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Um leitor ávido





“O meu emprego é intolerável porque contradiz
o meu único desejo e a minha única vocação que é a literatura.
Como eu nada sou senão literatura, que não posso nem
quero ser outra coisa, o meu emprego nunca
poderá ser causa de exaltação,
mas poderá, pelo contrário, desequilibrar-me completamente.
Aliás, não estou muito longe disso.”
Franz Kafka


Se tivermos dúvidas em relação ao sentido do que seja a expressão: “um leitor ávido”, a obra, “Dispersa sequência”, de Valdemar Valente poderá ser utilizada como fonte de esclarecimento. Valente brinda o leitor, especializado em literatura brasileira, com um livro que reúne diversos ensaios desenvolvido o longo de sua prática de leitor. Nesses ensaios, Valente objetiva seu trabalho apontando para alguns dos lapsos que os estudiosos da Literatura promoveram durante décadas. Selecionou alguns textos e identificou autores que ocupam posição de prestigio tardio no cenário da Literatura brasileira. Seja por conta da complexidade que os textos apresentam, ou pela temática desenvolvida por tais autores, a verdade é que as obras selecionadas para estudo foram, de certa maneira, condenadas ao esquecimento, por leitores brasileiros e ocupam espaços menores dentro de um universo maior da nossa literatura.

Valente introduziu seus treze ensaios contextualizando as obras estudadas, seja ao momento histórico, seja ao movimento social ou ainda, à biografia do autor. Aqui selecionamos dois desses ensaios para uma breve leitura: “Estranho Qorpo Santo” e “O dândi desce aos infernos”.

No primeiro ensaio, “Estranho Qorpo Santo”, Valente mergulhou no universo do dramaturgo José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo (1829 - 1883) e selecionou as peças: “As seleções naturais”, “Matheus e Mateusa”, “Eu sou a vida; e não sou a morte”, “A separação de dois esposos” para entender como o autor “gravitando entre a loucura e a originalidade, encaminha seus textos em direção ao insólito, destruindo as concepções de um mundo previamente ordenado.” Para tanto, faz uma passagem rápida pela dramaturgia brasileira do século XIX, totalmente dependente culturalmente de seus dominadores, acrescenta que; “(...) a imposição da Coroa Portuguesa na proibição de prelos e tipografias ceifou por séculos a condição de nossos escritores (...)” e que somente com a chegada da Família Real esse impasse é rompido.

Importante será retornar as peças do dramaturgo José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo, não somente pelo prazer da leitura, mas também, para obervarmos algumas questões cristalizadas na historiografia da literatura brasileira, como por exemplo, a primeira vez em que o tema da homossexualidade na dramaturgia é trabalhado em nossa literatura, a obra: “A Separação de Dois Esposos” se encerra com um diálogo “estranho” para a sua época e lugar, tal diálogo ocorre entre as personagens Tatu e Tamanduá, desse modo, podemos atribuir ao dramaturgo a originalidade da temática.

Em nossos dias, o dramaturgo José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo, situa-se como antecessor do movimento surrealista, pelo nonsense constante em sua obra, ideia essa, bastante difundida pela crítica. Sem nos esquecermos, no entanto, de que Guilhermino César foi o primeiro estudioso a organizar um livro contendo as nove peças de Qorpo-Santo e uma parte crítica, com informações referentes à biografia do dramaturgo e ainda, uma sucinta análise a respeito de seu estilo reconhecendo o dramaturgo como o precursor do teatro do Absurdo.

O segundo ensaio que a obra, “Dispersa sequência”, apresenta é “O dândi desce aos infernos” a partir do texto de João do Rio (1881 — 1921), “A alma encantadora das ruas”. João do Rio, jornalista por excelência, abandonou as reflexões de gabinete, revolucionou o jornalismo investigativo carioca e elege a rua como seu campo de trabalho. A cidade foi, sem dúvida alguma, o assunto preferido do escritor, já que ela exemplificava, como nenhuma outra, a transição do país para a fase de República. “A Alma encantadora das ruas” é uma crítica contundente aos apelos de progresso desmedido, afirma Valente.

A contextualização com o momento em que a obra é publicada, dando conta da passagem do século XIX para o século XX na cidade do Rio de Janeiro, não foi esquecida por Valente. Momento esse, em que o porto da cidade era o décimo quinto maior do mundo em volume de comércio. A fim de atrair investimentos do capital estrangeiro, as autoridades procuravam se assegurar de que haveria um salto em direção ao cosmopolitismo e empreenderam uma enorme reforma urbanística. Entre as consequências desse plano diretor está o deslocamento da população em situação de submoradia da região central para os morros e os subúrbios.

João do Rio é, também, o autor do livro Pall-Mall Rio conjunto de crônicas bastante irônicas, antes publicadas na imprensa, sob o título autoexplicativo, chamada Frivola-City, a que Valente denomina como “literatura de superfície”, dada a forma fútil como eram discutidos os graves problemas da cidade. Mas o teor de seu ensaio é o texto: “A alma encantadora das ruas”, que segundo Valente, “antecipa-se à obra literária como matéria jornalística, reportagem que assume a dinâmica de um discurso ágil ao extremo.” Eis um pequeno trecho da obra:



A RUA

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não por que soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.



Valente conclui afirmando que a obra, “A alma encantadora da rua”, de João do Rio é um painel vigoroso que denuncia a inquietação diante do mundo que se anuncia. Reler essas obras, que desafiaram, por vezes, os limites impostos tanto pelo meio, quanto pelo tempo em que esses autores viveram é outro desafio e cabe-nos desejar ao leitor ávido, professor Valdemar Valente, sucesso: mil anos Luz!

O Leitor, por Osvaldo Cipriano


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