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Viver em voz alta





“Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito – como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.”

Já havia pensado algo assim antes, mais de uma vez, desde que me aventurei a escrever e a publicar. Agora, leio mesma coisa, saída da cabeça de Rubem Braga em 1959. Grande consolo saber que o mestre cronista um dia teve preocupação semelhante e a externou num de seus textos.

Há bem pouco tempo, numa entrevista de TV, o assunto veio à tona e até para desenvolver o tema foi difícil. Vivo numa cidade do interior, o que torna muito fácil ofender ou magoar amigo, conhecido, colega de trabalho, desafetos ocultos, em meus textos. Por um lado, é válido e moralmente correto o zelo; por outro, vejo-me em prática de autocensura ao sentir que preciso dizer algo e me tolher para não criar encrencas.

Poucos foram os retornos de possíveis ofensas, como o caso do restaurante do qual reclamei (com razão) e mais tantas outras crônicas em que execrei os rodeios que eram realizados na minha cidade. Por esses, recebi até ameaça. Ficou nisso. Se causei mal-estar em mais alguém, não sei.

Devo confessar que não gosto de me barrar. Não gosto de ter uma ideia brilhante e logo em seguida me dizer: “Não vai dar; fulana vai ficar p* comigo” ou então “Tá louca, mulher? Quer perder o emprego?”. E imediatamente o dedo para na tecla ‘delete’ e joga tudo fora.

Talvez criasse um pseudônimo, quem sabe, a exemplo de bons autores. Resolveria parte do problema, mas ainda assim, não me traria total liberdade. Em uma cidade pequena a fonte é descoberta num piscar de olhos.

Como toda história tem dois ou mais lados, viver em voz alta também tem sua função de alegrar, fazer bem. Como diz o próprio Braga, “Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.”

Disse-me certa vez uma de minhas irmãs que escrever é uma responsabilidade. É como o compromisso social que tem todo o indivíduo com maior acúmulo de conhecimento. É necessário o esforço para construir, sempre. É o que busco, mesmo a despeito de uma vontade imensa de quebrar o pau de vez em quando.


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Imagens: corbisimagens.com

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