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Uma linda mulher



Eu amo sexo.

A gente aprende desde cedo que “sexo” é uma palavra feia, assim como os nomes das partes íntimas, inventamos apelidos para disfarçar, é difícil falar. Mas a verdade é que uma das melhores coisas da vida, se não a melhor, é uma boa gozada.

Eu fiz do sexo minha profissão. Meu estilo de vida.

Prefiro me definir como “acompanhante”. Mas, se você quiser, eu sou prostituta, garota de programa, puta, mesmo. E eu faço porque gosto.

Ganho, e muito bem, para fazer o que faço. Sexo. Comecei com 18 anos. Peguei um ônibus do interior para a capital com a pretensão de ir estudar. Meus pais não podiam me pagar uma faculdade, eu sonhava ser médica. Acabei na Odontologia, em uma faculdade conceituada. Só consegui por causa do sexo.

Meu nome no trabalho é Camila. Para meus pais e os outros, eu sou uma modelo comercial bem-sucedida. Até faço trabalhos de modelo, mas a maior parte de minha renda vem de acompanhante. Ou prostituta, puta, chame como desejar.

Sei que meus pais nunca aceitariam, nem a maior parte de meus amigos. Que não são muitos. A sociedade não entende bem uma garota de programa, e por isso eu tenho uma vida dupla. Poucas pessoas conhecem a Camila.

Muitos de meus clientes são pais de família, pastores, padres e já peguei até alguns famosos que aparecem felizes com mulher e filhos nas revistas.

Todos nós fazemos coisas escondido. Na maioria das vezes, são deliciosas... concorda?

Hoje estou com 25 anos, mas me dão 21 ou 22, o que eu adoro.

Neste tempo experimentando o sexo, aprendi a gostar mais de algumas coisas. Muitas delas estranhas à maioria das pessoas. Por exemplo, sadomasoquismo. Coisas que fariam aquele livro, Cinquenta tons de cinza, parecer um conto de crianças. Tem também o bondage, uma versão mais radical do sadomasoquismo, com aparelhos de tortura que podem machucar e até matar: a “vítima” pode ser amarrada, amordaçada, presa em uma camisa de força, eletrocutada, algemada etc. Existem pessoas que levam isso muito a sério... É quase uma religião.

Na cama, já fiz quase tudo. Quer dizer, nem sempre em uma cama. Com um homem, dois homens, três, com uma mulher, com duas, com travesti e homem juntos, só não fiz e não faço com animais, pessoas mortas e crianças. Até porque o segundo e o terceiro casos são crimes! Mas sei de muita gente que faz e até me convidaram para fazer, principalmente com animais.

Adoro a virilidade dos homens, os músculos, a pegada, a barba roçando. Adoro também a delicadeza das mulheres, é como descobrir seu próprio corpo em outro corpo. Há uma teoria de que todas as pessoas são bissexuais. Eu não sei... Mas o beijo de uma mulher e o de um homem são pedaços diferentes de um delicioso aperitivo. Homens têm orgasmo agressivo, brutal. Mulheres, profundo, espiritual. E um orgasmo pode lavar a alma.

Eu preciso ter um orgasmo todo dia, nem que seja sozinha. Sexo acompanhada é ótimo, mas eu me viro muito bem comigo. Gosto de assistir a vídeos pornôs enquanto me toco, ou então penso em alguma pessoa interessante, muitas vezes um cliente. Eu sei bem como “chegar lá”.

Sabe, você pode conhecer muito de uma pessoa através do seu jeito de gozar, assim como por suas posições preferidas. Na hora do orgasmo, uns gritam, outros suspiram, outros xingam, outros gemem, outros se declaram e outros não demonstram reação. Pode variar conforme a pessoa com quem você está trepando e até de acordo com seu humor.

Eu já li todo o Kama sutra e vários livros do tipo, aliás, adoro ler, não só livros eróticos, mas posso dizer que o sexo vai muito além do que ensinam por aí. É como criar uma receita culinária, você sempre pode inovar, apimentar, surpreender. Cada um tem seu gosto para os pratos preferidos.

Tenho vibradores, plugs anais, cremes, algemas, lingeries sensuais e uma série de aparatos para o sexo, que às vezes utilizo com os clientes ou com quem saio. Sei que posso me satisfazer por conta própria, não preciso de ninguém, mas sexo sem dúvida é melhor com outros, digo por experiência própria.

Já me disseram que eu sou viciada em sexo. Pode ser. Eu acho que eu sou viciada em sexo. Mas ao menos não dependo de cocaína, não mais, nem de outras coisas piores. Minha mãe sempre dizia para ficar longe das drogas. Elas, em certa época, quase acabaram comigo, a cocaína até envelhece. Muitos de meus clientes usam bastante droga, peço que não na minha frente. A não ser um baseado, até podemos fumar juntos.

Mas voltando ao meu assunto preferido: sexo faz a pele ficar bonita, aumenta a autoestima, até emagrece! Sexo é o grande assunto do mundo. Onde você menos espera, lá está ele. Não falo apenas do ato sexual, mas de tudo o que envolve o sexo. Não é o amor, não, que faz o mundo girar: é o sexo. O amor geralmente fica melhor no campo das ilusões.

Talvez eu seja meio amargurada. Não espero um príncipe, não vou ser a princesa de ninguém. Não acho que eu seja uma pessoa ruim, apenas uma pessoa que ama sexo e escolheu viver como queria. Provavelmente eu nunca vá ser uma “boa moça”, como na visão de meus pais e avós.

Infelizmente, sofri e ainda sofro bastante preconceito por as pessoas acharem que uma garota de programa não sabe fazer nada além de sexo. E encontrar um namorado que entenda a minha profissão é difícil. Não que eu procure. Estou bem sem ninguém. Às vezes recebo pedidos de casamento, mas é aquela velha história, eles querem te tirar dessa vida, como no filme Uma linda mulher, com a Julia Roberts, ou como a história da Bruna Surfistinha, que se casou com um cliente e largou a profissão. Eles não querem se casar com uma garota de programa. Talvez seja mesmo arriscado. Eles querem tirá-la de todos os outros e terem só para si.

Eu estou cansada... Fiz quatro programas hoje. É sexta, final de semana vou tirar umas férias no litoral. Sozinha, por que não? Já que aprendi a viver assim.

Olhando o mar daqui da janela do meu apartamento, não me arrependo. Que praia linda! Vejo o Cristo Redentor. Consegui tudo sozinha. Minha faculdade, meu apartamento, meu carro importado, minhas roupas de grife, mais de cem sapatos. É importante uma mulher se sentir bonita, ainda mais quando ser atraente é seu trabalho. Dou duro na academia, faço dieta se necessário. Minha profissão é a sedução.

Hoje estou muito cansada. Quando estou cansada, bebo muito. Ando bebendo demais. É a segunda taça de Martini, com muito gelo. Daqui a pouco tenho um encontro.

Estou um pouco nervosa. Por quê?

Espero um homem.

Ele é casado, fala bastante de sua mulher, mas não parece feliz.

Ele fala que a ama.

Santo Deus, eu preciso enxergar isso! Isso que tá dentro do teu peito te matando, Camila!

Eu me apaixonei... Eu me apaixonei por esse homem que vem me esperar lá embaixo. E que jamais vai ser só meu.

Ele é meu cliente há meses.

Não é um encontro, é um programa, Camila.

Ele nem sabe meu nome de verdade.

Eu estou ferrada. Não vou contar isso no #blog, é claro.

O corpo de Camila aprendeu a fingir...

O coração de Camila não consegue mentir.


*

Do meu livro de crônicas Coração em Chamas.

Obs.: Ebook aqui: www.amazon.com.br - impresso aqui: www.livrariacultura.com.br

Em homenagem ao seriado "Felizes para Sempre" :)

Créditos da imagem




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