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Paralisia




Minha espera chega ao fim. Somos presa e predador. Fora isso, o túnel negro da noite infinita.

Ruído de tranca se abrindo, o predador saía. Minutos depois, voltava. Teria encontrado outra vítima em seu perambular? Se me encolhesse no mais absoluto silêncio e escuridão, talvez ele se contentasse com um golpe, ou um cagalhão pelo caminho (apenas para registrar passagem, depositar sua merda no seu território). Mas se ele já estiver faminto, pequenas alegrias não lhe servem. Presa, eu já não discernia a segunda do sábado, reclusa na cela, de cujo exterior conhecia tão pouco; trilhas nas quais minha imaginação teimava em caminhar, percebendo que os pés já não costumavam ir longe, próximos da cerca imaginária tão impossível de pular como uma ordem de execução do Juízo Final. Eu nunca o vi matar, mas sei que morrerei – e, a primeira de suas presas, vejo sua falta de habilidade: lentidão, excesso de golpes, mordidas e arranhões a esmo, qual filhote de leão ainda brincando com filhote de zebra. Também sou inexperiente em morrer, penso eu. Tenho tentado fazer minha parte, mas é difícil esquecer o pânico, me mexer um pouco que seja. Eu estou nele, ele está em mim. Logo, só eu estarei nele, e um pouco mais tarde, não existirei nem mesmo dentro dessa forma tão abjeta.

Em outros casos, uma blasfêmia poderia acelerar a execução: grito que Deus não existe, que a Bíblia é um livro de maldades, e ele acabaria com isso – mas ele já não consegue fingir que se importe com essas coisas. Vive por meio da crença em sua força e direito; eu, da fé na sua ferocidade. Quase morta, eu não existia por mim mesma, mas só por meio dele, como seu destino e presa. Grande como é, ele exercerá sua vez na cadeia alimentar ainda muitas vezes; eu não tinha tempo para conjeturas, verdades, explicações, pois estava prestes a cumprir o nosso acordo darwiniano; pacto de sangue, inscrito em minha genética como objetivo da genética dele; acordo mais sagrado que todas as leis criadas por todos os homens. Tão natural quanto racional, esse pacto adivinha-se nos seus vis olhos triunfantes, que eu vejo embaçados pelas muitas lágrimas que trocamos. Quem sabe, a piedade não lhe entra no coração? Quem sabe, ele não caia morto por um raio ou pela lepra? Quem sabe, o Exército Vermelho não entra triunfante, como se esse lugar fosse Berlim, 1945? Quem sabe, o Papa não telegrafa para Ele, pedindo Paz na linguagem dos lobos? Quem sabe, eu receba clemência do governador do Arkansas, que nem vive a tantos zeros longe de nós? Nas peças antigas, eu poderia dizer minha última fala ou fazer o meu último gesto, e o Deus Ex Machina sairia de seu andaime com asinhas de papel, antes que o pano descesse e o suave sono voltasse às minhas pálpebras alarmadas pelo ir-e-vir do predador nesta noite (in)comum.

Mas predador que se preza não gosta de filmes ou peças: na sua ignorância animal, elas são representadas apenas pessoas da espécie inimiga, seres estranhos fingindo ser o que não eram. Ele pensava ser o que era, mas às vezes eu sentia que ele também representava, mostrando os dentes como quem imitasse os cavalos ariscos familiares à sua infância. Como prezar um mundo de fantasia à margem da densa crueldade? Ou mesmo dos monstros diabólicos, da negação do prazer suave pela utilidade bruta; do trânsito incessante de um quarto para o outro em busca de saciar o estômago antes de um sono pesado e sem imagens? Não foi frequente, mas cheguei a intuir uma vaga esperança: a de conversão de presa em parceira de suas peregrinações – e aí, nos associaríamos em cooperação ou simbiose (um cúmplice, um lambe-botas, um assecla, um filhote de predador, talvez). Mas seria tão impossível quanto pedir à jararaca que se amigasse ao rato.

Prezamos a ordem das coisas mais do que nossas individualidades em particular. Arrepiam-lhe os pelos, que parecem intensificar o cheiro de meu temor; que, por sua vez, eriçam-no ainda mais. Sei que é a minha hora (e nem um lambari frente a um cardume de tubarões tremeria tanto), quando ele dá mais dois passos em minha direção. Lá fora, a noite escura apita forte, no ultrassom mais agudo que todos os agudos perceptíveis pela minha espécie: era o Nada (o túnel negro da noite infinita? O deus da Morte nos subúrbios do meu coração? Meu pensamento continua apalpando as paredes dessa cela, à cata do tijolo podre pelo qual sairá, liberto dessa carne condenada. Tendo à grandiloquência, talvez apenas porque Ele, o Predador, tenha a mente selvagem demais para compreendê-la, satisfeito com a efêmera orgia do sangue ainda circulante em minhas veias.
Se Ele não se saciar... a fome voltará, e são três as opções: A) morto o apetite dele, eu estarei por aqui, cadáver exposto aos urubus que terminarão o serviço começado; B) apenas um de meus braços ou pernas servirão por hoje. Mas, amanhã, voltaremos à opção A; C) hoje ele me devora completamente.

Não imaginem que desisto: gritarei, mas será inútil; não há Salvador: só as doze crianças e o atirador de Realengo; Marion Crane e Norman Bates, Jesus e os centuriões; 6 milhões de judeus e Hitler. No ínfimo instante desse relato, ali sempre estará Ele. E ali também os seus ossos, que são da cor dos meus; os seus dentes de fera falsamente ultrajada, como se fosse eu o cordeiro que lhe suja o córrego das veias profundas e não ele que me contaminará com sua mordida. Eu lutarei, mas não conseguirei rompê-las, e, prazeroso, ele lamberá as feridas dessa batalha quase cômica na sua pequenez e banalidade.

Não sei se somos macho ou fêmea, mas isso não importa, pois se trata de carne. Seu andar pesa como seu porte e vejo até cabelos entre os seus artelhos onde caem gotas de baba. Mas só vejo o túnel escuro da noite infinita, com mais vácuo do que planetas onde morar e presas para se comer. Ele está a dois míseros passos de mim.

Minha última esperança lança um olhar para a porta;e, custando a desarmar-se, convida-o timidamente para brincar. Seus olhos não me sorriem – antes, debocham. Não me atrevo a proferir palavra diante dos dentes que há tanto tempo roeram o osso da misericórdia. Vejo suas pupilas se dilatarem – desprezo, asco, “Venha, ser imundo, para que eu dê o bote da misericórdia”.

Inútil espera, pois eu não vou até ele.

Nem volto para mim.

Gisele Toassa
Nasceu em Bauru, coração de São Paulo. Literatura é sua paixão, mas ainda não publicou nada. Fez psicologia, fono e segue carreira acadêmica na UFG (talvez por amor à leitura ou falta de imaginação). Passou por São Paulo e Toronto, mas atracou em Goiânia.
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Créditos da imagem:
Door way, Chris Waits Seguir

2 comentários:

  1. Olá... só uma observação sobre "(e nem um lambari frente a um cardume de tubarões tremeria tanto)"

    Lambari e tubarões navegam pelas mesmas águas? Pareceu-me estranho, mas ficção é ficção.

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    Respostas
    1. Bem observado. Lambari é de água doce, né? A ideia a expressar foi a de menoridade, insignificância... Acho que esses dois peixes têm um sentido para mim, eis porque aparecerem juntos. Abraço!

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