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Sentado na cadeira de plástico encarnado, o cotovelo apoiado no topo da resma de papel, três palmos de folhas brancas, o miúdo varre toda a sala com olhar soberbo e, de língua de fora, quente, lambe o canto da boca e deixa uma faixa sórdida e viscosa escorrer pela fronte e acumular no queixo; estende-se em pequenos aglomerados de pequeninas bolhas que estalam e quase se ouvem no silêncio de todos os que dormem, encolhidos no chão almofadado como uma ninhada de cachorros. Um apenas acordado, pernas cruzadas, joelho esfolado; à sua volta, dezenas de tombados aviões de papel; o pescoço esticado, o queixo desafiador mas o olho é submisso; todo ele está nas mãos que dançam no colo nervoso, agitadas sobre a folha de papel, uma dobra, duas, três, vinca, falta-lhe a unha, confere-lhe a geometria, corrige e ajusta, fecha um olho, o outro aberto, aponta o avião no seu enfiamento , pronto para descolar.

Lança-o e ele solta-se da mão roliça e das unhas negras e roídas, gracioso, branco e sibilante, as arestas agudas dilaceram o ar sereno e ferem-no com linhas frias que parecem assobiar.

- Porque choras?

- Os aviões. Cortam-me a pele. Magoas-me.

- Magoo-te? Cortam-te a pele? Não vejo nada.

- Olha como tenho a pele toda cortada.

- A tua pele parece-me lisa como sempre foi. Não vejo arranhões ou cortes. Deixa-me estar; não vês que me divirto?

- Mas magoas-me. A mim e a eles, não vês?

- O que faço é para o bem de todos. Olha como voam. Olha.

Voam numa revoada serena e imaculada, rectilíneos como agulhas quando abandonam as mãos encardidas do miúdo agitado na cadeira encarnada e depois sucumbem à imperfeição das dobras ou a uma inesperada corrente de ar e então tombam ligeiramente desenhando espirais descendentes.

- Porque fazes isso? Não vês que nos magoas?

- Faço isto porque estou sentado nesta cadeira e tenho o papel. Tenho a cadeira e o papel e tu não. Tivesses tu os dois e talvez fizesses o mesmo.

- Não quero a cadeira nem quero o papel. Quero dormir. Deixa-me dormir.

- Dormes no chão? Porque dormem todos no chão? Não queres esta cadeira?

- Não preciso da cadeira. Estou bem aqui, no chão. Estamos todos bem aqui, no chão. Deixa-nos dormir.

São muitos os aviões no ar, difícil de os contar tantos são, e cruzam-se uns com os outros; alguns chocam e despenham-se e entortam as suas pontas no chão almofadado; outros planam por cima da cabeça do miúdo sentado no chão como velhos abutres, tocam levemente suas asas como se se cumprimentassem e prosseguem os voos nas suas órbitas, esmorecendo. Ele olha as espirais desenharem-se no ar e encolhe o corpo franzino, diminui-se encavando o peito nos estreitos ombros e evita aqueles que consegue. Outros tocam-no, roçam-lhe as agudas arestas como frágeis cacos de vidro, e abrem-lhe a pele e arrastam um traço vermelho da espessura de um cabelo.

- Magoa. Vês que sangro?

- Não vejo mais ninguém a queixar-se.

- Olha como sangram. Olha como choram.

Correm as lágrimas e diluem o sangue que escorre pela pele lisa; vermelho e ágil, pinga do corpo delgado e atinge os aviões imprudentes em gotas que os empapam. Caem pesados junto do miúdo e dos outros que não acordam, desamparados e transparentes, pintados de uma nitidez carmim, moribunda, que infecta o ar e o tinge de morbidez.

- Dormem todos. És o único que não dorme. Porque não dormes?

- Eles não dormem e eu também não mas eu estou acordado e eles não. Olha o chão. Olha como está molhado.

Os que escapam ao morrinhar quente aterram suavemente e o som é ensopado quando tocam o chão; escurecem cinza ou se avermelham e perdem a forma estrita e as linhas rígidas e ficam moles, flácidos e desfigurados, e uma pasta branca e vermelha de papel lamacento cobre o chão e ganha altura.

Vão desaparecendo os pequeninos corpos debaixo da massa carmim que cresce irregular mas paulatinamente como as dunas de uma praia debaixo de chuva, apenas as extremidades de um ou outro miúdo espreitando: a ponta de um pé, um cotovelo, um joelho, e também ele se vai perdendo, o miúdo sentado, o olho submisso, enterrado até à cintura, até ao peito, ao pescoço esticado e ao queixo desafiador.

- Porque fazes isso? Não vês que nos magoas?

- O que faço é para o bem de todos. Olha como voam. Olha.

Apenas o miúdo sentado na cadeira vermelha surge acima da pasta carmim que cresce e tapou por completo os que não acordam mas até ele sente os tornozelos empapados, as canelas, os joelhos.

- O que faço é para o bem de todos. Olha como voam. Olha.

Tem frio. Sente o peito frio; a camisola avermelhar-se.

- Olha como voam. Olha.


Pedro Cardoso Pinto
Formação em Arquitectura
Primeiro lugar no Campeonato Nacional de Escrita Criativa (19º Edição)

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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
A caminho da Lua..., por Orlando Oliveira

Um comentário:

  1. José Morais Sarmento Moniz18 de setembro de 2014 12:34

    Gostei muito do conto do Pedro Cardoso Pinto, um jovem com muito talento.
    Fico à espera de outros...
    Grande abraço de Parabéns.
    jmsmoniz

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