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Morrer e deixar morrer




“O morrer se torna, cada vez mais, um processo biológico solitário. Morrer é, no presente, uma situação amorfa, uma área vazia no mapa social (...) os que estão próximos dos moribundos, muitas vezes não têm capacidade de apoiá-los e confortá-los com a prova de sua afeição e ternura.” [Norbert Elias]



A morte mobiliza a vida.

Corre-se dia a dia, de lá pra cá, de cá pra lá, para dar tempo de fazer de tudo um pouco, ou, ao menos, tudo o que se espera realizar antes de morrer. Muito do trabalho filosófico que se escreveu ao longo da história humana se debruça sobre o sentido da vida; já que a morte é o destino, pra que ou por que viver?

Desde que o mundo é mundo, diversas civilizações se constituíram em torno de locais onde se celebravam os rituais fúnebres; os primeiros rituais realizados pela raça humana foram os de despedida e despojamento dos corpos, fosse por cremação ou sepultamento.

Vive-se com medo de morrer, quando na verdade, vive-se para morrer um dia. Perfeitos exemplos são extraídos das próprias falas dos mortais, ouvidas aqui e ali: “Preciso fazer isso antes de deixar esta vida”; “Quero for desta pra melhor, quero ir feliz”; Tenho que deixar tudo certinho pra minha família não ter trabalho quando eu morrer”; “O tempo por aqui é curto, não dá tempo de fazer tudo”; “Deixa eu correr pra resolver minhas pendências, que a morte não espera ninguém”...

Mas na hora de falar sério, de verdade, é tabu. Dos que fazem o sinal da cruz aos que viram a cara e desconversam, ninguém quer saber de discutir tal tema aberta e objetivamente. A única certeza que se tem na vida é o fim dela, no entanto, a recusa em ser claro diante do assunto é digna de estudo psicossocial.

O paciente vai morrer. Vai morrer. Sofre de uma doença degenerativa há mais de cinco anos. O corpo está parando; já estão paralisados os membros. É pele e osso. Não fala, não come – se alimenta por sonda –, fica preso a uma cama diariamente, enquanto seus órgãos internos dão sinal de que vão encerrar as operações em breve. Ele está lúcido. Tem plena consciência de que seu fim está próximo e não aguenta mais tamanho tormento. Sente dores, engasga, geme, grunhe. O médico que o acompanha em cuidados paliativos optou pela sedação paliativa, que mantém o doente desacordado, como num coma, até que finalmente morresse. Para que tivesse uma boa morte. Todas as medidas necessárias sacramentar a concordância do paciente foram tomadas corretamente. Porém a negação é maior que o sentimento de compaixão.

“Só Deus sabe a hora que ele deve ir embora!”

O paciente vai se desligar no momento que tiver de ser. O que o médico faz, ao tomar decisão tão delicada, é justamente tentar reduzir o sofrimento do paciente, para que encerre sua vida em paz.

É o tabu. A cultura de que a morte é um castigo. Uma perversidade da natureza, a qual se deve negar. E, enquanto se nega, milhares de pessoas padecem por sequer ser dado a elas ao menos o direito de encerrar a existência com dignidade. Outros milhares, mesmo sem prognóstico de cura, são encerrados nos leitos de hospitais ou UTIs, onde morrem solitários, entubados, num ambiente frio, distante da família, de calor humano, de alguém querido segurando suas mãos, dando-lhes colo. É o mínimo que um ser humano mereceria nu momento tão importante da vida.



Imagem: http://www.corbisimages.com/

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