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Un Racconto Di Mooca




Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.

(Eduardo Galeano)



Onze metros. Essa é a distância da marca fatal até a linha do gol. Era tudo em que conseguia pensar. Naquela fria noite de terça-feira, mais de três mil pessoas se apertavam nas arquibancadas do Parque São Jorge. A torcida grená correra a apertar-se detrás da baliza onde seria cobrado o pênalti. A umidade do Tietê esfriava todas as canelas no estádio. O lateral direito Nelsinho Batista fora atirado ao gramado por um zagueiro alagoano dentro da grande área. O árbitro soprara o apito e apontara o indicador para a marca de cal. Os visitantes ficaram malucos. Partiram para cima do juiz a disparar reclamações e ameaças. Um dirigente do CSA quis invadir o campo, o dedo em riste jurando perpetrar torturas medievais na carne do apitador e de toda a sua família. Nada adiantou. Derrotado pela impotência, Fernando Collor de Mello sentou-se no banco de reservas que lhe cabia e esperou, com o fervilhar de seu sangue a esquentar o corpo naquela noite de maio.

Eu não respirava. Meu pai levantou-me e sentou meu corpo pequeno em seus ombros. Consegui ver os olhos do médio-volante que preparava-se para o disparo derradeiro. Vinte e seis minutos haviam avançado no cronômetro. Segundo tempo da final da Taça de Prata. Terceiro jogo, o desempate. No placar, um zero a zero teimoso denunciava o festival de pontapés que impedira o futebol de entrar em campo até ali. Findos os protestos dos visitantes, o estádio calou. Paulo Martins, o nosso médio-volante, não ofegava, não desviava os olhos das negras pupilas do goleiro Adeíldo. Eu soube, naquele momento, que aquela bola morreria no filó. Abaixei-me e sussurrei a meu pai "Ele vai marcar, pai. Fique tranquilo.". Meu pai sorriu.

O goleiro do time das Alagoas escolheu um canto e caiu. Martins enfiou o pé no meio do gol. O baque seco da bola estufando a rede invadiu os ouvidos apreensivos ao longo da arquibancada. Nós pulamos, gritamos, xingamos, agradecemos. O gol nos arrancara um grito que se alojava em nossas gargantas há séculos.

Ninguém quis saber do resto do jogo. Nem a torcida, que ocupava-se em fazer festa, nem a nossa esquadra, que tocava a bola aguardando o apito final. Nem mesmo os adversários, que preferiram lidar com sua frustração arrebentando quantas canelas juventinas eles conseguissem no curto espaço de tempo de que dispunham.

Quando o jogo terminou, invadimos o campo tão rápido que os alagoanos se retiraram aos vestiários sem perder tempo com reclamações. Os nossos gladiadores foram rapidamente alçados aos ombros da massa branca e grená, que saiu a carregá-los junto com a comissão técnica e os dirigentes, em romaria de volta à rua Javari. Aquela noite foi curta para festejar o primeiro título nacional do Clube Atlético Juventus.

***

De volta ao bairro, já tarde da noite, meu pai perguntou-me se queria comer uma esfiha no seu Tamer. Respondi que preferia um sanduíche. Fomos então a uma lanchonete na rua Padre Raposo.

Quando sentamos, o velho falava sobre meu avô. Contava-me que seu Domenico era um agitador. Um anarquista que trabalhava em uma das inúmeras fábricas de tecido que havia no bairro nos anos trinta. Falava de protestos e comícios que vovô organizava na Praça Vermelha.

Papai explicava o ativismo colérico do velho Domenico a partir das circunstâncias da morte de don Franco, meu bisavô. Morrera no dia vinte e três de julho de mil novecentos e vinte e quatro, dia em que dois aviões das tropas legalistas bombardearam a Mooca, em represália à Revolução Paulista. Não aquela famosa de 1932, mas sua prima mais pobre de recordação.

Eu, que nunca tinha ouvido falar em revolução qualquer, e mal fazia ideia do que era um anarquista, ouvia mais encantado pelo brilho nos olhos de meu pai do que pelas estórias em si, ansioso para que ele contasse alguma que envolvesse o nosso querido Juventus.

"Já escolheram?"

Meu pai contava uma briga de que meu avô participara em um pequeno concerto dos Demônios da Garoa, no início dos anos quarenta, quando o conjunto ainda chamava-se Grupo do Luar. Alguma disputa dos anarquistas com os fascistas da época. Nada disso ainda fazia muito sentido para mim, e a voz de meu pai foi sumindo no meu inconsciente, gradativamente, à medida que eu levantava meus olhos para a garçonete. Ela sorriu e mudou a pergunta.

"Vocês foram no jogo?"

O sorriso, muito branco, irradiado de duas cadeias perfeitas de dentes, acentuava a pele de um negro claro. O nariz e o queixo afinados. Os cabelos negros desciam ondulados até os ombros. Do pescoço, a gola polo do uniforme revelava onde ligava-se aos ossos da clavícula. Minha garganta fechou-se em nó de marinheiro, e eu não conseguiria pronunciar resposta à pergunta ainda que meu cérebro a tivesse formulado.

"Fomos sim. Foi bonito demais.", meu pai veio em meu socorro.

"Eu imagino. A festa por aqui foi linda também. E já escolheram o que vão querer?"

O nó em minha garganta desfazia-se e lentamente se transformava numa brisa gelada que forrava a base do meu estômago.

***

Entrei na cozinha e minha mãe terminava de acomodar um sanduíche e uma caixa de toddynho, novidade na época, dentro do recipiente de plástico.

"Mãe, ninguém da minha idade leva mais lancheira pra escola."

"Como não, menino?"

"Todo mundo leva dinheiro pra comprar lanche. Eu já tenho quase nove anos!"

"Como quase nove? Faltam cinco meses ainda!"

"Então, tenho oito já faz sete meses. Quase nove."

Minha mãe sorriu. Guardou o toddynho de volta na geladeira, abriu a capa de plástico filme que havia feito em torno do sanduíche e mordeu um pedaço.

"Pega minha carteira lá no quarto."

***

Foram dias de fome na escola. O dinheiro ia se acumulando em uma latinha, guardada cuidadosamente no fundo da minha gaveta de meias. Quando a soma se fez suficiente, o meu sono perdeu a tranquilidade. A cama parecia uma frigideira, e eu girava e rolava sem conseguir nunca guardar posição, ou cerrar os olhos de forma permanente. À tarde, pus meu plano em ação. Seu Andrea não aliviou no preço, como eu previra. Velho sovina. Gastei minhas economias em um punhado de rosas amarelas unidas por uma fita vermelha.

Do meio do quarteirão, vi a moto parada em frente à lanchonete. A mulher da minha vida discutia com o piloto. Sentei no degrau de uma mercearia, escondendo as flores da melhor maneira possível. O desentendimento não chegava a ser um escândalo, mas era inegável. Passados alguns minutos, a despedida, mesmo que fria, deu-se com um beijo estalado nos lábios. Minhas entranhas gelaram, em flagrante contraste com o fluxo de sangue que me esquentou as orelhas. Abriu-se um vazio no meu estômago e subitamente minhas pernas tornaram-se inquietas. Enquanto a moça dirigia-se para dentro do prédio, pensei algumas vezes em me levantar e correr para casa. Largar as flores ali mesmo, no chão. Respirei fundo e desisti da ideia. Engoli o orgulho e a covardia de uma só vez, pus-me de pé e marchei decidido em direção à lanchonete.

Como escreveu uma vez Tolstoi, difícil é amar uma mulher e ao mesmo tempo agir com juízo. Não que eu já tivesse lido Tolstoi. Eu estava um tanto irritado com o fato daquele brutamontes ter a sorte de ser amado por uma deusa sem fazer por merecer. Eu tinha a certeza de que saberia tratá-la com a devoção que merecia. Eu tampouco usava a palavra devoção na época, mas o sentimento era bastante claro na minha mente. Meu trabalho dali em diante seria mostrá-la que só eu saberia oferecer o amor que lhe faria jus. Além de patético, é arrogante o homem apaixonado.

Quando cruzei os umbrais, ela estava de costas. As moças todas estavam atrás do balcão e rapidamente fixaram os olhares nas flores que eu trazia. Ela virou-se. Olhou primeiro para as pétalas áureas. Então arrastou o olhar para os meus olhos. Senti os joelhos falharem. Ela me parecia, naqueles segundos intermináveis, uma mulher madura. Adulta, experiente, independente. Hoje, calculo que não deveria ter mais de vinte anos de idade e que não seria menos assustada com o mundo do que eu mesmo. Por alguns segundos tentei emitir som que fosse, mas foi inútil. Estiquei, então, os braços, oferecendo o presente.

"Pra mim?!" perguntou pousando a mão direita sobre o próprio peito.

Aquiesci. Não sem esforço para movimentar o pescoço tensionado. Ela saiu detrás do balcão e caminhou vagarosamente até mim. Ajoelhou-se à minha frente, estendeu as mãos e entreguei-lhe as flores. Ela inclinou o corpo e beijou-me demoradamente a bochecha direita. Nenhum par de lábios alguma vez se igualou àquela sensação.

"Obrigada, querido." ela disse próxima do meu ouvido, em meio ao sorriso mais lindo que meus olhos veriam em vida.

***

Naquela época, eu andava o caminho de ida e volta do Colégio São Judas Tadeu. Nós morávamos na rua Olímpio Portugal. O que significa dizer que os caminhos para a escola e a lanchonete tomavam sentidos diametralmente opostos. Ainda assim, eu criava rotas que me permitissem passar pela hamburgueria quase todos os dias. Na maior parte das vezes levava amigos comigo e comprávamos um sorvete com o dinheiro que sobrava do lanche. O Miojo e o Ovo Frito eram meus companheiros mais assíduos. Junto com meu sorvete, eu sempre ganhava mais um beijo no rosto, o que me transformava em uma celebridade entre os garotos da minha idade.

Vez em quando meu caminho se cruzava com o do meu arqui-inimigo. Em geral, quando me via, descia da moto, me dirigia um sorriso e me despenteava com um ar brincalhão. Eu perdia o juízo diante de tamanho desrespeito. Incontáveis foram as vezes que pintei na mente a imagem de um duelo em que eu lhe arrancaria do rosto aquele sorriso condescendente. Com a autorização da moça, eu o venceria de forma arrebatadora em alguma disputa que não envolvesse o confronto físico, visto que mesmo sem juízo eu ainda conservava o senso de autopreservação. Ele se arrependeria, então, daquelas caçoadas e, derrotado, me admitira não só como rival, mas como seu superior. Provavelmente eu lhe mandaria um convite do nosso casamento, para ostentar meu bom coração.

Um dia, quando entramos Ovo Frito e eu na lanchonete, o ar estava mais denso do que de costume. Uma eletricidade pairava e havia alguma coisa diferente por trás dos olhares ali dentro. Meus olhos vasculharam a nave do prédio sem jamais encontrarem o que procuravam. Uma das garçonetes me chamou, ajoelhou-se com as mãos nos meus ombros e proferiu a sentença de morte.

"Ela não vai trabalhar mais aqui, meu bem..."

Não era fácil a vida de uma mulher negra trabalhando naquele bairro de italianos. Na economia apertada daqueles tempos, elas formavam a linha de frente no corte de gastos. Eu já sabia disso mesmo naquela época. Quando viu meus olhos desolados, Ovo Frito passou o braço pelos meus ombros.

"Não liga, cara. Tá cheio de peixe no oceano."

Ele não sabia exatamente o que dizia, só repetiu o que todos nós ouvíamos quando pescávamos conversas de homens rejeitados pelos bares e padarias do bairro. Eu sorri um sorriso amarelo em agradecimento pelo seu esforço. Dos amores que tive na minha vida em mil novecentos e oitenta e três, o Clube Atlético Juventus foi o único que tive a oportunidade de ver em decadência.

*

Créditos da imagem:
Na Mooca, por Mercedes Ruiz

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