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A claridade radiosa na poesia de Paulo Andrade



Nem sempre se consegue entre
as areias seixos mandacarus
extrair bromélias de rochas
(Paulo Andrade)


O ensaio, “A claridade radiosa na poesia de Paulo Andrade” tem como proposta ler alguns de seus poemas publicados na obra, “Corpo. Arquivo”, cujos poemas entrelaçam a origem da percepção emotiva do poeta à construção de seus significantes, ler essa “fronteira entre romper e suportar o muro/”.

Quando uma poesia me chega às mãos, imponho-me o mais árduo e áspero dos desafios, ou seja, de observar a integridade de todos os esquemas métricos, estróficos e rítmicos, sem esquecer, no entanto, de que a poesia não se reduz às técnicas métricas, mas sim, ao saber fazer uma tensão harmônica entre os extremos opostos e, nesse sentido, entendemos que a poesia faz com que o imaginário e o simbólico se apresentem perfurados pelo real. Diria, ainda, sem medo de errar, que a leitura de uma obra se dá em três tempos: instante de ler, tempo para compreender e momento de interpretar; e acabar por concluir que a realidade é complexa demais para ser apreendida e descrita de maneira objetiva e racional.

A obra, “Corpo. Arquivo”, de Paulo Andrade promove uma dupla impertinência: a da linguagem e a das noções expressas por essa linguagem. O poeta não nos impõe uma voz e, por isso, nos permite construir um caminho próprio de leitura, ao mesmo tempo lentas ou rápidas, prospectiva ou retrospectiva; começar a partir de um ponto arbitrário, voltar, ler o final primeiro, repetir passagens que interessam mais, ou pular algum poema, porém o que é importante observar é que a obra nos amarra na sua construção linear do início ao fim e Leva-nos a pensar o corpo, como a fonte de irradiação de todos os sentidos e de todas as demandas de amor.

Esse texto, A claridade radiosa, na poesia de Paulo Andrade, se constrói por diversos aspectos: a diagramação de seus versos conflui para uma expressividade, assume um caráter material em que a significação da letra, na página, concorre para uma ratificação da ideia geral que o poema transmite. Enquanto o significante aponta para a diferença, abrindo novas possibilidades de significações. O conceito de letra marca a repetição dos mesmos elementos, finitos, no jogo significante, sendo assim, na obra, “Corpo. arquivo,” a visualidade do texto denuncia uma tendência ─ o modo como o poeta desarticula sentidos previsíveis, abusa das metáforas e faz as palavras emergirem vibrando na poesia e rompendo a realidade.

O tom pessoal, sem ser confessional, com que revela os arquivos que se reproduzem nos corpos à custa de um mal entendido do gozo do sujeito. O poeta através de uma linguagem fluente, mas simples; aparentemente frágil, mais bastante intensa, sustentada pela reflexão, ganha força emocional e exprime sentimentos que não figuram de todo nas emoções mais comuns.

A ideia de exílio dentro do poema convive com a criação deste lugar outro em que o poeta redimensiona, mais a vontade, algumas questões e possibilidades assumindo o risco paradoxal que a própria linguagem impõe: seus versos tocam a borda da dor do existir desde o primeiro poema dedicado a Marina, “A sagração da primavera”: “.../Ser primogênita é interditar a/ partilha de perplexidades/ouvir acordes dissonantes do corpo / e não saber acompanhar seu ritmo/ assimétrico, suas harmonias/politonais./” até os últimos versos: “Uma vida é nada/ para quem deseja / devorar o mundo e suas/ linguagens/ firmarei outro contrato/ com Deus.”/ e, ainda, marcar que não há apaziguamento algum que possa surgir para suturar a falta do sujeito, o desconforto e o ceticismo fazem-se presentes, mas isso não significa dizer que a aridez se aposse do sujeito do discurso. As leituras permite que o leitor se envolva e se misture com o poema numa sensação de encantamento com as palavras e de espanto com o sentido e as imagens que produz.

Na criação metafórica, de Paulo Andrade, há uma constância temática. Seus versos se apresentam como textos vivos, que transformam a linguagem num cenário imagético e o mais importante é que há dicção própria; sendo a poesia quem instrumentaliza todos os arquivos de seu intelecto, toda a sua sensibilidade, intuição, razão, vocabulário, toda a sua experiência, conhecimento, o seu senso de humor, enfim, toda a sua cultura. Eis o que faz da obra “Corpo. arquivo”, um trabalho nada ingênuo. Eis alguns versos:


Como heroína na veia
Ejaculação de sêmen
Gatilho de revolver
Risco de fósforo
Pavio de pólvora
Motor de combustão
O poema incendeia

A linguagem, em sua poesia, rompe a qualidade comunicativa, deixando de servir apenas ao objetivo de representar a realidade, para expandi-la, transfigurá-la e transgredi-la. O poeta tenta encontrar por traz das imagens que se mostram às imagens que se escondem e que conduzem às profundezas da imaginação.

Essência

De tão fútil
a pele
agora
é útero

O inconsciente só se revela nas formações discursivas que surpreendem o sujeito, na medida em que o que é dito escapa à intenção do dizer. E o que faz o poeta senão brincar com os significantes, produzindo novos sentidos (metáforas) e novas formas de nomeação (metonímias), subvertendo o código de sua língua? O gozo não tem representação significante exata, no inconsciente, mas tem um lugar, o do furo. De um furo no seio do sistema significante, sempre coberto pelo véu das fantasias e dos sintomas.

Medo
Caranguejos
(
Formas
Disformes
De fibras

De passo a passo
De todointeiro
Afogam-se
No mague
:
Fogem do ataque
inimigo

O poema Genealogia da asma surge com uma estrutura instável, num momento único que propõe e, ao mesmo tempo, nega o que pretende significar.


Genealogia da asma

São fábricas de produzir asmas

que a avó que asfixia a mãe que
sufoca a filha que afoga o filho que

medusas transformam filhos
em pedra, poeira e pó
paralisam o presente, dispersam futuros

ultrapasse-me e acordará um deus
dentro de você não é conselho
é menos advertência que ameaça

não há pegadas mapas ou bússolas
para perseguir seus rastros,
só tropeços baques e
labirintos de pistas falsas
onde o filho se devora sem norte
até a morte

Quem quiser ter mãe atente-se aos riscos

Ao falar de amor, o sujeito do discurso vive uma busca constante por sanar sua incompletude, aprender com o inesperado fenômeno e multiplicar os sentidos. Num primeiro momento, ele brinca com as palavras, mar translúcido e o significante, Maria Lúcia, proporciona uma sensação de continuidade semântica, uma recriação semântica para os signos e a significação tende ao infinito, isto porque o amor não é uma falácia qualquer. Eis o poema:

Fotografia:
O sorriso a
Mar translúcido
Maria Lúcia traz a
Mesma luz girassol que irradia

Em outro momento o sujeito do discurso, eventualmente inspirado por algo da ordem da poesia, coloca o amor como um desejo de inspiração para completude, no sentido de alcançar um bem maior e suas metáforas e as metonímias brilham fazendo a função de outra coisa, através da qual o som e o sentido se unem estreitamente. Eis outro poema:

Torquato neto, por ele mesmo
descentrado
desenraizado

dentro de fora do centro
ex-cêntrico

narciso enigmático
ensimesmado
sem enigmas
máquina devorando
o mundo mudo

anjo torto
eros e thanatos
lâmina e ferida

difuso e disléxico
vivendo entre
estilhaços de espelhos
espalhados entre abismos

viajante errante
pássaro em fulgor
delirando entre espaços
impossíveis:

o não lugar é o único lar
possível

sou como sou:

É na medida em que uma obra, como essa, surge justa podemos dizer que a verdade se especifica por ser poética. Cabe-nos desejar cem anos luz ao poeta Paulo Andrade e sua obra, “Corpo. Arquivo”.

Iracy Conceição de Souza
Doutora em Letras Vernáculas.

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