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Sobre a loucura humana



Em um pequeno vilarejo, moravam duas mulheres que diziam-se irmãs gêmeas. Uma era negra e a outra branca. Andavam lado a lado, falavam juntas, as mesmas coisas, ao mesmo tempo. Eram profetizas. Moravam numa barraca, cercada de velas, onde profetizavam. Ninguém acreditava nelas. Bom, pelo menos não tornavam isso público. Mas todos – repito: todos – iam ver o futuro com as velhas. Até mesmo o padre da igrejinha. Claro que iam escondidos. Mas, quando alguém via outro alguém saindo daquela barraca, a futrica se espalhava: “Fulano falou com as doidas”. Mas quando viam a brecha, estavam lá sentados, envolto às velas, sentindo o cheiro de mofo e ouvindo as vozes roucas.

No quinquagésimo aniversário do vilarejo, elas anunciaram a todos:

– No centésimo aniversário deste vilarejo, nós morreremos. E, juntos, todos vocês também morrerão. Será o fim de tudo isso!

Todos ficaram em silêncio, com medo. Ah, mas não podia-se mostrar com medo. Afinal, ninguém, segundo eles, poderia acreditar na palavra de duas velhas doidas que têm mais de duzentos anos. “São caquéticas”, diziam. Então, numa grande interpretação, todos gargalharam falsamente.

Desde o começo, a economia do vilarejo era baseada numa vinícola. Gradativamente, a tal vinícola foi ganhando fama. O vinho era feito com uva da mais frondosa parreira. Quase toda a população trabalhava lá. Salvo o dono do mercado, o médico –só havia um-, o professor – também só havia um, e as crianças só estudavam até os 7 anos, para poderem trabalhar na vinícola- , o padre e as duas doidas, que pareciam viver de luz. Apesar do trabalho escravo, viviam harmoniosamente. Viviam, mesmo que implicitamente, e como todo e qualquer ser humano, em função da morte.

Mas é agora que a história começa. Depois da tal profecia, o velho bêbado, todo dia, quando o sino da igrejinha anunciava meia-noite, gritava a todos o número de dias que faltavam para o “gran finale”, como era anunciado.

Ninguém sabia como ele tinha esse conhecimento. Na verdade, ninguém sabia onde ele conseguia dinheiro para a cachaça. Todos o ignoravam, passavam, cuspiam nele e diziam “velho beberrão”. Mas sempre pensavam “está chegando o dia de nossa morte”.

Era véspera do centésimo aniversário do vilarejo. A véspera da morte. Todos com medo. Riam e tiravam sarro da situação porque eram obrigados. Até as crianças percebiam o medo estampado na testa de todos. Passaram o dia quase em silencio.

O dono da vinícola, vendo o desânimo fúnebre instaurado, anunciou:

– Hoje à noite vai ter vinho de graça para todo mundo! O tanto que quiserem! É dia de festa!

Essas palavras soaram como a salvação para todos. A hora até passou rápido. Trabalharam como nunca. Depois, todos foram para casa, se arrumaram perfeitamente bem, se perfumaram e foram festejar. Música alta e bebida para todos.

Aquela noite foi uma loucura. Parecia que todos se libertavam. Afinal, aquele era o último dia. Todos sabiam que era.

Rita deitou-se com todos os homens – até mesmo o padre embriagado. Houve saques, traições e tudo que fazem quando dizem que a morte está por perto. Principalmente confissões. A beata confessou que seu filho era do padre. O padre, por sua vez, confessou que pegava o dízimo e comprava tudo em vinho. O dono da vinícola confessou que era a última noite dele ali, estava indo abrir a empresa na cidade grande. E o velho bêbado, às exatas 23h55 anunciou:

– Faltam cinco minutos! – e gargalhou, proferiu o anuncio como se estivesse degustando o melhor destilado, o melhor cabernet sauvignon; e, ao tempo que falava, gargalhava e gargalhava – daqui cinco minutos nenhum átomo imundo de vocês estará aqui! Seus hipócritas! Energúmenos! Vamos morrer! – e, quase estourando as cordas vocais- Vamos todos morrer!

A embriaguez geral deu lugar à lucidez. Todos viram que não era mais possível fingir. A morte chegava. E o velho bêbado cantava a melodia da marcha fúnebre, o que irritou a todos. O padre, também bêbado, gritou:

– Eles é Judas! Quer nos matar! Joguem pedra neste beberrão!

Não foram só pedras. Tacaram tudo o que viram. Garrafas, comidas, e, no fim, fogo. E, então,o sino da igrejinha soou. Era meia-noite. Centésimo aniversário do vilarejo. E a incógnita permanecia na equação. O que será que será?

Enquanto soavam as doze badaladas, ficaram paralisados, olhando a barraca das velhas doidas, e, como se o cérebro fosse o sino da igreja, ele rolava oco na cabeça de todos, a cada balada. Correr? Gritar?. Nem se deram conta de que o fogo se alastrara por todo o vilarejo. Só perceberam quando viram a barraca das profetisas em chamas.

“É o fim!”. Gritaram todos, lado a lado, ao mesmo tempo. Naquele momento todos eram iguais, pensavam iguais, falavam iguais e profetizaram o fim. E não foi só naquele momento...

O fogo engoliu a tudo e a todos, com a gula de uma fera faminta. Era o fim indigesto daquele vilarejo.


Paulo Maria Jr.

Movido a arte, com 18 anos de uso, feito para andar na Literatura e no Teatro. Este é Paulo Maria Jr; escritor e estudante de teatro.
@paulomariajr Facebook


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Créditos da imagem:
as vizinhas, por Miguel Rodrigues

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