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Vir ao mundo outra vez




Crônica de Corina Haaiga

Alguma coisa acontece, geralmente de onde menos se espera, e te joga no chão, nocauteado. Pode ser um não quando um sim era o esperado, um rompimento afetivo doloroso, um fracasso profissional devastador, uma decepção cortante... Diante de um vasto desânimo, só resta perguntar: Eu mereço isso? Sinceramente, eu não acho que revezes aconteçam por merecimento; já parou para pensar em quanta gente bacana leva paulada todos os dias? Ou em quanto babaca anda se dando bem por aí? Merecer não é o verbo certo e nem cabe aqui, penso eu. Coisas assim acontecem todos os dias, o tempo todo, nas milhares de ruas que cruzam, cortam e atravessam as inúmeras localidades do mundo. E acontecem porque acontecem, não existe uma lógica.

De repente, podemos receber uma notícia que conseguirá apagar o Sol ou, então, espalhará cores fluorescentes até nos detalhes. Não é sorte, não é Destino, não é loteria celestial, pois Deus não joga dados, já disse Einstein. É o viver, que jamais será feito apenas de pétalas de rosas, de macias penas de ganso, da fragrância doce do sucesso. Haverá pedras, algumas assustadoras, na sua estrada, na estrada do teu amigo e na estrada do teu inimigo também... Pedra - eufemismo para dor. E a mesma pedra que está no chão, noutro dia pode estar na sua mão, já pensou nisso?

Nascer, no dicionário, tem alguns significados - vir ao mundo, ter origem, brotar, ter talento natural para algo, etc. Ao sair da barriga materna, ainda embebido em líquido amniótico, você chora sem saber que aquele momento se repetirá muitas vezes ao longo do caminho. Você verterá mais lágrimas do que poderá contabilizar e terá de renascer sozinho em muitas ocasiões. Talvez a diferença esteja em ter alguém para te dar as boas vindas quando você vier ao mundo a cada vez que isso se fizer necessário. Alguém que segure na sua mão e se emocione com a sua chegada.

A vida, entre outras coisas, é uma professora que se diverte com a palmatória na mão. Quanto tempo você pretende ficar esticado no chão?
Renasça.

Alguém espera por você.

Corina Haaiga

Colunista no site Casal Sem Vergonha. Letrista de música. Autora dos romances: Pegadas de Inga; Um Réveillon em Copacabana; Querida Julieta, Sobre a Ponte d'Avignon, Açafrão de Outono & Outros Contos, O Rio Foi Feito Para Nós, Algumas Crônicas, Outras Agudas, O Enciclopedista, Alix, Tamanho Único?. Escreve crônicas e contos.

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Créditos da imagem:
Renascer..., Yosef

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