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Poemas de Jad Vilela





Fuga


De vez em quando eu me escondo de mim,
atrás das árvores...
E fico escondido por alguns minutos,
até poder gritar um-dois-três e bater na lata.
E às vezes me escondo em mim,
atrás das mágoas...
Por trás das águas
que eu não conheci na infância.
E assim me reconheço na memória,
num tempo em que a história me poupava
e o destino ainda se mostrava manso.
De vez em quando eu corro atrás de mim,
mas não me alcanço.





Depois do sonho


Hoje eu acordei menino...
com jeito de quem dormiu em colchão de palhas,
ou abriu escondido a lata de açúcar...
Devo ter sonhado com a minha avó.
Lembrei-me, sem dó de mim,
dos cafundós da infância.
E só na ignorância da idade
eu poderia explicar, hoje não:
só sei que amanheci passarinho.
Imaginei minha avó falando:
cuidado com o bodoque, foge do gavião!...
Passei o dia voando.





Sentimento


Sentimento não se mede.
Não adiantam trenas,
nem réguas,
nem tréguas na sensatez.
Sentimento não se pede.
Nem se concede
em troca do que se fez.
Sentimento não se controla,
não se ofusca...
Mas se altera,
quando se viola;
quando o peito busca
algo mais concreto.
Mais direto,
sem curvas, obstáculos...
Mas os tentáculos
do amor são poderosos,
e seus vernáculos
não têm tradução.
Em seus versículos
há palavras dialetais.
Formam ventrículos
abissais no coração.





Excesso


Minha estrela às vezes desce,
e me encontra olhando o céu.
Me observa, enquanto eu a procuro.
Ela fulgente, eu obscuro,
eu inocente, ela fogosa.
De repente sua luz me ilumina,
mas discrimina o que seria escuro.
Me faz sentir espinho
diante da rosa.
Me faz menino, me ensina...
Me fascina,
e faz da sina um acaso.
Com os dedos eu provoco um atraso
no relógio do destino.
Mas a luz é ofuscante.
Cambaleante, eu me afasto.
Eu, casto, ela, ofegante.
E volto meu olhar para o céu.




Brincando com água

Depois das chuvas,
fui ao ribeirão
ver a cheia.
Ele se extravasava,
e sua água brincava
de correr pela várzea.
Assim achei-a,
sem que ela me visse, distraída.
E brinquei de peixe,
enquanto os peixes brincavam de gado,
transitando no capim todo alagado,
como se, sem o que fazer, passeassem à toa.
Eu não quis brincar de pescador,
pra não quebrar a confiança.
Preferi manter-me observador,
como quem voa...
E foi assim que percebi que, muito mansa,
mais do que bondosa anfitriã,
a várzea brincava de lagoa!


Jad Vilela
Jad de Almeida Vilela nasceu em Divinópolis, centro-oeste de Minas, em 13 de março de 1961. Filho de um casal de ex-atores de teatro – Jadir Vilela de Souza (também diretor e autor, e poeta sonetista) e Maria José de Almeida Souza – Dona didi, trovadora.

Começou a escrever trovas aos nove anos, para cartazes em datas comemorativas, na escola. Aos doze anos escrevia poemas, e foi premiado num concurso municipal entre escolas, representando seu colégio. Mas nunca mais participou de concursos literários. Aos treze, fez os primeiros sonetos, depois de pequenas aulas com sua mãe. Aos quatorze, fez sua primeira música, e aos vinte, os primeiros contos.

A partir da década de 90, foi repórter cinematográfico, e no jornalismo aprendeu muito. Aguçou seu senso crítico e a observação, trabalhando com alguns dos maiores nomes do telejornalismo brasileiro. Atualmente não exerce a profissão.

Tem hoje, a publicar, quatro livros de contos, um de crônicas, cinco de poemas e alguns infantis.


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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
Esconde-esconde, por Priscila Barcellos

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