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Frágil




Era vidro e se quebrou

Eu sabia. Ninguém me contou.
Aliás, tinha certeza.
Mas fiz
nada.
Paguei caro para ver.

Agora resolvi contar a verdade.
Posso?

Enquanto queima a cigarrilha, escrevo o que sei. Depois resolvemos o que restou.

Lembro-me pouco dos detalhes. Sei que ele segurava um pé-de-moleque. Disse que não gostava muito de doce, queria que eu o ajudasse a consumir aquela fatia. Também não acho que esse seja o melhor sabor. Perguntei se ele precisava de ajuda porque, na verdade, não queria aquilo.  Faria apenas para ajudá-lo.
Ele disse sim. E foi aí que aconteceu.
Mordi o pé do moleque.
Caí nessa besteira.
Naquele balcão de bar, apaixonei-me por ele.
Três noites depois, quando me dei conta, estava debaixo do chuveiro, preparava-me para dormir depois do mais longo beijo, da mais longa sessão de carinhos e do mais delicioso amor.
Mordi o pé, a mão, a alma do moleque.

Pensei ter havido uma conexão. Maluca. Mas conexão.
Segui meus dias com gosto doce na boca.

Lembro-me menos ainda das datas. Sei que ele permaneceu, segurava agora o pé desta moça. Disse que gostava, queria, desejava tê-la. Pensei: Ela quer estar com ele.
Ela
era eu.

Foi então que ele disse não saber. Não sentir. Não querer.
A negativa encheu meus ouvidos de tristeza.
Mordi meus próprios lábios.
Saí daquela besteira.
Menti para ele.
Neguei que as três noites quentes, os três dias ensolarados e os três banhos de banheira tivessem sido…
Marcantes?
Depois da mais longa viagem de trem, cheguei a minha casa. Sem carinho, sem amor.
Mordi o pé, a mão, a alma
não mais do moleque.

Pensei ter havido uma conexão. Enganei-me.
Segui meus dias com gosto amargo na boca.

Lembro-me bem.
As coisas mudaram.
Sei que ele se foi.
Não pude morder, segurar, guardar o pé do moleque.
Ele disse que gostava, eu queria e desejei. Pensei que ele ficaria.
Ele
era fantasia.
E eu queria aquilo.
Foi então que disse a verdade.

Acabou.
Queimou a cigarrilha.

Para bom entendedor. Pouca fumaça basta.

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