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O meu crime e o meu castigo





Conto enviado por Alline Frazão.


Ouvia um teco-teco estranho no quarto, enquanto eu podia contar quantas vezes a calha de água se enchia e despejava tudo em frente à janela do meu quarto, ou ainda, com quantos trovões se faz uma pequena tempestade de verão centro-brasileira. A chuva continuava sua moda, bem rebuscada, pelos solos ácidos do sertão. Eu teria dormido se, primeiro, não tivesse uma mente cantante e, segundo, o tal do teco-teco no meu quarto.

Confesso que me demorei um pouco na minha cama cogitando a ideia de ser apenas um eco dos meus tambores mentais, mas em segundos comecei a checar por onde estariam as criaturas frutíferas desse alvoroço todo. Elas estariam na minha velha escrivaninha, talvez pisando nos livros que deixei mornos antes de dormir e que, por consequência, não recoloquei na estante. Tive um espasmo! Estariam comendo minhas páginas, minhas queridas páginas salvadoras do tamborilar de minha mente cansada? Saltei da cama e fui até o interruptor. Por sorte, não encontrei nada na mesa, no entanto, um pouco adiante, ali, do lado da mesa, na porta jaziam duas baratas em cenas explícitas de intenso amor.

Eu poderia ter pego o chinelo que estava mal colocado em meus pés por causa da pressa com que me levantei e, de imediato, mas aquilo me comoveu. O coito e a coita. A coita e o coito. Duas baratas e seu teco-teco dominador sobre uma tempestade. Tive mais sorte do que G.H., pois ao levantar de madrugada avisto duas baratas ao invés de somente uma, uma pobre e solitária barata, normalmente destinada a perambular sem paixões. Passei por instantes naquele insólito momento, em que em sua boca jazia uma barata e todo escrupuloso líquido baratês escorria por sua goela; onde em alento vi duas antenas de artrópode roçar sua língua e aquele asco descer diretamente por esse orgulho humano imbecil; vi como o coração mata o homem e não a boca que, mastigando um ser esgotado de glória, não passa de um órgão pungido de uma ordem cerebral que, desgovernada pode ferir muito mais do que um ser do esgoto, imundo; foi o homem que estabeleceu o nome à maioria das coisas e a impolidez é só uma questão de ponto de vista, pensaria a barata, caso o homem desse apenas alguns segundos de sua vida e engolisse seu próprio nojo e medo e aprendesse a mudar o ponto de referência de suas rasas análises.

No entanto, não comi nenhuma barata. Somente fiquei ali, absorta, parada, observando, talvez, porque aquele teco-teco já se misturara à minha música. Não dava para fugir ao sondar-me inconscientemente. E eu me sentia como se, pronta para voltar ao trabalho, tivesse me transformado em um inseto. Como se fosse Gregor Samsa ao tentar me virar na cama e caísse sobre oito patas finas. E sentia medo como uma barata ao ver um homem se aproximar com seus sapatos gigantes. Eu era uma barata. Ali, no meu quarto, presenciava dois seres iguais a eu encontrarem aquilo que eu devia ter lido em algum lugar. Lido. E agora, o asco estava dentro de mim, correndo dentro de minhas veias, subindo por minhas antenas e aquecendo meu coraçãozinho. O medo e o nojo moravam nas minhas entranhas e eu podia imaginar o meu amado com os olhos assustados e, exuberantemente mais alto que eu, me prendendo no quartinho dos fundos. Aos poucos, ele encheria o quarto com quinquilharias que não serviam mais, com seus rascunhos de físico-química, com seus cadernos velhos, seus móveis usados, seus planos descascados, suas camisetas vermelhas e verdes, seus 'nãos' e seus 'talvez' e, assim, eu sumiria aos poucos. Ficaria mirradinha, menor que meu exoesqueleto, tão insignificante quanto uma barata morta. Ou pior, uma barata morta no lixo, porque uma barata morta no chão ainda causa aversão ao homem que avista seu sangue branco-amarelado escorrer pela cerâmica. E esta alíquota era a coita.

Lembro-me do professor de literatura ensinando sobre o romantismo, essa escola literária bucolicamente traída pelos amantes. Romantismo como Jack Tequila, como Goethe ou como Tristão e Isolda. Eu poderia escolher, mesmo que esse humor negro tivesse mexendo com meu reggae interior. Jack, porque eu era uma barata tão feia que enjoa. Goethe, porque eu avistava duas baratas em coita, - coitadas! - coita de amor. Minha péssima memória me impedia de lembrar o nome dele… Werther! Coita(do)! É o primeiro comentário que me vinha à cabeça quando ouvia este dramático planejar se declarar e receber tantas apunhaladas de si e dos outros - porque o inferno era os outros (Sartre), mas era ele mesmo (Lispector) - e queimando ali e acolá, levou um pequeno tiro na testa. Só não lembro o lado. Acima do olho direito? Tinha uma explicação, o lado da emoção. Pelo menos, Tristão e Isolda morreram juntos. Morrer? Juntos? E naquele momento, eu já era uma mulher, inescrupulosamente mal, planejando a morte de duas baratas. Havia uma explicação.

Eu tinha, tinha, na minha escrivaninha uma estátua de mim mesma de um material que eu também esqueci o nome. A boneca era linda e não se parecia comigo. Ganhei-a de uma mulher muito querida, que decidiu sumir e eu aceitei o sumiço, no meu aniversário de 15 anos. A boneca estava vestida de rosa e tocava seu teclado. Tirando o rosa, era eu. Naquela época, os ensaios musicais me faziam muito feliz, mas me aprisionavam em um mundo unidimensional. Apesar disso, sempre me esforcei em guardar bem as lembranças, mesmo aquelas que traziam, de quando em quando, algum ator ferido ao palco. É que as cortinas sempre fecham, já que como dona desse teatro, decido quando terminar a peça, por mais complicado seja abandonar alguns personagens à desventura de um palco vazio. A dor de um palco vazio é minha, bem como um palco cheio pode me causar aflição. Apesar dos trancos e barrancos, eu mantenho meu teatro aberto para espetáculos fugidios ao relento uma vez ou outra. Não tenho vergonha de minhas baratas, porque quando há algum asco, ele também é meu e eu engulo ou eu o sou como o disse. Mas relembrando, comecei a encontrar minha boneca comida. Tantos anos cuidando dela e ela me aparece toda carcomida, deteriorada, fisgada. Em uma noite, peguei uma barata no flagra, devorando-a com fome e sem pena. Ainda consegui salvar o teclado, quase intacto. Mas parte daquele zelo todo foi embora e vendo aquelas duas baratonas aproveitando o coito e o teco-teco barulhento de uma noite divinamente chuvosa me deu uma curiosa aflição.

 – Então, quer dizer que vocês comem minha boneca, enchem a barriga e planejam encher o ventre no meu próprio quarto? Isso não! - e foi quando me notei com o chinelo na mão esquerda, pronta para matar Tristão e Isolda, enterrar duas baratas safadas que aproveitaram dos meus sentimentos e devaneios para manterem-se vivas e terem suas baratinhas que, mais tardar, devorarão meu tecladinho, minha vida, minha noite. Que me perdoe todo o discurso anterior, feito em menos de alguns minutos em minha cabeça barulhenta, mas às vezes, nem mesmo as análises são bem vindas, cabíveis os devidos referenciais inerciais.

O último pensamento que me veio naquela noite foi o sonoro 'desisto' que saiu da boca daquele Talvez Ambulante. Eu que, durante mais de seis meses, não desisti dele, quase aceitei aquele esquecimento vivo. Quase, porque ainda tentei avisar minha saída. Ele aceitou a ida e abriu a porta desejando um 'boa sorte' feliz. Aquilo era o meu castigo, Fiódor. Contudo, eu tinha tanta família para abraçar, tanta viagem para planejar, tanta coisa para escrever e cachorros para passear e livros para aquecer… foi a hora que imaginei minhas páginas mornas sendo comidas por baratas.

Voltei para a cama com muito mais enfado. Toda aquela ópera me cansou sobremodo, que apenas deixei meu corpo despencar sobre o travesseiro. A chuva, ainda mais forte, inundava a calha e os trovões diminuíram. Em algum canto daquele quarto repousava um par dos meus chinelos que, no outro dia, seria procurado sonolentamente. Meus olhos se fechavam e eu entre sonhava, enquanto me lembrava entre risos da cena emblemática: uma barata viva arrastando, em coito, uma barata morta e seu líquido viscoso escorrendo por entre o rejunte da cerâmica. Eu não tenho boa mira. Amanhã eu limpo a prova do crime. Aliás, só Werther morreu no final da história.



15/12/2014 - 14h19min.


Alline Frazão
Sou estudante de Engenharia Química, mas as minhas reações acontecem com pedras-palavras. Não é a pedra de Drummond. É uma pedra-pássaro. E a minha busca insensata é encontrar, no interstício da alma humana, uma portinhola que possa ser aberta. Uma gaiola vazia, cheia de gazeios e inania verba. Uma saída para a anistia pulmonar de nossas vidas.
Blog Facebook @Gaiola_Inania @AllineFrazao


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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
Barata por Baixo, por RevelaWeb

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