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Melhores amigas





Na convivência próxima com adolescentes, tenho ouvido com frequência a expressão ‘melhor amiga’. Interessante observar quanto são voláteis as relações: a melhor de semana passada já não é mais a de hoje, e assim, vão se trocando conforme as circunstâncias, o local, as motivações e os programas. E tal inconstância não é um fenômeno atual. Na minha infância e juventude variava de melhor amiga conforme o momento, o ano na escola, o esporte da hora, a gincana, o namorado em questão. Porém, há aquelas que foram marcantes, que até conseguiram atravessar o tempo e os reveses, mas, por fim, ficaram pelo caminho.

Rumos opostos e diferentes opções de vida nos separaram para sempre ou temporariamente: casamentos, filhos, viagens, carreiras, mudança pra longe, doenças, morte.

Bateu saudade. Fui inundada por esse sentimento comum a quem contabiliza maior número de anos vividos. Retornaram à mente nomes que me arrancaram suspiros, por apontar no fundo da memória histórias notáveis, porém adormecidas e devidamente guardadas na gaveta do canto. De cada uma posso recordar um dado específico.

Ludmilla conheci no primário. Era linda, superinteligente, morava na rua da escola. Escrevia com letra bem desenhada para a idade. Sentamos juntas na primeira série. Mudei de grupo escolar e reencontrei-a novamente no ginásio. A última vez que a vi, entrevistei-a para uma matéria sobre meningite. Ela acabara de perder a filha.

Lucimar entrou na minha vida na terceira série. Foi amor à primeira vista. Evangélica, usava a tradicional saia de tergal, com duas pregas (chamadas ‘machos’) à frente e atrás. Não a tirava nem nas aulas de Educação Física. Era moleca; trazia sempre um sorrisão, acompanhado de uma fala chistosa e gargalhada arrastada. Nossa amizade durou até o ginásio, quando nos juntamos à Eveline e formamos um trio imbatível. Ela imitava a letra desenhada da Ludmilla e se justificava: "Quando acho uma letra bonita pra imitar vocês me debocham!". Nessa época, curtia meus primeiros beijos na boca, jogos de queimada na rua do colégio, papos intermináveis no banco da praça. Sem esquecer as pedaladas a três, na bicicletinha Caloi, na pista do Aeroclube. Aos 18 anos de idade, às vésperas do casamento, Lucimar morreu num acidente, quando vinha de Juiz de Fora, onde fora buscar o vestido de noiva. Quanto à Eveline, depois de terminada a oitava série, simplesmente deixamos de nos ver. Chorei a falta da Lucimar por muito tempo, até pensar que a tinha esquecido. Não esqueci.

Fora da escola teve a Sandra, na mesma época da Lucimar. Sandra morava atrás de casa, de forma que nossos quintais faziam divisa. Passávamos horas sentadas no muro, falando dos meninos bonitos - ela se derretia pelo Julinho, irmão da Ludmilla. Chamávamo-nos pela porta da cozinha a qualquer hora do dia pra dizer qualquer coisa. Foi assim até o pai dela ser ir trabalhar em Arequipa, no Peru. Passamos a nos comunicar por carta, semanalmente, tentando por em dia tudo o que costumávamos contar uma à outra pessoalmente. Quanto retornou ao Brasil, não voltou para o bairro. Casou, teve filhos, voltamos a nos encontrar algumas vezes, mas já não éramos as mesmas. Jamais seríamos.

Na adolescência foi a Patrícia quem ocupou o lugar de melhor amiga. No primeiro dia de aula do curso técnico ela entrou na sala e sentou comigo. Não nos desgrudamos. Patrícia era descolada, tinha um cabelão liso bem cheio, que jogava para todos os lados. Bastante resolvida para a idade, exercia fascínio sobre mim. Sempre fui a filhinha protegida pela mamãe e, mesmo aos 15, mal podia ir e voltar do colégio sozinha. Testemunhei o casamento da Patrícia, terminamos o curso, comemoramos todos juntos e ali acabou a amizade. Nenhuma notícia dela há quase três décadas.

Como a internet e as redes sociais não nos permitem perder ninguém - ou quase - ao escrever esta crônica pensei em procurar por elas. Encontrei duas: com uma bati um longo papo; a outra, apenas aceitou minha solicitação de amizade e ficou nisso.

Hoje tenho duas amigas a quem posso chamar de melhores. As duas. Quero crer que essas serão para sempre; na maturidade, conviver com as diferenças pode ser descomplicado, ainda que as escolhas individuais apontem para caminhos diversos. Não é algo fácil. Depende de exercitar a compreensão, o entendimento e aceitação das necessidades e razões do outro. O que na adolescência é praticamente impossível. Por isso, olho essa garotada que hoje me rodeia e fico até triste. Não demora e eles vão embora da minha vida.



Imagem: http://www.corbisimages.com

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