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Dormindo com a Espada



E, então, não valia a pena chorar, a nostalgia também já havia sido eliminada.

Sem ilusão sobre o fim da sua história, ela aceitou a realidade como se combinasse com seus hábitos mais antigos, apesar de saber que esta aceitação não era uma decisão. Era uma reação. Decisão mesmo, se é que a vida lhe deu alguma, foi a de manter tudo como era antes, sem guardar nada, sem mexer em nada.

No quarto deles, tombado como patrimônio histórico, ela olhava todas as coisas dele. Nem a cama desarrumada foi capaz de tocar. Aliás, a cama desarrumada era o que mais lhe confortava naquela casa toda. Ficava deitada nela por horas e horas em um suspense desaparecido faz muito tempo. Nem o despertador, horrível e velho, que agora tinha um tic tac que mais parecia uma bomba, foi jogado fora.

No começo da primeira noite sozinha, tudo que ela fez foi deitar na cama e conversar com os retratos dele na parede: “O que acontece comigo que só consigo passar minhas horas assim?” dizia ela, tentando interpretar no silêncio alguma resposta.

Vai ver é coisa de órfão, pensou ela, finalmente cansada do eco sem som do quarto. Ela foi órfã. E sabe o que toda órfã faz quando desiste de esperar que a sua família a busque? Sonha com a família que vai criar. E então, no começo da sua juventude ela, assim, meio sem escolha, também deu de sonhar com isto.

Quando mais velha, porém, teve a certeza de sua falta de escolha para com o seu destino solitário e miserável, mas percebeu que a palavra final não era esta e finalmente deu como ponto de partida de sua vida quando o conheceu. Foi no primeiro emprego que ela conseguiu - mentindo no currículo para conseguir tal façanha, depois de inúmeras outras tentativas em vão. Ela era bonita, mas insegura e constantemente medrosa quanto a descobrirem seu verdadeiro currículo. Ele era agradável, grandioso e com certa autoridade.

Ele parecia gostar da companhia dela e não se importou quando descobriu seu falso currículo. Ela sentia-se nas nuvens, segura ao seu lado – mesmo tal fato sendo mais pela carência dela do que pela habilidade de protetor dele - e assim, ela fez dele sua nova razão de viver. Mas não se deixe enganar: apesar de todo seu passado solitário, ela nunca achou que sua vida era pouca. E, em sendo ele sua nova razão de viver, passou a guardá-lo como um abutre faminto. Stalkeou no facebook, rastreou seus emails, obsessou sua vida. Como perdê-lo? Morria de tanto o desejar. Foram inumeráveis, infinitas tensões sobre onde ele estaria nas primeiras noites. As tensões cresciam tanto até que, no ápice das brigas, ela fingia que estava tudo bem - o leitmotiv do ator serve tanto para os políticos quanto para os viúvos e assassinos - no fundo ela só queria que ficasse. Que ficasse sempre.

Ele, às vezes, brincava que a tinha salvo. Que lhe ensinaria a vida. Que com ele sua carreira seria certa. Que viveria muito melhor e muito mais fácil ao seu lado. Ela acreditou. De fato, parecia.

Sem saber ao certo quando deu de reparar, ela passou a notar alguns traços deste homem a quem confiou sua felicidade tão prontamente. Para dar como exemplo um traço simples, ela detestava quando ele a chamava abreviando o seu nome: Sô. Ela dizia que o motivo do desgosto era que Sô parecia “só”, mas ele achou boba a comparação e continuou mesmo assim. Já por um outro lado, para dar como exemplo um traço mais complicado, ela queria ter filhos, apesar de nunca achar que seria afetuosa ou sequer uma boa mãe, mas acreditava ferreamente que ser mãe lhe agradaria. Ele negou. Teimou tanto que ela desistiu. Não importava. “Faz o que você quiser com a minha vida. Só fique nela” era quase implícito quando tais assuntos vinham à tona.

Ele mantinha-se no seu costume: dizia que tudo em relação à eles era importante, mas nada era urgente. Dizia que com este anel ele a esposova, mas passou a festa inteira com os sócios. Dizia que podiam ter a casa que quisessem, mas um quadro do Romero Britto foi sua primeira e única investida no campo da decoração. Dizia que procurava ganhar mais dinheiro para eles, mas nenhum centavo chegava às mãos dela. Com o tempo, ele prometia diminuir, mas não diminuía; prometia melhorar, mas não melhorava; prometia estar junto, mas não estava; prometia ficar. E ficava.

Até que, para chegar num momento mais recente da história, tem-se o seguinte: na empresa que ambos trabalhavam chegou um estagiário. Promissor. O marido, em vendo uma ideia genial que o garoto teve, apossou-se dela em segredo e o convenceu de que nem o garoto nem sua ideia eram bons. Ela sentiu pena. Jovem, honesto, começando carreira e já ouvindo algo assim. Isto pode muito bem distorcer a cabeça de alguém. O garoto foi despedido e, logo após, a ideia do jovem foi concretizada pelo seu marido, que não sentiu culpa alguma no roubo. Isto a perturbou demais: sem culpa alguma! É fato: só os que são bons partilham da culpa, logo, era claro, seu marido podia não ser bom.

Fez-se muito dinheiro com a ideia. O garoto, em vendo sua ideia feita, ficou enaltecido. Processou o marido que mal piscava diante disto tudo, convencendo o jovem de que acabaria com sua carreira se quisesse justiça e já tendo na manga uma boa leva de testemunhas pagas a preço de ouro. Salvo acidente intencional, ou falha do meu marido, ele nunca seria desmentido e o garoto nunca ganharia justiça alguma.

Ela se sentia muito mal com tudo isto. Ficou com vergonha do marido. Sentir vergonha do marido não é nada agradável. Tudo que ela queria quando pequena era ter um pai que a deixasse começar a trabalhar em sua empresa. Ela bem sabe como é começar a trabalhar sem ajuda nenhuma. E ficava noites a fio no orfanato, sonhando em ser apadrinhada pelo pai, ele a ensinando tudo, com grande orgulho dela. Não havia como não associar tais situações: o garoto era filho de alguém que não o ajudou. Podia ser o filho deles! O seu marido roubou a ideia do quase filho deles!

O marido ganhou a causa. Evidentemente. Mas também, na mesma noite - ria-se - o marido sofreu um acidente de carro. A palavra é sofreu. Sofreu muito antes de morrer. Tão imprevisto foi tudo isto que o efeito só poderia ser uma desgraça desnoerteadora nela. Mas não foi.

Não chorou. Uma lágrima sequer. Até hoje ela duvida que alguém da empresa, até mesmo um joão ninguém qualquer, tenha chorado. A verdade é que o jovem não foi o primeiro a quem o marido passou para trás. Sim, foi este garoto que fez algo. Acidente coisa alguma! Na falta de falha do marido, optou-se por acidente intencional, lembra-se? Alguém finalmente fez algo! Os que machucam muito os outros, uma hora acham um inimigo rancoroso, pensava ela, quase sorrindo sem perceber, olhando o retrato do falecido em cima da cama.

E não. Ela não estava mal por não ter se despedido dele antes da morte acontecer. Ela já se despedia um pouco a cada dia. É falso dizer que o cara por quem ela se apaixonou mudou. Ele sempre foi assim. E ela também. Ela, no fundo, só queria alguém... Permaneceu parada. Ainda não tinha vontade alguma de arrumar a cama, esconder fotos dele ou sair de casa. Fazia tanto tempo que ela se sentia entre o que achava certo e o que o marido fazia. E agora ela não quer fazer nada, só ficar aonde o marido ficou? Será? Será que ela queria morrer parada lá? Morrer porque ele, que já fazia tempo que lhe desagradava, morreu?

Ficou atônita com a ideia. Tinha lá sua lógica. Seria ela um mártir? Que tipo de mártir é este? Não é possível. Não podia ser ela um mártir! Tinha que haver outra explicação. Mas a palavra mártir ecoava em sua cabeça loucamente. O que está fazendo no quarto tombado, então, mártir? Porque sacrificou sua felicidade neste casamento, então, mártir? Que crença é esta que te faz sofrer não achando digno o que o teu marido faz, então, mártir?

Mártir... seria possível? Será que é por isto que ela não consegue se desfazer das coisas e do quarto. Começou a pensar sobre.

Sim, talvez fosse um mártir. E a verdade mesmo, é que tudo que um mártir quer é uma espada para cair morto. Pode ser. Pode ser... mas só porque a espada dela dormia do seu lado todo dia. Uma espada sorrateira, que a martirizava todo dia, toda vez que ela sabia que ele não estava sendo bom. Uma verdadeira decomposição anunciada. E ela consentiu. Consentiu em estar do lado de alguém que sabe prejudicar outros. Achava que não conseguiria melhor? Alguém honesto ao seu lado? Alguém amoroso ao seu lado? Ela não merecia isto?

Está tudo tão claro agora. O que fazer? Como morrer, então, este mártir se sua espada já se foi?

Não queria mais pensar. Quis esquecer tudo isto. Estava cansada deste mundo. Queria renascer. “Por favor, me deixem renascer!”. Renascer... renascer implica crise, implica dor. Ela sabe disto. Ela sempre soube disso. Sim, todos querem renascer, mas ninguém quer morrer para renascer. Morrer para renascer... Sim! É isto! Fez-se a resposta do silêncio: é isto! É por isto que se sentia tão confortável no quarto intocado. Sim, este cenário, que em qualquer outro contexto seria visto como terrível, apegado, sofrido, choroso, é, na verdade, uma verdadeira limpeza de alma. Limpeza de alma! Não era uma mera lavagem rápida para ser recolocada de volta na circulação da vida, não. Era limpeza de alma! Todos tem que morrer para renascer? Esta é a sua morte. Com a dele. Ficar ali: em meio ao cenário desta trincheira, pacificamente fazendo um inventario de quantos amores e memórias se foram nesta guerra, VIVA! Sim, ela sobreviveu. E este é o cenário que afirma sua sobrevivência! Deixe-o assim mais um tempo, sim?


“Venha fantasma, me responda. Você morreu, minha espada?” e ela ria sem culpa. Ela, esta mártir, sobreviveu sozinha mais que aquele ex-veterano do seu marido que dizia-se tão habitué deste mundo. Ela sobreviveu. Morre-se uma espada. Morre-se um mártir. E renasce uma mulher, certa de que merece mais.


Créditos da imagem:
Sword, por Victor van Dijk

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