Novidades

Resposta




Tocou o interfone, mesmo ouvindo o piano, cuja melodia escapava pela janela e parecia se enroscar das folhas da árvore, para dali cair até a calçada como as pequenas folhas amareladas – uma chuva macia. A canção não se interrompeu. Talvez a porta da sala para a cozinha estivesse fechada, abafando o som do interfone. Pressionou novamente o botão, mas a música seguiu.

Impaciente, puxou o celular; direto na caixa.Quis gritar, mas o outro apartamento no primeiro andar também estava com a janela escancarada e a rua estava cheia de senhoras passeando com seus cães, além dos meninos deslizando pela calçada com seus rollers coloridos – a voz talvez chamasse a atenção de todos menos dele.

O piano, encostado à parede ao lado da porta de entrada, não permitia que visse a rua, apenas avistava a copa do jacarandá, que a essa altura estava sem flores, quando se voltava um pouco à esquerda, na direção da janela. O allegro durou ainda quatro minutos antes que a última nota fosse seguida pela insistência do indicador sobre o número 102.

O rosnado que ouviu pelo fone antecipava o azedume que enfrentaria desde o momento que abriu a porta até a despedida autoritária: vê se escolhe hora melhor pro passatempo ou deixa o telefone perto, detesto perder tempo.

Na semana seguinte, no dia em que receberia a visita anti-musical, escolheu Chopin – o terceiro movimento da sonata nº 2 para piano, comprou flores e colocou o vaso na mesinha ao lado do instrumento. Na cozinha, sempre de porta fechada quando ia tocar, o alicate com o qual cortou o fio do interfone estava ao lado do celular.


*

Imagem:
Will Powell, Piano




Créditos da imagem: Piano, por Raquel Oliveira

Nenhum comentário