Novidades

O último trem




Desci sem pressa as escadas cinza que moldavam o caminho até a plataforma do trem. Passo a passo me dei conta da atmosfera melancólica que aquilo me proporcionava.

O vento frio ia e vinha sem medo, trazia consigo pequenas nuvens escuras de poeira viajante. Também fazia com que as plantas de um outonal vermelho seco abraçadas ao muro branco que protegia a estação dançassem em um espetáculo sem público indo da direita para a esquerda e descansando enquanto se preparavam para o próximo passo.

Sentei em um banco sem cor. Não havia qualquer barulho, o silencio passeava por cada canto do lugar naquele vazio aconchegante.

Engraçado como estações de trem são sempre assim, o nada preenchido por pessoas que vem e vão e deixam as outras irem e virem. Um lugar certo para mim. Havia algumas pessoas aguardando o próximo trem. Nenhuma delas falava. Quase nem se mexiam.

O vento não se cansava de obrigar as plantas a darem o seu pequeno show. Elas também não pareciam incomodadas.

Durante os minutos, incontáveis, que ali fiquei o único barulho que ouvia era do trem se aproximando. A frente da maquina vinha sempre num vermelho vivo que gritava enquanto aproximava. No momento em que as portas se abriam o som de vozes rebatia em mim, aleatórias e agudas.
Demorei um pouco para criar a necessária coragem. Um passo. Dois passos. Ultrapassei a tal faixa amarela. Ninguém se importou. Pude notar treze diferentes e silenciosas pessoas distraídas. Dos infelizes boatos dizia-se que tal cabalístico número trazia azar. Mentira trovada sem amor.
Fechei os olhos, cabeça pra cima. Deixei que toda a energia se concentrasse e o vento frio tomar toda a minha pele. Ouvi o barulho. Preferi não ver. Apenas fiquei, cambaleei de leve, meu peito subia e descia pesado, o sangue percorria dolorosamente meu corpo. Soltei o papel que segurava, deixei o corpo cair. Senti o alivio da paz ser libertado a cada osso que moía.

Senti que finalmente vivia.



Dayane Manfrere
Dayane Manfrere é escritora iniciante; sonha em ser letrista. Paulista. Veio ao mundo em um dia 7 do ano de 1988, é escorpiana. Escreve no Enquanto a Chuva Caí, é revisora e colaboradora no Homo Literatus. Uma Shakespeareana sem cura que ama Poe, Wilde e Tchekhov.

Blog facebook.com @mydearday skoob


*

Créditos da imagem:
Train station

Nenhum comentário