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Vague




A saudade é como andar sobre meio metro de neve, desprovido de calçados. É vagar por uma estrada retilínea, sob o Sol escaldante de um deserto. A saudade queima. A saudade é capaz de queimar o corpo todo, mesmo em uma manhã amena e gentil, mornamente fugaz. E essa capacidade advém justamente do baricentro dessa alíquota especulativa. A saudade queima, porque é otimista.

Por vezes, olho para o telefone que ecoa um silêncio fantasmagórico. Espero ele tocar. Ele toca. Mas isso é fruto, fruto podre da imaginação. As longínquas facetas, que se desdobram por cada parede em volta, dizem em vozes melancólicas e sussurradas: "I'm waiting here". Dentro, em algum tecido estriado cardíaco, o horizonte se derrete, mas as ondas que arrastam as areias quebram-se em um profundo esfriar. E a memória sai de sua cama, desvendando velhas imagens amareladas, porém distintamente adstringentes. O gosto passado já não é o mesmo. A lembrança se transforma em uma xícara de café frio que desce fogoso pela garganta. Já o estômago, banhado em sua acidez, desencanta os argumentos alcalinos da alma. O olhar perdido vaga, estático, quente e molhado até a maçaneta que abriu as portas para essa prisão. A sa udade é algema.

Também vou embora, caminhando sem pressa para o chuveiro. Posso sentar na cerâmica branca e presenciar as gotículas escorrerem pelos azulejos. E o vapor que gira pelas narinas lembra a nossa dança animada daquela noite. Como havia vida ao nosso redor, coisas que somente a primeira pessoa do plural pode doar. A saudade é um teatro cheio, uma multidão encantada que sorri sentindo a catarse advinda de um palco tomado por somente um ator, que finalizando o ato, sai de cena. Esse mesmo ator que nasce também morre depois de esquecer-se de catalisar sua vida. Então, a saudade é ida.

O pior seria o chegar da noite. O acender das lâmpadas e o ascender do sono. Aquela música animada, "Never let me go", cantada pelo anjo destemido que me fazia ninar. O caderno verde de velhas histórias ainda enfeita a estante. O cheiro das flores, dos risos e dos rodopios me faz cair,
cair,
cair,
cair, cada vez mais, naquilo que chamamos de sonho. O passado presente entre os ossos é como uma criança que brinca com seus amigos e primos, pulando amarelinha. Depois de algumas pedras lançadas, chega-se ao céu. E desta vez, a saudade é chegada.

Posso me esquivar da memória, enquanto estiver ocupando os demais membros com outras tarefas. Mas de repente, não mais que de repente, verei as mãos dela fazendo o crochê, enquanto sorri fazendo planos para o fim do ano. Ou verei ele se balançando em sua cadeira de corda, enquanto planeja comer a canja que esfria na janela. Vou tentar correr até a TV mais próxima e assistirei ao filme mais engraçado, mas desta vez os fios que enrolaram sua cabeça sem cabelos, seu sorriso sofrido naquela cama, o sorriso dela meu Deus, me fará chorar. E por mais que meus pés estejam em fuga, meu coração estará mais próximo daqueles que se foram. Então, a saudade é distância.

Estas saudades, distintas saudades, saúdam os seus feitos, substantivo esse, que é feito de brita, água e cimento. É como olhar para o vazio, antes ocupado, e sentir o peito cheio. Ou em êxtase, sentir falta do que não foi, do que não foi ocupado, pois a saudade também pode ser a falta do pássaro que nunca, sequer, esteve na gaiola vazia. Não obstante, só é possível sentir falta do que, de alguma forma, foi bom, foi substancialmente presencial à vida. Ninguém sente falta da guerra ou do tempo futuro, cabido o pensamento de cada um em relação à sua própria verdade. Subindo ou descendo, dormindo ou acordando, sorrindo ou chorando, a saudade é pertencer. E os gazeios que se desmancham na face da memória abrem as portas para o frisson final. Estico os olhos e avisto um francês andarilho, dançando em uma corda estendida sobre um abismo menor, cantando sem ritmo:

_ Vague, vague, vague.

Porque a saudade também é vagar.


Alline Frazão
Sou estudante de Engenharia Química, mas as minhas reações acontecem com pedras-palavras. Não é a pedra de Drummond. É uma pedra-pássaro. E a minha busca insensata é encontrar, no interstício da alma humana, uma portinhola que possa ser aberta. Uma gaiola vazia, cheia de gazeios e inania verba. Uma saída para a anistia pulmonar de nossas vidas.
Blog Facebook @Gaiola_Inania @AllineFrazao


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Créditos da imagem:
Pé ante pé, por Tânia Sá Guimarães

5 comentários:

  1. Imensamente grata pela oportunidade. Grande Revista! Grande iniciativa. Benfazeja!

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    1. Para nós também, Alli! Apareça sempre por aqui ;)

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  2. Sem palavras para descrever meus sentimentos ao ler... Entao, que vaguemos, em sonhos, onde tudo se explica sem que muitas vezes entendamos. Lindo.

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  3. "A saudade queima, porque é otimista." É otimista por esperar viver novamente aquilo que um dia fora memorável, aquilo que um dia fora singular, mas queima por saber que talvez (senão com certeza) estes momentos fiquem apenas na memória, o sentir de novo, o cheirar de novo, o abraçar de novo pode não vir mais a existir, e isso corrói. Então só resta a ela vagar nas lembranças, viajando anos-luz nos registros singelos, "Então, a saudade é distância.". Texto incrível, viajo quando o leio, são palavras que em conjunto expressam sentimentos extraordinários, misturando saudade, nostalgia e admiração! Parabéns Alline, amo seus textos!

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    1. Ah, Clécia! Muito obrigada. Você me emocionou com seu comentário. Em síntese/ em parte, é justamente isso. E por isso, todas essas "saudades" também é vagar. Obrigada!!!

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