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Duas luas e uma fogueira




Seus olhos não eram grandes, como poderíamos imaginar após esta descrição: tinham uma força improvável, extraordinária, apenas proposta para aquelas massas flutuantes pela galáxia. Quem ousasse traçar alguma rota perto demais, ou passasse distraído invariavelmente estaria preso à sua órbita. Não eram grandes, eram imensos! Os dois pontos fixos brilhavam em sua face, e pareciam sugar-lhe a energia de todo o resto. Era frágil. Os braços finíssimos, o corpo igualmente delgado, os seios mínimos suscitavam a impressão de compor somente um anexo do que existia acima, contudo, não menos belo. E como era belo!, feito cauda de cometa. Ainda sobre o rosto, um sorriso costumava brotar. De quando em quando surgia semelhante a uma ferida – uma metáfora que eu lera uma vez em algum livro e lhe cabia bem. Dava mesmo a sensação de ferir-lhe muitas vezes e habitualmente queimava quem ficasse em sua direção. Duas luas e uma fogueira. A pele transmitia um sabor de doce, uma cor de avelã. Mas não era o sol o seu pintor. Vinha talhada pela filogênese e toda a obra era uma conjugação molecular de seus ancestrais. Não sei se também fazia parte dessa composição ou era só mérito do que lhe envolvia externamente, ou, um pouco de ambos: ali, havia uma identidade marcante e vigorosa, apesar de sua visível fraqueza muscular. Ninguém se atrevia a insultá-la, pelo menos, não duas vezes. Realmente estabelecia uma dessas contradições da natureza. Certos momentos, sem culpa alguma, no entanto, talvez como punição por acompanhá-la, embora acredite que fora mesmo por uma sincera confiança, recebia o árduo trabalho de levar para casa seu silêncio perturbador e suas esferas pesadas, bem molhadas. Previsível o que acontecia depois: eu ficava lá, pelos cômodos, abstraído, tentando limpar os borrões que eu fazia tentando secá-las. De qualquer modo, independente das trapalhadas, acho que o exercia muito bem, já que no dia seguinte, quase sempre, me trazia de presente seu sorriso machucado. É provável que nada tivesse a ver com meus esforços solitários – ao menos, nenhuma corroboração científica a esse respeito –, porém, gosto de pensar que de alguma maneira tudo conspirava a favor quando emitia esses devaneios pelo ar. Foi o que me revelou crer numa tarde, ao conversarmos sobre os enigmas da vida. Afinal, era mesmo feita com um cadinho de universo: outro segredo. Nada mais sensato! O problema era como eu, alguém feito só de osso e carne – não possuía pretensões maiores –, conseguia firmar comunicação com ela, com a sua existência, através dos astros, ou dos deuses nessas frequências que desconhecia. Isso, me explicou sucintamente: fé. E, não entendi, tão rápido quanto; não naquele instante.


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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
elzatsai, por Festa Junina em SJC

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