novo do que explicar que tínhamos que pagar no caixa. E pode até ser que seja triste que nem em um mundo imaginário se possa simplesmente pegar uma Felicidade e colocar no carrinho. Mas, por mais incrível que pareça, para mim, este mundo continuava lindo na medida que era absolutamente com sentido. Era sim, mágico, mas era tudo de verdade também!

Eu sei que aqui é diferente. E eu sei que lá é imaginação. Mas não importa. Eu sei o tipo de pessoa que este supermercado cria como cliente. Cada pequena evolução lá é uma grande revolução aqui, tenha a certeza. E foi assim, lá, que o Davi descobriu e entendeu a vida como ela é. Hoje ele venceu aqui no mundo normal porque ele havia aprendido a ser herói lá. Foi lá que ele descobriu o valor das coisas para saber pagar por elas aqui. Aprendeu a ser autêntico e a ter as ferramentas para ter grandes ideias, inventos e inspirações. E isto, meu caro, nenhum supermercado vende. Nem o mágico atrás do último corredor. Infelizmente e, confesso, felizmente.

*

Créditos da imagem: corbisimages.com
Little Boy Riding in a Shopping Cart in a Grocery Store, por Randy Faris

Nenhum comentário