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Pólvora





Meu querido, eu não queria entrar neste assunto. Eu não queria lhe dizer nada. Minha prudência meticulosa me levou a sempre esperar mais do que devia. Contar tudo agora seria de uma impropriedade estonteante. Mas mesmo assim, cá estou eu, obcecada em contar este filme que aparentemente só eu vejo. Eu choro, eu rio e ninguém mais.

Todo o necessário para esta contextualização, caro leitor, se resume em uma oportunidade. Tinha-se a possibilidade real de sermos um casal. Um bom casal. Um bom amor. Daqueles que vem alterar toda a vida.

O cenário parecia de filme: um de que espaçoso, penhascos íngremes, mar horizonte a fora... Talvez o mar até pudesse ter aquele azul celestial majestoso de verão caso houvesse um pouco mais de sol. Os penhascos até poderiam abrigar sociedades inteiras de vida primaveril caso a flora tivesse alguns anos de solidão. Uma brisa confortável também conseguiria juntar todas as folhas e fragrâncias, dignas do mais belo outono, caso houvesse menos cimento. E, para finalizar, havia ainda a calmaria e quietude aprazível de qualquer bom inverno intenso. Este sim, onipresente, alto e em bom tom, grandioso como a cena pede, rei de muitos reinados, dono maior das estações que podem ser todos os dias, mas nunca são.

Sabia que tudo poderia ser lindo, colorido, abrigo de muitas vidas, mas acontece que aquilo tudo nunca ia para além da visão. Parava sempre nos meus olhos. Não ia para o auditivo, para o paladar, nem para o sentido. Não ia para o passado, nem continuava no futuro. Não ia, não era. Se fixou no “quase”, lá armou barraca e estava criado uma eterna zona de conforto desconfortável.

Você, já com seus quase 30 anos de ficção, sua ideologia agarrada às unhas, seu lento desejo de restaurar a ordem e a impossibilidade de visão alternativa, fez com que tudo parasse num clichê. Naquele velho clichê covarde do “quase”... mas por mais que esta conduta seja abundantemente exportável, querido, sinto-lhe dizer: quase morrer não muda nada. Morrer é que muda tudo.

São em momentos assim que cada vez mais acredito que o vírus (ainda não sexualmente transmissível) da atualidade é a museificação precoce. Essas coisas perdidas desde o começo do mundo que antes de ser, já foram. Antes de se tentar, já se colocam fora do alcance. Saem da fabrica direto para museus. Enfim, essas coisas que nem tiveram tempo de ser real e já se prendem no estágio do disco de vinil.

Este “não tentar”, “não arriscar”, “parar antecipando a possível dor” está a um pequeno passo de virar hino. Fiéis adeptos lotariam estádios aos montes. A motivação de batalhar para feliz está virando cada dia mais atração de museu. Atrás de uma bela faixa vermelha com avisos de “sem flashes”, disputando popularidade em números comparáveis à Mona Lisa.

Ademais, ressalto, não há cenário que embeleze aquele ponto do término onde alguém diz “não é você, sou eu”. Desculpe, mas isso não favorece o fim (apesar de que seguramente ainda o assegura no social da espécie). Eu fiquei lá, ouvindo esta frase, como se algum dia tivesse demonstrado interesse em ganhar uma especie de troféu “melhor pessoa da relação”. Você vai me desculpar, mas tentativa de alívio é de uma inutilidade nestas horas...

A verdade é que eu só apareci na sua vida porque você deve ter pedido alguem diferente em algum momento dela. O inverno, aquele palhaço celestial em tom maior, também escuta.

E, quando cheguei, não gostei de te ver de capacete e rifles na mão. Então, abri uma porta para fora deste quartel e, assim, desconstrui sua armadura mal disfarçada de invisível. E você deixou. Você gostou. Você não precisa dela comigo. Você dizia que estava acostumado com bolo de trigo e eu trazia um de maçã. Dizia da sua solidão e eu te ouvia. Dizia que gostava de rir e eu aprendia piadas. Pedia conselhos e eu os dava com tanta pureza e boa intenção... Acreditei em tudo: nas mentiras e nas verdades. Nunca quis ser o começo nem um fim último para você, mas somente um meio ao lado de outros meios.

Mas acontece que até fora do quartel você fazia de tudo para não cair. "Pisa no freio, cuidado". E, no fim, me convidava a ir mas, quando via, só eu que de fato ia. Me dizia belas coisas em casa para depois colocar fotos em um puro ode à solteirice no facebook. Dizia que fui o melhor do seu ano mas sumia como se eu fosse a pior de todas as coisas. E assim, então, nessa simulação, tudo se desfez.

Diante desta contemporâneidade de excesso de interesse e funcionalidade, você se perguntava “me é útil?” enquanto eu me perguntava “me interessa?”. Há uma grande diferença, apesar de quase ninguém ver. Eu pretendia ser original e até viver pela minha singularidade nada exportável (o que é uma bela morte) enquanto você via qualquer amor como algo secundário e parcialmente conveniente (o que é uma má morte).

À nivel de honestidade, porém, confesso que, nesta conversa, tem faltado a suspeita de que em mim pudesse existir algo de problemático. Existe. Sempre existe. Transei no primeiro dia, me declarei no primeiro susto. Eu sou muito intensa. Ele até me disse que eu queria muito. Eu quis lembrar que ele também parecia estar sentindo isso, mas insultos não são dos meus afrodisíacos preferidos e deixei quieto... apesar de que sim, me arrependo do choro. De chorar na dua frente. Por e para você. Mesmo assim, penso, se é para ter algum excesso que inspira, que seja assim: do bem e avassaladora. Eu sempre fui muito. Irei revisar esta minha ansiedade, obrigada. Mas continuarei tentando achar alguma justiça nesse jogo do amor, acreditando que vence o melhor, o que se dedica mais, o que acorda cedo.

Porém me cabe dizer, querido, que quando uma oportunidade de amor assim acontece é quase uma audácia não aceitar. Um abuso de autoridade.

E não adianta dizer que foi cedo demais, rápido demais, intenso demais. Não afirme que não estava pronto, não estava estabilizado o suficiente, que estava estragado em demasia. O amor não espera. A mulher até pode esperar, mas o amor não espera. O amor não é este ser cor de rosa que saltita feliz nas nuvens. Ele vem, te escolhe, te atropela e acontece. Mas ele não espera e pior: sabe enterrar tudo, não importa o quão formidável é o morto.

E aconteceu naquela hora, quer estejamos prontos ou não... infelizmente. Ama quem pode.

Eu não sei se foi medo ou autopreservação. Ou, de repente, desinteresse, covardia e até mentira. Eu não sei.... aliás, depois da sua reação, eu não sei de quase nada, mas sei que o que você sentiu quando estava comigo era verdadeiro. Logo, prefiro optar pelo dois primeiros. Prefiro optar por ter acreditado em alguém que estava sendo sincero quando disse que fui a melhor coisa que aconteceu num ano tão ruim. Então, perante isso, me pergunto: o que acontece com voce? O que é preciso? O que é preciso para eu te mostrar que poderia ter sido ótimo? O que é preciso para você apostar no amor? Saber que vai morrer amanhã? Saber que vai viver para sempre?

Não entendo esse tipo de conduta. Tem que implorar para você viver seus sonhos? Tem que implorar para você batalhar pelos seus sonhos? Pela sua felicidade? Implorar para acreditar em um amor com a unica pessoa que te juntou dois pedacinhos nesse ultimos tempos? Esta falta de pólvora, eu nunca entenderei.

Acho que a verdade mesmo é que você nunca quis desligar o alarme. Não houve passagem, transmutação, mas dissolução e indisposição. Sim, talvez seja assim. Mas não me arrependo de não ter visto isto antes. Se eu tivesse visto logo de primeira, a gente nunca tinha sido.

Então, querido, me desculpe, mas prefiro os amores que se autorizam sozinhos, sem museificação, sem alarmes. E, assim, peço: vá tranquilo, estamos bem. De verdade. Apesar de que, sinto te dizer, (e talvez este seja o que mais sinto em te dizer), mas a verdade mesmo é que nosso filme acaba com a frase:

"Parabéns.

Você quase teve tudo o que sempre quis comigo.

Ainda bem que você teve medo."







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