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Poemas de Ana Farrah




– Dói, né?
– O que, exatamente?
– Sei lá... tá na moda dizer que dói. Tantas dores, é mais cult assumí­las cruas.
– Quando tu sentir dor REAL, de moer o osso, aí sim, vem me dizer que dói. Se não for assim, se é dorzinha miúda, fininha, quase coceira... nem vem.
Te mostro o que é DOR mesmo, se quiseres.
– Não, tudo bem. Na verdade nem dói tanto assim... mas incomoda.
– Hum, tá. Aí sim. Essa vida tá mesmo, muito incomodativa.





trágica

Eu derrubo coisas. Fato. Ou te faço derrubar.
Meu pai brigava muito comigo. Eu quebrava muita coisa.
Zoaram com a minha cabeça, sabe... Agora sou assim.
Então desculpa aí, se sou meio ogra e derrubo coisas na tua casa.
Briga não, por favor. É minha marca.
É que eu derrubo coisas.





quase morro (e não vejo tudo) tenho uma síncope uma febre delirante culpa dessa fome uma fome maior que a do jejum uma secura desértica que é sede de gente um oco buraco negro que ultrapassa a borda desse corpo o meu tão incompleto e aleijado sobra de vazios e partes faltantes (o corpo do outro) pra tapar o sol das minhas carências todas com uma peneira maisque furada.
Eu não me basto.





Ofereço (me): serviço de ponta, pagamento à combinar
[em ponta de faca].
Lavo bem, passo (por cima) e ponho fogo.
Faço também omelete e massagem.
Atende a domicílio: homens, mulheres, casais,
ou [quem dá mais?]
Tratar aqui, no pé do ouvido.
Ou no terreiro, com Salomé.





Eu me mostro assim, um tanto,
por ser tão
fratura exposta
a me sangrar toda
é a minha verve
assim, de se esvair
tenho pressa, sou urgente
derrame sem estanque.
Agradeço a ti, pela coragem de ter
andado por aqui
sem se cortar.





bilhete

só queria dizer que quando cravei aquele alfinete no boneco de vodu com a tua foto não foi nem
pra te grudar pra sempre em mim, que até eu também pego nojo,
nem pra te fazer sofrer, porque seria por demais tedioso ter na mão um bichinho assim, tão
choroso.
foi pra fazer tu te lembrar pra sempre, quer dizer, pelo resto da tua existência e assim por diante
(supondo que haja algo depois disso), indefinidamente, ininterruptamente, quando tu menos
esperares, nas horas mais impróprias, com as outras mulheres, principalmente, inclusive junto à
tua mãe, às tuas filhas, aos teus irmãos, na maca do hospital, quando estiveres morrendo, enfim.
Foi só pra isso, meu bem. Na melhor das intenções.





Ana Farrah
é gaúcha da leva de 81, ano do Galo. Leu muita bula de remédio, vê poesia onde não tem e escreve desde sempre. Escorpiana caverninha, tem um autismo brando. E isto avança. Tem escritos no blog Mostra a cara no facebook:
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Imagem:
sexy muscle, por Baba Gozum

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